Entre o abandono e o amor: Associação Entre Pegadas completa 11 anos de luta animal no CEASA do Rio
Projeto criado para apoiar protetores independentes se transformou em uma rede de resgate, cuidado e adoção de animais em uma das regiões mais complexas da cidade
Por Lais Silveira
Neste mês de maio, a Associação Entre Pegadas completa 11 anos de atuação dedicados ao resgate, cuidado e proteção de animais em situação de abandono. O que começou como um grupo de divulgação nas redes sociais se transformou, ao longo dos anos, em uma verdadeira rede de apoio para protetores independentes e animais resgatados no Rio de Janeiro.
Criada em 2015, a associação nasceu com uma proposta comunitária: ajudar pessoas que resgatavam animais, mas não tinham estrutura, visibilidade ou apoio para seguir sozinhas.
“A ideia inicial era criar um grupo de divulgação para apoiar protetores independentes. Quando uma pessoa resgata um animal, normalmente não sabe o que fazer, não tem como cuidar e não tem rede de apoio”, relembra Cristina Malafaia Caetano dos Santos, diretora administrativa da associação.
Na época, o trabalho acontecia principalmente pelo Facebook, enquanto o Instagram ainda dava seus primeiros passos. O objetivo era ampliar a divulgação de resgates feitos por pessoas comuns, já que campanhas de adoção costumam priorizar os bichos dos próprios abrigos.
“A gente queria mudar um pouco isso. Nas campanhas, além dos nossos animais, a gente abre espaço para esses protetores levarem também os seus animais, o que é uma forma de apoio”, explica Cristina.
Desde o início, o Entre Pegadas também apostou na conscientização como ferramenta de transformação. Palestras em escolas, eventos e campanhas educativas passaram a fazer parte da rotina do projeto, sempre reforçando temas como proteção animal, castração e guarda responsável.
Mas foi em 2016 que a história da associação mudou de rumo. Um pedido de ajuda levou o grupo até o CEASA, em Irajá, uma das áreas com maior circulação de caminhões e fluxo intenso de pessoas no Rio de Janeiro. A intenção inicial era ajudar na castração dos animais que viviam no local. Só que a realidade encontrada ali transformou completamente o trabalho do grupo.
“Já saímos de lá com uma ninhada de uma cadela que tinha parido dentro de um ferro-velho”, conta Cristina.
O que era para ser um apoio pontual virou uma atuação permanente. Aos poucos, o grupo começou a castrar, vacinar e resgatar animais que viviam soltos entre estacionamentos, galpões e áreas de carga. Sem espaço físico no início, muitos eram levados para casas de voluntários até conseguirem adoção.
Em 2016, a associação conquistou um espaço dentro do CEASA para funcionar como ponto de triagem dos animais resgatados. A ideia era criar um fluxo contínuo: os animais seriam acolhidos, tratados, castrados e colocados para adoção. Mas a quantidade de abandonos tornou o desafio muito maior do que o planejado. “A entrada é sempre maior do que a saída”, resume Cristina.
Com o passar do tempo, o local passou a ser conhecido como ponto de abandono. Animais começaram a ser deixados amarrados na porta do abrigo ou jogados por cima do muro. Ao redor do CEASA, comunidades inteiras convivem diariamente com cães e gatos soltos, muitos deles sem castração, expostos à fome, doenças e atropelamentos.
“O CEASA é um dos lugares do Rio de Janeiro com maior fluxo de caminhões, vans e carros. É uma loucura o tempo todo”, relata.
Uma batalha diária
A rotina dentro do CEASA é marcada por situações extremas. Animais atropelados, doenças graves, infecções e abandono fazem parte do cotidiano dos voluntários.
“Tem animais que, às vezes, estão há mais de um mês atropelados. É uma situação que, inicialmente, é desesperadora. Muitas vezes, você não sabe por onde começar”, conta Cristina.
Ela explica que muitos resgates chegam em estado crítico e exigem internações, cirurgias e tratamentos caros. Frequentemente, os próprios voluntários arcam com os custos para que os animais não fiquem sem atendimento.
“Nenhum de nós ganha nada com o projeto. Tudo isso é feito com muito amor, mas precisamos comprar ração, medicação e pagar cirurgias”, diz.
Hoje, a associação é formada por uma rede fixa de voluntários que se divide entre os cuidados do abrigo, campanhas de adoção, atendimento veterinário, redes sociais, logística e arrecadação. Muitos estão no projeto desde o começo.
“É um trabalho movido por muito amor”, resume Cristina.
Ao longo de 11 anos, o Entre Pegadas já realizou cerca de 2 mil castrações e resgatou mais de 1.800 animais.
Histórias que resistem
Entre tantos casos difíceis, algumas histórias seguem como símbolo de esperança para quem acompanha o trabalho do Entre Pegadas.
Uma delas é a de Joana, uma cadela caramelo abandonada no CEASA. Com o tempo, os voluntários descobriram que ela era cega e surda.
“Ela sabia que a gente chegava pela vibração do solo e pelo cheiro”, relembra Cristina.
A chance de adoção parecia praticamente impossível. Além de adulta, Joana tinha duas deficiências que dificultavam ainda mais a adaptação. Mas a história tomou outro rumo quando uma família decidiu adotá-la.
“É incrível alguém adotar um cachorro caramelo, vira-lata, adulto, cego e surdo”, conta.
