Entre o nervosismo e a coragem, o jiu-jitsu se torna espaço de crescimento, disciplina e construção
Por Ana Julia Silveira
Antes de entrar no tatame, Guilherme de Souza aperta as mãos, se mexe sem parar e responde baixo, quase como se ainda estivesse se acostumando com a própria voz. Aos 12 anos, ele carrega a timidez de quem está descobrindo o mundo – e o próprio lugar dentro dele. Mas essa postura muda quando o treino começa. No jiu-jitsu, Guilherme encontra um espaço onde consegue se expressar de outra forma, mais segura e direta.
“Eu gosto das aulas… da competição”, diz Guilherme, ainda tímido, mas já deixando claro o que o motiva a continuar.
O início no esporte aconteceu em 2021, logo depois da pandemia, quando os pais, Daniel de Souza e Karen Regina Gomes, decidiram incentivar uma rotina mais ativa. A ideia, naquele momento, era simples: tirar o filho do excesso de tempo nas telas e apresentar uma alternativa. O que começou assim, de forma despretensiosa, rapidamente ganhou outro peso, principalmente, quando o próprio Guilherme passou a demonstrar que queria ir além.
Depois das primeiras experiências em competições voltadas para iniciantes, ele deixou claro que não queria apenas participar. Queria competir de verdade. A partir dali, o jiu-jitsu deixou de ser só uma atividade e passou a organizar a rotina da casa: “Ele acorda, vai para escola, volta, estuda, descansa um pouco e depois vai treinar. O treino começa às três da tarde e vai até às sete e meia da noite. Segunda, quarta e sexta é jiu-jitsu. Terça e quinta, ele ainda faz futebol. Durante a semana é treino e estudo. Celular, só no fim de semana”, explica o pai.
O caminho, no entanto, não foi tranquilo. Pouco tempo depois de começar a competir, Guilherme sofreu um acidente grave durante uma luta. Ao cair, apoiou a mão no chão e quebrou o braço. A situação se agravou no atendimento inicial, resultando em uma fratura exposta e na necessidade de uma cirurgia longa e delicada.
“Foi o pior dia da minha vida”, conta o pai, emocionado. “Era para ser uma cirurgia de uma hora e meia, duas horas… e foram quase cinco. Eu só pensava em ver meu filho bem. Naquele momento, eu não queria mais que ele voltasse para o jiu-jitsu”.
Para Guilherme, porém, a experiência não mudou o desejo de continuar. Ainda no hospital, mesmo lidando com a dor e sem saber como seria a recuperação, ele já falava sobre voltar. “Eu vou continuar, né, pai?”, perguntava.
A recuperação foi mais rápida do que o esperado e, cerca de quatro meses depois, ele já estava de volta às competições. No primeiro campeonato após o retorno, conquistou a medalha de ouro. Mais do que o resultado, o episódio ajudou a consolidar uma postura que aparece desde cedo: a de insistir, mesmo quando o caminho fica mais difícil.
Fora do tatame, Guilherme continua sendo um menino de 12 anos, inquieto, por vezes tímido, apenas uma criança. Dentro da academia, no entanto, ele assume outra postura. Aos poucos, passa a ajudar o professor, acompanhar alunos mais novos e se envolver com o ambiente de uma forma que vai além do treino.
Quando fala sobre o futuro, já projeta esse caminho com naturalidade. Quer seguir no jiu-jitsu, conquistar títulos e, mais adiante, ensinar. A vontade de se tornar professor aparece como uma extensão do que ele já vive hoje no dia a dia da academia.
Para a mãe, as mudanças vão além do desempenho esportivo e aparecem no cotidiano. “O jiu-jitsu trouxe disciplina e responsabilidade. Ele entende que tem horário, que tem regra e que precisa estudar para poder treinar. A gente vê diferença em tudo, dentro de casa, na forma como ele se comporta e na forma como ele lida com as coisas”, afirma.
Essa transformação também impacta a dinâmica familiar. Sem patrocínio fixo, a família encontrou formas de sustentar o sonho do filho. Uma delas é a venda de paçoca em dias de jogo no Estádio São Januário — estratégia que ajuda a custear inscrições, transporte e outras despesas das competições. Ao mesmo tempo, os pais apostam nas redes sociais como uma forma de ampliar o alcance da história de Guilherme e, principalmente, de abrir caminhos.
“O mais importante hoje é o engajamento, porque é isso que pode trazer um patrocinador. Às vezes, a pessoa não consegue ajudar com dinheiro, mas seguir, compartilhar e mostrar para outras pessoas já ajuda muito. É assim que a gente acredita que pode chegar a alguém que consiga apoiá-lo”, explica o pai. O perfil do atleta é o @guilhermesouza.bjj.
O próximo objetivo é disputar o Pan Kids, nos Estados Unidos, uma oportunidade que representa não apenas um avanço na trajetória esportiva, mas também a primeira experiência internacional de Guilherme. Para a família, esse momento carrega um significado especial: é a chance de ver de perto até onde esse caminho pode chegar.
Hoje, a corrida é contra o tempo. Entre treinos, rotina e esforços para viabilizar a viagem, os pais buscam alternativas para tornar possível a participação no campeonato, desde a mobilização nas redes até a busca por apoio e patrocínio. Mais do que uma competição, é uma oportunidade que pode abrir portas importantes no esporte.
Enquanto isso, a rotina segue. Treinos, campeonatos, erros, aprendizados. Um processo contínuo, construído dia após dia, sem atalhos. Para quem está começando, Guilherme é direto: “Tem que começar e não pode desistir. O jiu-jitsu dá muita coisa boa”.