Iniciativa gratuita une ciência, escuta e atividade física para enfrentar a dor crônica e criar redes de apoio na universidade pública


Por Ana Julia Silveira

A dor nem sempre aparece em exames, mas atravessa o corpo e o cotidiano de quem convive com a fibromialgia de forma persistente. É uma dor generalizada, muitas vezes difícil de descrever, que se mistura ao cansaço, às alterações de sono e aos impactos emocionais que a condição carrega. Na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), um projeto gratuito vem transformando essa experiência em uma nova possibilidade: a de cuidado, acolhimento e reconstrução da vida em coletivo.

Coordenado pelo professor Paulo Sérgio Chagas Gomes, o projeto surgiu a partir da proposta da universidade pública e se mantém há mais de duas décadas como um espaço em que produção de conhecimento e prática caminham juntos. “A universidade funciona nesse tripé de ensino, pesquisa e extensão. O que a gente produz aqui não é só para ficar dentro da universidade, mas para circular, para chegar às pessoas. E também para olhar para o nosso próprio entorno, para o que está acontecendo aqui dentro”, explica o coordenador.

Hoje, o projeto atende majoritariamente mulheres, não por recorte definido, mas porque a própria fibromialgia incide de forma muito mais frequente nelas, em uma proporção que pode ultrapassar cinco casos para um. Ainda assim, o desconhecimento sobre a condição segue sendo um dos principais obstáculos enfrentados por quem convive com a doença.

A fibromialgia é uma condição complexa, sem cura e, em muitos casos, também está associada a quadros de ansiedade e depressão. Nesse contexto, o diagnóstico e o cuidado exigem um olhar mais amplo, algo que nem sempre acontece nos atendimentos convencionais. Segundo o coordenador, embora não seja possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito, é recorrente que essas trajetórias tragam episódios de estresse intenso ou experiências traumáticas.

“Como pesquisador, eu tenho que ter cuidado com isso. Não dá para dizer que uma coisa causa a outra. Mas o que a gente observa, nas conversas com elas, é que muitas passaram por situações difíceis ao longo da vida — perda de alguém, problemas familiares, algum tipo de violência ou pressão constante”. A recorrência desses relatos, segundo ele, ajuda a dimensionar a complexidade dos casos acompanhados. Diante desse cenário, o projeto parte de um princípio que antecede qualquer protocolo técnico: o reconhecimento. “A primeira coisa que a gente faz aqui é acolher. É fazer com que elas se sintam reconhecidas. Porque muitas chegam sem ter sido ouvidas”, diz Paulo Sérgio.

A partir daí, o trabalho se estrutura principalmente em exercícios físicos orientados, especialmente o treinamento de força, apontado por estudos como uma das estratégias mais eficazes no manejo da fibromialgia. Mas o projeto não se limita a isso. Desde sua origem, a ideia foi construir um cuidado interdisciplinar, envolvendo diferentes áreas da saúde. Ao longo do tempo, essa estrutura chegou a incluir psicólogos, enfermeiros e outros profissionais, mas acabou sendo parcialmente reduzida devido a limitações de recursos.

“Já tivemos uma equipe mais completa, com psicólogo, enfermeira e médico, mas isso se perdeu ao longo dos anos, principalmente porque não é simples manter pessoas trabalhando sem remuneração. A gente continua tentando resgatar isso, porque entende que não é só exercício. É preciso ter alguém que escute, que identifique se a pessoa está em crise, que possa orientar”.

Mesmo com essas limitações, o projeto segue se expandindo. Novas frentes estão sendo desenvolvidas, como atividades de hidroginástica, alongamento e yoga, além de pesquisas que buscam aprofundar o entendimento sobre os efeitos do exercício no tratamento da fibromialgia. Uma das linhas em andamento investiga, por exemplo, qual intensidade de treino pode gerar mais benefícios sem provocar aumento da dor, informação essencial para orientar práticas mais seguras e eficazes.

“A gente quer entender até onde pode ir. Porque, às vezes, um treino um pouco mais intenso pode até ajudar mais, mas precisa ser feito com cuidado. Nosso objetivo é melhorar a qualidade de vida, mas principalmente a funcionalidade. Muitas dessas mulheres trabalham, cuidam da casa, da família, elas precisam estar bem para dar conta do dia a dia”, afirma.

Se a pesquisa sustenta o projeto, é no dia a dia que ele ganha seu sentido mais evidente. Ao longo dos encontros, as participantes constroem relações que extrapolam o espaço das atividades. Criam redes de apoio, trocam experiências, se acompanham fora dali. O que começa como um grupo de tratamento se transforma, aos poucos, em um espaço de convivência.

Esse vínculo coletivo é percebido como um dos pilares do processo. Para muitas, o projeto representa não apenas um lugar de cuidado, mas um espaço onde é possível existir sem julgamento. Não é incomum que participantes que se afastam por um período retornem, motivadas justamente pela falta que esse ambiente faz no cotidiano.

O projeto é gratuito e aberto ao público, sem necessidade de vínculo prévio com a universidade. Podem participar pessoas com diagnóstico ou suspeita de fibromialgia, desde que atendam a alguns critérios básicos de segurança, como a apresentação de atestado médico autorizando a prática de atividade física e, em alguns casos, exames complementares.

As inscrições são realizadas por meio do Instagram do projeto, @fibro.uerj, ou pelo WhatsApp, cujo contato está disponível no próprio perfil. Atualmente, as turmas contam com cerca de 20 participantes cada, e há fila de espera ativa devido à alta procura. Isso indica não apenas a demanda reprimida por esse tipo de cuidado, mas também a relevância de iniciativas que aproximam a universidade da população.