Outra história marcante é a da Zoeh, uma gata que perdeu os dois olhos após infecções severas. Ela foi adotada por uma família em São Paulo e, mesmo sem enxergar, se adaptou completamente ao novo lar.
“Você vê os vídeos dela andando pela casa e nem parece que é uma gata cega”, diz Cristina.
Mais do que uma causa animal
Manter o abrigo funcionando exige muito mais do que boa vontade. Rifas, bazares solidários, campanhas de arrecadação e doações ajudam a manter os animais alimentados e medicados. Ainda assim, os recursos quase nunca são suficientes.
“A fila de pedidos de ajuda é gigante, e a fila de pessoas dispostas a ajudar é pequena”, afirma Cristina.
Para ela, a dificuldade de mobilizar apoio para o abrigo também revela algo maior sobre a forma como a sociedade se relaciona com causas coletivas.
“Quando eu falo de animais, falo disso porque é onde a gente atua, mas você vê isso de modo geral. As pessoas ficam, muitas vezes, focadas no próprio trabalho, nas próprias responsabilidades, na própria vida e não têm esse olhar de comunidade”, reflete.
Ainda assim, Cristina acredita que pequenas ações podem fazer diferença, seja com doações, divulgação nas redes sociais ou campanhas solidárias.
“Nossa meta continua sendo conscientizar as pessoas sobre os maus-tratos, sobre a importância da castração e dos cuidados com os animais”, explica.
Depois de mais de uma década convivendo diariamente com abandono, dor e resgates difíceis, Cristina diz que existe uma palavra capaz de resumir o que mantém o projeto vivo.
“O que eu mais vejo nesses bichos, independentemente do que eles sofram, é que eles não perdem a capacidade de amar”, reflete. “Eu acho que a palavra que resume tudo isso é amor.”
Transformar direitos em prática: o que move o trabalho do IDC
Entre redes e articulação, o instituto aposta no fortalecimento de quem já está nos territórios para gerar impacto real
Por Ana Julia Silveira
Nem sempre o desafio está em garantir direitos, mas em fazer com que eles cheguem, de fato, a quem precisa. É nesse intervalo – entre o que está previsto e o que acontece na prática – que o Instituto de Direito Coletivo constrói sua atuação. Desde 2017, o IDC organiza seu trabalho a partir de uma lógica que se repete em diferentes frentes: o fortalecimento de quem já está nos territórios. Mais do que criar soluções isoladas, a aposta está em dar estrutura para que iniciativas existentes ganhem continuidade e escala.
Para Tatiana Bastos, presidente do IDC, essa ideia de impacto passa menos pela inovação constante e mais pela permanência: “Não é sobre criar algo novo o tempo todo, é sobre garantir que quem já está na ponta consiga continuar. Na prática, isso significa olhar para organizações que já atuam em suas comunidades, mas enfrentam dificuldades para se estruturar, acessar recursos ou simplesmente se manter. Nosso papel é fortalecer esse caminho, para que elas tenham mais segurança, autonomia e consigam ampliar o que já fazem”.
Essa lógica aparece com clareza nas iniciativas que operam, muitas vezes, longe dos holofotes, mas são decisivas para que o trabalho aconteça. Ao desenvolver soluções como a eTransparente ou fortalecer redes com mais de 120 organizações, o foco não está na ferramenta em si, mas no que ela viabiliza: organizações mais estruturadas, aptas a acessar recursos públicos e a manter suas atividades com maior estabilidade.
Mais do que criar projetos, o IDC atua ajustando engrenagens.
O mesmo princípio orienta o trabalho com cooperativas de catadores, onde a pauta ambiental se cruza diretamente com a inclusão social. Ao apoiar processos de formalização, geração de renda e participação em políticas públicas, o IDC atua para reposicionar esses trabalhadores dentro da cadeia de resíduos. Como aponta Tatiana: “não é só sobre reciclagem, é sobre reconhecimento. Sobre garantir que essas pessoas sejam vistas como parte essencial da solução”.
Esse movimento revela também a forma como o IDC entende sua atuação: menos como protagonista isolado e mais como articulador. Seja conectando organizações, incidindo sobre políticas públicas ou traduzindo demandas complexas em ações concretas, o objetivo é o mesmo: reduzir a distância entre direito e realidade. “Direitos não se garantem sozinhos. Eles precisam de estrutura, de rede e de continuidade para existirem na prática”, resume Tatiana.
No fim, o que move o IDC não é apenas a criação de iniciativas, mas a construção de caminhos para que elas permaneçam. Porque, mais do que existir na lei, o direito só se realiza quando consegue fazer parte da vida real.
Mulheres reagem todos os dias. O Reage Mãe existe para que essa reação venha acompanhada da consciência de seus direitos e de sua força.
Neste Dia das Mães, conheça a história de uma casa de acolhimento para gestantes e puérperas, que mostra que lutar com apoio é diferente de lutar sozinha
Por Bárbara Faria
O Reage Mãe nasceu de uma dor muito pessoal, de uma história familiar marcada por violência obstétrica que terminou em óbito. Esse foi o estalo que Daniela Freitas, doula e ativista pelos direitos das mulheres, da gestação e da primeira infância, teve ao dar vida ao projeto que virou uma rede de apoio para gestantes em situação de vulnerabilidade em Petrópolis, no Rio de Janeiro.
O que aconteceu na família de Daniela não foi uma tragédia isolada. É um padrão que se repete muitas vezes: mulheres sendo abandonadas, negligenciadas e violentadas justamente no momento mais delicado de suas vidas, que é a gestação e o parto. A pesquisa “Retratos do Parto e do Nascimento no Estado do Rio de Janeiro”, lançada em setembro de 2025 pela Fiocruz, aponta que 65% das mulheres sofreram algum tipo de violência obstétrica no Rio de Janeiro entre 2021 e 2023. “Foi entendendo este padrão de sofrimento invisibilizado que nasceu o Reage Mãe, como uma resposta, um grito e uma rede de apoio para que outras mulheres não passem pelo mesmo”, compartilha Daniela.
Quem acompanha partos se depara com uma realidade muito dura, que é a de mulheres normalizando a violência obstétrica porque já vivem outros tipos de violência, como a doméstica, antes de chegar à maternidade. A doula explica que para elas, a violência no parto acaba sendo só mais uma camada. “A desigualdade é gritante e tem cor. Quem mais sofre com essas violências e com a vulnerabilidade são, em sua maioria, mulheres pretas. Já vi mães deixarem os filhos dormirem até mais tarde, durante as férias, para pular o café da manhã e conseguirem garantir apenas o almoço. Já vi gestantes deixarem de comer para alimentar os filhos que já têm. Essas mulheres são constantemente julgadas pela sua vulnerabilidade, enquanto o abandono paterno quase nunca é questionado. Então, quando falamos de suporte físico e emocional no parto, precisamos ampliar essa visão. Não basta acolher naquele momento se o básico dentro de casa não está garantido. Falar de cuidado é também falar de comida, dignidade e sobrevivência.”
Nesse contexto, o primeiro passo do Reage Mãe é uma escuta verdadeira, sem julgamento. A partir daí, são feitos os encaminhamentos necessários, de acordo com a realidade de cada mulher, seja na saúde ou na assistência social. “O abraço é coletivo. Não vem apenas de uma representante, mas de toda uma rede de mulheres que constroem o projeto juntas. É isso que transforma: a mulher entende que não está mais sozinha.”, conta Daniela.
O nome do projeto não foi escolhido por acaso. Reage Mãe é, nas palavras de Daniela, um tapa na cara da sociedade porque as mulheres já reagem todos os dias. A diferença é que agora a reação é com ainda mais consciência para que as pessoas enxerguem suas dores, suas lutas e sua força. É sobre mulheres entenderem seus direitos para ocupar seu lugar de fala. Inclusive, o projeto atua também em casos de gravidez na adolescência, lutando para que meninas sejam amparadas, cuidadas e tenham oportunidades.
Por um bom tempo, o trabalho foi itinerante, mas era bastante difícil mantê-lo. Hoje, Daniela cede uma parte da própria casa para o projeto funcionar. Entre as ações feitas estão a montagem de enxovais, realização de bazar gratuito e oferta de lanches durante as reuniões. É por isso que o desejo do Reage Mãe é ter uma sede onde as mulheres possam chegar sabendo que aquele lugar existe para elas. “Um dos maiores sonhos é ter um espaço próprio, uma casa que possamos chamar de nossa. Um lugar onde essas mulheres saibam que sempre terão acolhimento, apoio e pertencimento.”, explica a doula.
Para Daniela, o Dia das Mães é sempre muito especial, e até simbólico, porque acontece bem próximo do aniversário dela. “A gente sempre prepara uma comemoração cheia de afeto. É um momento de celebração dessas mulheres que enfrentam tantas batalhas todos os dias.”
O Reage Mãe aceita mimos que elevem a autoestima dessas mulheres: bijuterias, maquiagem, roupas, ou até um vale para um dia de cuidado, como salão de beleza. Quem quiser ajudar pode entrar em contato pelo número (24) 99284-6199 ou pelas contas no Instagram (@reagemae e @danireagemae). O acolhimento e o suporte são capazes de transformar as realidades dessas mães e, consequentemente, o futuro de seus filhos.
Entre a dor e o acolhimento: projeto da Uerj transforma vidas de pessoas com fibromialgia
Iniciativa gratuita une ciência, escuta e atividade física para enfrentar a dor crônica e criar redes de apoio na universidade pública
Por Ana Julia Silveira
A dor nem sempre aparece em exames, mas atravessa o corpo e o cotidiano de quem convive com a fibromialgia de forma persistente. É uma dor generalizada, muitas vezes difícil de descrever, que se mistura ao cansaço, às alterações de sono e aos impactos emocionais que a condição carrega. Na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), um projeto gratuito vem transformando essa experiência em uma nova possibilidade: a de cuidado, acolhimento e reconstrução da vida em coletivo.
Coordenado pelo professor Paulo Sérgio Chagas Gomes, o projeto surgiu a partir da proposta da universidade pública e se mantém há mais de duas décadas como um espaço em que produção de conhecimento e prática caminham juntos. “A universidade funciona nesse tripé de ensino, pesquisa e extensão. O que a gente produz aqui não é só para ficar dentro da universidade, mas para circular, para chegar às pessoas. E também para olhar para o nosso próprio entorno, para o que está acontecendo aqui dentro”, explica o coordenador.
Hoje, o projeto atende majoritariamente mulheres, não por recorte definido, mas porque a própria fibromialgia incide de forma muito mais frequente nelas, em uma proporção que pode ultrapassar cinco casos para um. Ainda assim, o desconhecimento sobre a condição segue sendo um dos principais obstáculos enfrentados por quem convive com a doença.
A fibromialgia é uma condição complexa, sem cura e, em muitos casos, também está associada a quadros de ansiedade e depressão. Nesse contexto, o diagnóstico e o cuidado exigem um olhar mais amplo, algo que nem sempre acontece nos atendimentos convencionais. Segundo o coordenador, embora não seja possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito, é recorrente que essas trajetórias tragam episódios de estresse intenso ou experiências traumáticas.
“Como pesquisador, eu tenho que ter cuidado com isso. Não dá para dizer que uma coisa causa a outra. Mas o que a gente observa, nas conversas com elas, é que muitas passaram por situações difíceis ao longo da vida — perda de alguém, problemas familiares, algum tipo de violência ou pressão constante”. A recorrência desses relatos, segundo ele, ajuda a dimensionar a complexidade dos casos acompanhados. Diante desse cenário, o projeto parte de um princípio que antecede qualquer protocolo técnico: o reconhecimento. “A primeira coisa que a gente faz aqui é acolher. É fazer com que elas se sintam reconhecidas. Porque muitas chegam sem ter sido ouvidas”, diz Paulo Sérgio.
A partir daí, o trabalho se estrutura principalmente em exercícios físicos orientados, especialmente o treinamento de força, apontado por estudos como uma das estratégias mais eficazes no manejo da fibromialgia. Mas o projeto não se limita a isso. Desde sua origem, a ideia foi construir um cuidado interdisciplinar, envolvendo diferentes áreas da saúde. Ao longo do tempo, essa estrutura chegou a incluir psicólogos, enfermeiros e outros profissionais, mas acabou sendo parcialmente reduzida devido a limitações de recursos.
“Já tivemos uma equipe mais completa, com psicólogo, enfermeira e médico, mas isso se perdeu ao longo dos anos, principalmente porque não é simples manter pessoas trabalhando sem remuneração. A gente continua tentando resgatar isso, porque entende que não é só exercício. É preciso ter alguém que escute, que identifique se a pessoa está em crise, que possa orientar”.
Mesmo com essas limitações, o projeto segue se expandindo. Novas frentes estão sendo desenvolvidas, como atividades de hidroginástica, alongamento e yoga, além de pesquisas que buscam aprofundar o entendimento sobre os efeitos do exercício no tratamento da fibromialgia. Uma das linhas em andamento investiga, por exemplo, qual intensidade de treino pode gerar mais benefícios sem provocar aumento da dor, informação essencial para orientar práticas mais seguras e eficazes.
“A gente quer entender até onde pode ir. Porque, às vezes, um treino um pouco mais intenso pode até ajudar mais, mas precisa ser feito com cuidado. Nosso objetivo é melhorar a qualidade de vida, mas principalmente a funcionalidade. Muitas dessas mulheres trabalham, cuidam da casa, da família, elas precisam estar bem para dar conta do dia a dia”, afirma.
Se a pesquisa sustenta o projeto, é no dia a dia que ele ganha seu sentido mais evidente. Ao longo dos encontros, as participantes constroem relações que extrapolam o espaço das atividades. Criam redes de apoio, trocam experiências, se acompanham fora dali. O que começa como um grupo de tratamento se transforma, aos poucos, em um espaço de convivência.
Esse vínculo coletivo é percebido como um dos pilares do processo. Para muitas, o projeto representa não apenas um lugar de cuidado, mas um espaço onde é possível existir sem julgamento. Não é incomum que participantes que se afastam por um período retornem, motivadas justamente pela falta que esse ambiente faz no cotidiano.
O projeto é gratuito e aberto ao público, sem necessidade de vínculo prévio com a universidade. Podem participar pessoas com diagnóstico ou suspeita de fibromialgia, desde que atendam a alguns critérios básicos de segurança, como a apresentação de atestado médico autorizando a prática de atividade física e, em alguns casos, exames complementares.
As inscrições são realizadas por meio do Instagram do projeto, @fibro.uerj, ou pelo WhatsApp, cujo contato está disponível no próprio perfil. Atualmente, as turmas contam com cerca de 20 participantes cada, e há fila de espera ativa devido à alta procura. Isso indica não apenas a demanda reprimida por esse tipo de cuidado, mas também a relevância de iniciativas que aproximam a universidade da população.
WD Game House: a locadora de games onde a leitura serve como passaporte para a diversão
Em Itatiaia, William Santos criou uma regra simples para ajudar crianças que não têm dinheiro para jogar: quem lê, joga e descobre que as duas coisas podem ser divertidas
Por Bárbara Faria
A WD Game House, em Itatiaia, Rio de Janeiro, nasceu com uma intenção simples e bonita: ser o lugar que William Santos não teve na infância. Um espaço onde crianças do bairro pudessem jogar videogame com dignidade, sem depender de ter dinheiro sobrando no bolso. A impotência que sentia ao ver os pequenos parados na porta da sua lan house era a mesma que ele carregava desde menino, quando ia até a locadora só para assistir aos outros jogarem, na esperança de ganhar alguns minutinhos.
Deixar todo mundo jogar de graça não era sustentável para o negócio, e cobrar de quem não tinha como pagar doía tanto quanto não fazer nada. As primeiras tentativas de driblar essa realidade eram criativas, como a troca de latinhas e recicláveis por horas de jogo, mas não foram muito longe porque a ideia virou alvo de críticas. Foi a partir daí que William olhou para o cantinho da sala e viu naquela minibiblioteca que estava lá desde sempre, quase invisível, uma oportunidade que mudaria tudo. Ele não sabia exatamente como ia funcionar quando propôs pela primeira vez, mas sugeriu da seguinte maneira: dez minutos de leitura valeriam vinte de jogo. Vinte minutos de livro valeriam quarenta de controle na mão. Meia hora lida, valeriam uma hora jogada.
Após sugerir a ideia e os garotos aceitarem, os livros começaram a despertar cada vez mais interesse. Um deles chegou um dia e perguntou se havia livros novos. Disse que já havia terminado o que pegou antes e queria outro. Foi até a estante, escolheu, voltou e pediu uma folha para fazer um resumo, mesmo sem ninguém ter pedido. William conta esse episódio com alegria: “Eu nem pedia resumo. Só veio à cabeça que eles não podiam ir embora mais uma vez frustrados. Hoje, sinto que eles realmente gostam da leitura porque, por mais que tenham o interesse de jogar, se eles não gostassem de ler, nem aceitariam a proposta”, explica.
O acervo conta com uma grande variedade de histórias em quadrinhos e mangás, mas também tem livros de romance e fantasia. No começo, as crianças davam preferência às HQs, como Turma da Mônica e Dragon Ball, mas William começou a notar que, com o tempo, passaram a escolher livros maiores. “O engraçado e bonito é que as crianças e adolescentes que começaram lendo quadrinhos estão migrando para livros mais profundos. Estão lendo livros de heróis, Sherlock Holmes e Harry Potter. Essa mudança aconteceu sozinha, no ritmo deles”, conta.
O sucesso da WD Game House, inaugurada em 2019, é inegável e logo se espalhou pelas redes sociais, tomando uma proporção ainda maior. De acordo com William, a repercussão é bastante positiva. Muitos professores o parabenizam pela iniciativa e pelos incentivos que ele dá aos estudos e à leitura. “Os incentivos que existem aqui na Game House mudam a rotina deles. É uma vitória grande que eu conquistei aqui porque a criança só vai depender dela mesma para poder jogar. Aqui eles vão ter a oportunidade de jogar através da leitura”, comenta.
Gradualmente, o projeto foi ganhando outros incentivos que estimulam foco e educação: não falar palavrão para não perder 30 minutos do tempo conquistado; terminar o jogo do mês, do começo ao fim, para receber R$50; e ter o melhor boletim para concorrer a um videogame doado por seguidores das redes sociais. Com isso, os pais das crianças também passaram a reconhecer a importância do projeto. “Uma mãe disse que o filho está se esforçando mais na escola, chegando em casa e pedindo ajuda nos deveres. Tudo porque ele quer ganhar um PlayStation 5 que vamos dar no final do ano”, explica William.
William Santos tem 38 anos e trabalha com limpeza e manutenção de piscinas há mais de 20 anos. Ele faz parte de uma geração que cresceu ouvindo que videogame é perda de tempo, mas não perdeu a esperança de transformar esse conceito. Ele acredita que é possível mudar essa mentalidade e mostrar que os games podem ser usados para o bem.
A WD Game House é um exemplo disso, já que vem ajudando na rotina das famílias e criando consciência para que as crianças joguem com moderação, adquirindo conhecimento com os livros. “Independentemente do empreendimento que tiverem, eu procuro falar que eles têm que trazer inovação. Por aqui, estou sempre trazendo alguma coisa nova. Agora quero fazer um clube de leitura para a criançada. A inovação aguça a curiosidade da criança”, compartilha William.
A luta do campeão começa meses antes da competição
Entre o nervosismo e a coragem, o jiu-jitsu se torna espaço de crescimento, disciplina e construção
Por Ana Julia Silveira
Antes de entrar no tatame, Guilherme de Souza aperta as mãos, se mexe sem parar e responde baixo, quase como se ainda estivesse se acostumando com a própria voz. Aos 12 anos, ele carrega a timidez de quem está descobrindo o mundo – e o próprio lugar dentro dele. Mas essa postura muda quando o treino começa. No jiu-jitsu, Guilherme encontra um espaço onde consegue se expressar de outra forma, mais segura e direta.
“Eu gosto das aulas… da competição”, diz Guilherme, ainda tímido, mas já deixando claro o que o motiva a continuar.
O início no esporte aconteceu em 2021, logo depois da pandemia, quando os pais, Daniel de Souza e Karen Regina Gomes, decidiram incentivar uma rotina mais ativa. A ideia, naquele momento, era simples: tirar o filho do excesso de tempo nas telas e apresentar uma alternativa. O que começou assim, de forma despretensiosa, rapidamente ganhou outro peso, principalmente, quando o próprio Guilherme passou a demonstrar que queria ir além.
Depois das primeiras experiências em competições voltadas para iniciantes, ele deixou claro que não queria apenas participar. Queria competir de verdade. A partir dali, o jiu-jitsu deixou de ser só uma atividade e passou a organizar a rotina da casa: “Ele acorda, vai para escola, volta, estuda, descansa um pouco e depois vai treinar. O treino começa às três da tarde e vai até às sete e meia da noite. Segunda, quarta e sexta é jiu-jitsu. Terça e quinta, ele ainda faz futebol. Durante a semana é treino e estudo. Celular, só no fim de semana”, explica o pai.
O caminho, no entanto, não foi tranquilo. Pouco tempo depois de começar a competir, Guilherme sofreu um acidente grave durante uma luta. Ao cair, apoiou a mão no chão e quebrou o braço. A situação se agravou no atendimento inicial, resultando em uma fratura exposta e na necessidade de uma cirurgia longa e delicada.
“Foi o pior dia da minha vida”, conta o pai, emocionado. “Era para ser uma cirurgia de uma hora e meia, duas horas… e foram quase cinco. Eu só pensava em ver meu filho bem. Naquele momento, eu não queria mais que ele voltasse para o jiu-jitsu”.
Para Guilherme, porém, a experiência não mudou o desejo de continuar. Ainda no hospital, mesmo lidando com a dor e sem saber como seria a recuperação, ele já falava sobre voltar. “Eu vou continuar, né, pai?”, perguntava.
A recuperação foi mais rápida do que o esperado e, cerca de quatro meses depois, ele já estava de volta às competições. No primeiro campeonato após o retorno, conquistou a medalha de ouro. Mais do que o resultado, o episódio ajudou a consolidar uma postura que aparece desde cedo: a de insistir, mesmo quando o caminho fica mais difícil.
Fora do tatame, Guilherme continua sendo um menino de 12 anos, inquieto, por vezes tímido, apenas uma criança. Dentro da academia, no entanto, ele assume outra postura. Aos poucos, passa a ajudar o professor, acompanhar alunos mais novos e se envolver com o ambiente de uma forma que vai além do treino.
Quando fala sobre o futuro, já projeta esse caminho com naturalidade. Quer seguir no jiu-jitsu, conquistar títulos e, mais adiante, ensinar. A vontade de se tornar professor aparece como uma extensão do que ele já vive hoje no dia a dia da academia.
Para a mãe, as mudanças vão além do desempenho esportivo e aparecem no cotidiano. “O jiu-jitsu trouxe disciplina e responsabilidade. Ele entende que tem horário, que tem regra e que precisa estudar para poder treinar. A gente vê diferença em tudo, dentro de casa, na forma como ele se comporta e na forma como ele lida com as coisas”, afirma.
Essa transformação também impacta a dinâmica familiar. Sem patrocínio fixo, a família encontrou formas de sustentar o sonho do filho. Uma delas é a venda de paçoca em dias de jogo no Estádio São Januário — estratégia que ajuda a custear inscrições, transporte e outras despesas das competições. Ao mesmo tempo, os pais apostam nas redes sociais como uma forma de ampliar o alcance da história de Guilherme e, principalmente, de abrir caminhos.
“O mais importante hoje é o engajamento, porque é isso que pode trazer um patrocinador. Às vezes, a pessoa não consegue ajudar com dinheiro, mas seguir, compartilhar e mostrar para outras pessoas já ajuda muito. É assim que a gente acredita que pode chegar a alguém que consiga apoiá-lo”, explica o pai. O perfil do atleta é o @guilhermesouza.bjj.
O próximo objetivo é disputar o Pan Kids, nos Estados Unidos, uma oportunidade que representa não apenas um avanço na trajetória esportiva, mas também a primeira experiência internacional de Guilherme. Para a família, esse momento carrega um significado especial: é a chance de ver de perto até onde esse caminho pode chegar.
Hoje, a corrida é contra o tempo. Entre treinos, rotina e esforços para viabilizar a viagem, os pais buscam alternativas para tornar possível a participação no campeonato, desde a mobilização nas redes até a busca por apoio e patrocínio. Mais do que uma competição, é uma oportunidade que pode abrir portas importantes no esporte.
Enquanto isso, a rotina segue. Treinos, campeonatos, erros, aprendizados. Um processo contínuo, construído dia após dia, sem atalhos. Para quem está começando, Guilherme é direto: “Tem que começar e não pode desistir. O jiu-jitsu dá muita coisa boa”.
A voz indígena à beira do campo
Locutor esportivo da etnia Xakriaba narra jogos com paixão ancestral
Por Guilherme Frota
Conhecido pelo nome indígena Aukum, que equivale a “onça-pintada”, o locutor Juvenal de Seixas Ferro é figura carimbada em eventos esportivos indígenas no Sudeste do país. Com a força da voz, digna do maior felino do Brasil, ele se orgulha de fazer o que ama, tendo apenas um bloquinho de notas e uma caneta.
“É uma paixão que virou realidade. Não tenho formação na área, mas sempre foi um sonho, desde mais novo, trabalhar com comunicação no rádio”, relata.
Aos 57 anos, Juvenal narra jogos no território onde mora, uma área demarcada no norte de Minas Gerais que abriga a etnia Xakriaba, perto da divisa com a Bahia. Depois de trabalhar voluntariamente por mais de 26 anos em rádios comunitárias, ele afirma ter aproveitado todas as oportunidades e, até hoje, viaja pelo país narrando jogos indígenas.
“Quando saímos da aldeia, tudo aquilo que trazemos serve de conhecimento para o nosso povo. Apesar de nossos anciãos preferirem não sair do território, somos preparados por eles sobre como agir fora de casa”, conta Juvenal.
Entre suas referências na profissão, Aukum menciona o narrador Osmar Santos, conhecido como “o rei da matéria” nas transmissões de rádio. Desde criança, ele foi uma inspiração para Juvenal, assim como Galvão Bueno, com seus famosos bordões na televisão.
“Eu agradeço a oportunidade de contar um pouco de mim para vocês. Na língua dos Xakriaba, eu diria “ariatã”, que, em português, significa “obrigado”, concluiu.
O bazar de 2 reais que muda vidas em Petrópolis
Em uma casa simples em Roseiral, Patrícia Argon devolve dignidade e leva esperança a famílias de comunidades da região
Por Bárbara Faria
Na serra fluminense, uma mulher toca um bazar que, por trás de cabides e araras de roupas, carrega algo muito maior: a crença inabalável de que é possível fazer o bem com o que se tem.
Patrícia Argon é pastora e fundadora do “Projeto Deus Conosco”, um bazar beneficente que funciona, há seis anos, dentro da própria casa. As peças custam 2 reais e, a partir de 30 itens, o preço cai ainda mais, chegando a 1 real. Mas o que Patrícia vende, na prática, não tem preço.
Foram anos de dedicação, com paciência e fé. Um bazar que funciona, desde o início, sustentado pela convicção de que fazer o bem, mesmo em pequena escala, já vale a pena. Havia dias em que faturava apenas 30 reais; outros em que não conseguia nada. Mesmo assim, ela abria as portas, separava as roupas e continuava acreditando que aquele espaço poderia, um dia, alcançar mais gente.
O que ela não sabia é que esse dia estava mais perto de se concretizar a partir da iniciativa de uma cliente. Júlia Taveira não era uma cliente comum. Quando conheceu o bazar de Patrícia, sentiu que aquela história precisava ser vista. Começou a gravar vídeos, publicar nas redes sociais, mostrar os preços, as peças, a simplicidade e a generosidade daquele lugar. Os vídeos viralizaram.
“Um dia resolvi gravar e acabou tendo um bom engajamento. Começaram a pedir mais vídeos, e decidi gravar um das bolsas que garimpei lá. Esse vídeo estourou, saiu da bolha e alcançou muitas pessoas. Hoje, ajudo na divulgação do Instagram, gravando e postando os vídeos”, conta Júlia.
De repente, pessoas de bairros distantes e até de outras cidades começaram a aparecer em Roseiral. A casa, que sempre foi lar, virou também um ponto de encontro. “Deus usou a Júlia para me ajudar”, disse Patrícia, com a simplicidade de quem reconhece a graça nas pessoas ao redor.
Com o aumento das vendas, Patrícia fez o que sempre prometeu que faria se pudesse: doou diferentes itens para quem precisava. Em um único dia, após a repercussão dos vídeos, ela arrecadou quase dois mil reais. Foi às compras, não para si, mas para os outros: mais de 200 caixas de leite, biscoitos, fraldas, pão e itens de higiene. Tudo destinado a crianças, idosos e gestantes de comunidades da região, localizadas em Nogueira, Corrêas e no bairro da Glória.
“Quando abri minha conta e vi que tinha feito quase dois mil reais de doação, eu me maravilhei”, contou. A frase carrega tanto espanto quanto gratidão — de quem nunca duvidou do propósito, mas ainda se surpreende quando ele se manifesta de um jeito especial. Agora, praticamente todos os dias, novas doações chegam à sua porta.
O que torna a história de Patrícia ainda mais tocante é o que acontece nos bastidores. Ela cria três netos, filhos de sua filha, que enfrenta dependência química e não tem condições de criá-los. É Patrícia quem faz tudo. Ao lado dela, o marido, seu maior apoio dentro e fora do bazar.
“O intuito do projeto social que eu tenho não é me fazer crescer. É fazer o projeto crescer para que eu possa ajudar mais pessoas. Meu sonho é montar um galpão onde eu possa receber muitas doações e, a partir disso, atender mais gente. Ainda não tenho como fazer isso. Agora que começou a crescer”, compartilhou Patrícia.
O alcance do projeto, no entanto, vai além das comunidades vizinhas. Quando as chuvas castigaram Juiz de Fora neste ano, Patrícia reuniu doações e as enviou para lá. Ela também ajudou crianças na África com lanches e chinelos. E, para a Páscoa que se aproxima, já está arrecadando caixas de bombom.
Em tempos em que a generosidade frequentemente vem acompanhada de holofotes, Patrícia Argon é um exemplo de quem nunca precisou de audiência para agir. A história dela não é sobre o sucesso após a viralização. É sobre ajudar o próximo, mesmo com poucos recursos, e acreditar que cada pequeno gesto importa.
Para conhecer o Bazar da Pati ou contribuir com doações de roupas e itens básicos, entre em contato pelo WhatsApp: (24) 99223-5466 ou pelo Instagram: @bazardapati2.
A luta do campeão começa meses antes da competição
Pedro Estelita, de oito anos, mobiliza uma cidade e conquista o mundo em campeonato de jiu-jítsu
Por Guilherme Frota
Pedro Estelita, de oito anos, passou os últimos meses juntando dinheiro para atravessar um oceano e disputar o World Professional Jiu-Jitsu Championship em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Para viajar, a família não conseguiria arcar com os custos sozinha, mas o sonho dele se mostrou ainda maior que o desafio financeiro. Com apoio dos pais e de outras pessoas tocadas pela história, ele foi campeão na modalidade e, de quebra, trouxe mais duas medalhas do torneio Eurocup, em Portugal.
A luta de Pedro começou meses antes da competição. Na busca por recursos financeiros, a família abraçou a causa e mobilizou a cidade de Maricá, onde vive. Porém, faltando poucas semanas para o mundial, mesmo com força de vontade e doações locais, as contas não bateram. Então, um clube local conheceu a história e decidiu ajudar.
“Quando o Maricá Futebol Clube ouviu a história de Pedro, quis apoiar. Com a parceria, pudemos seguir o lema que repetíamos em casa: de pouquinho em pouquinho a gente vai chegar lá!”
No dia 15 de novembro, em Abu Dhabi, Pedro se consagrou campeão mundial ao vencer duas lutas consecutivas. Na primeira, enfrentou um australiano e, na segunda, derrotou um atleta do Cazaquistão com uma finalização certeira.
Com a medalha no peito, o Pedro partiu com a família para Portugal. Dessa vez, foi defender o título conquistado em 2024. Nas terras portuguesas, o jovem venceu em duas categorias: com kimono e sem, garantindo a dobradinha no bicampeonato.
“Foi muito difícil chegar até lá. Foram várias doações e fico muito feliz porque as pessoas me ajudaram a realizar esse sonho de lutar no Mundial”, contou Pedro.
Com a trajetória, o pequeno grande atleta acumula seis títulos internacionais e mais de 100 medalhas em competições. Assim, Pedro mostra que é possível alcançar metas com força de vontade, dedicação e amparo daqueles que o acompanham na trajetória.
A delicadeza e a coragem bailam juntas para fazer história
Cria de projeto social na Mangueira, Ingrid Silva se tornou a Primeira Bailarina do Dance Theatre of Harlem, nos Estados Unidos
por Juliana Prestes
A história de Ingrid Silva é, ao mesmo tempo, a trajetória de uma grande artista brasileira e um manifesto vivo contra o racismo estrutural no balé clássico. Nascida e criada no Rio de Janeiro, a bailarina encontrou na dança um caminho de transformação pessoal — e, mais tarde, um instrumento de ativismo capaz de provocar mudanças profundas em uma das linguagens artísticas mais tradicionais e excludentes do mundo.
O Dance Theatre of Harlem (DTH), companhia fundada nos Estados Unidos com o propósito de ampliar a presença negra no balé, tornou-se um porto seguro para talentos brasileiros. Além de nomes como Simone Guedes, foi ali que brilhou Bethânia Gomes, filha da historiadora e ativista Beatriz Nascimento, que entrou para a história como a primeira negra brasileira a alcançar o posto de Primeira Bailarina em uma grande companhia internacional. Em uma de suas vindas ao Brasil, Bethânia conheceu a jovem carioca Ingrid Silva — encontro decisivo que ajudaria a redefinir os rumos da dança clássica no país.
Oriunda do projeto social Dançando para não Dançar, na Mangueira, Ingrid cresceu em um ambiente onde o balé ainda parecia um sonho distante. Aos 17 anos, enquanto estudava na tradicional Escola de Dança Maria Olenewa, chegou a estagiar no Grupo Corpo e na Cia. Deborah Colker, experiências que ampliaram sua formação artística. Ainda assim, o balé clássico seguia como um território de difícil acesso para uma bailarina negra no Brasil.
Com o incentivo de professores e de Bethânia Gomes — que já antevia a escassez de oportunidades consistentes em companhias nacionais —, Ingrid decidiu fazer audição para o Dance Theatre of Harlem. Aprovada, mudou-se para os Estados Unidos e, desde então, nunca mais deixou a companhia. A trajetória ascendente culminou, anos depois, em um feito histórico: Ingrid se tornou Primeira Bailarina do DTH, consolidando-se como um dos nomes mais relevantes do balé contemporâneo.
Hoje, aos 37 anos, Ingrid é muito mais do que uma estrela dos palcos: ela se tornou um símbolo global de representatividade e resistência. Sua presença ultrapassa os teatros e alcança espaços de grande relevância internacional. Recentemente, a bailarina se apresentou em Davos, na Suíça, durante o Concerto de Abertura da Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial, a convite do músico Jon Batiste. Nas redes sociais, Ingrid celebrou o momento: “Que honra ser convidada por @jonbatiste para me apresentar no Concerto de Abertura da Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial (@worldeconomicforum) em Davos, Suíça. Hallelujah é uma música tão poderosa, e estar naquele palco hoje, compartilhando-a com o mundo, foi uma verdadeira bênção. Sou grata pela música, pelo momento e pelo lembrete de que a arte pode nos conectar além de fronteiras, crenças e origens.”
Antes mesmo de grandes marcas passarem a fabricar sapatilhas em diferentes tons de pele, Ingrid já pintava manualmente as suas, adequando-as à própria cor. O gesto simples ganhou força política e visibilidade internacional, transformando-se em um marco do debate sobre diversidade no balé clássico.
Seu ativismo extrapolou os palcos e ganhou forma em palavras. Ingrid é cofundadora do projeto Brown Skin Ballerina, criado para dar voz, visibilidade e apoio a bailarinas negras ao redor do mundo. Sua trajetória também virou livro autobiográfico, ampliando o alcance de sua narrativa e inspirando novas gerações.
O reconhecimento institucional veio de maneira emblemática: suas sapatilhas passaram a integrar o acervo do National Museum of African American History and Culture, em Washington, como símbolo de luta, identidade e transformação cultural.
Entre piruetas e posicionamentos firmes, Ingrid Silva reescreve a história do balé clássico. Sua carreira prova que excelência artística e ativismo podem — e devem — caminhar juntos, abrindo espaço para que o palco reflita, finalmente, a diversidade do mundo que o assiste.