Neste Dia das Mães, conheça a história de uma casa de acolhimento para gestantes e puérperas, que mostra que lutar com apoio é diferente de lutar sozinha
Por Bárbara Faria
O Reage Mãe nasceu de uma dor muito pessoal, de uma história familiar marcada por violência obstétrica que terminou em óbito. Esse foi o estalo que Daniela Freitas, doula e ativista pelos direitos das mulheres, da gestação e da primeira infância, teve ao dar vida ao projeto que virou uma rede de apoio para gestantes em situação de vulnerabilidade em Petrópolis, no Rio de Janeiro.
O que aconteceu na família de Daniela não foi uma tragédia isolada. É um padrão que se repete muitas vezes: mulheres sendo abandonadas, negligenciadas e violentadas justamente no momento mais delicado de suas vidas, que é a gestação e o parto. A pesquisa “Retratos do Parto e do Nascimento no Estado do Rio de Janeiro”, lançada em setembro de 2025 pela Fiocruz, aponta que 65% das mulheres sofreram algum tipo de violência obstétrica no Rio de Janeiro entre 2021 e 2023. “Foi entendendo este padrão de sofrimento invisibilizado que nasceu o Reage Mãe, como uma resposta, um grito e uma rede de apoio para que outras mulheres não passem pelo mesmo”, compartilha Daniela.
Quem acompanha partos se depara com uma realidade muito dura, que é a de mulheres normalizando a violência obstétrica porque já vivem outros tipos de violência, como a doméstica, antes de chegar à maternidade. A doula explica que para elas, a violência no parto acaba sendo só mais uma camada. “A desigualdade é gritante e tem cor. Quem mais sofre com essas violências e com a vulnerabilidade são, em sua maioria, mulheres pretas. Já vi mães deixarem os filhos dormirem até mais tarde, durante as férias, para pular o café da manhã e conseguirem garantir apenas o almoço. Já vi gestantes deixarem de comer para alimentar os filhos que já têm. Essas mulheres são constantemente julgadas pela sua vulnerabilidade, enquanto o abandono paterno quase nunca é questionado. Então, quando falamos de suporte físico e emocional no parto, precisamos ampliar essa visão. Não basta acolher naquele momento se o básico dentro de casa não está garantido. Falar de cuidado é também falar de comida, dignidade e sobrevivência.”
Nesse contexto, o primeiro passo do Reage Mãe é uma escuta verdadeira, sem julgamento. A partir daí, são feitos os encaminhamentos necessários, de acordo com a realidade de cada mulher, seja na saúde ou na assistência social. “O abraço é coletivo. Não vem apenas de uma representante, mas de toda uma rede de mulheres que constroem o projeto juntas. É isso que transforma: a mulher entende que não está mais sozinha.”, conta Daniela.
O nome do projeto não foi escolhido por acaso. Reage Mãe é, nas palavras de Daniela, um tapa na cara da sociedade porque as mulheres já reagem todos os dias. A diferença é que agora a reação é com ainda mais consciência para que as pessoas enxerguem suas dores, suas lutas e sua força. É sobre mulheres entenderem seus direitos para ocupar seu lugar de fala. Inclusive, o projeto atua também em casos de gravidez na adolescência, lutando para que meninas sejam amparadas, cuidadas e tenham oportunidades.
Por um bom tempo, o trabalho foi itinerante, mas era bastante difícil mantê-lo. Hoje, Daniela cede uma parte da própria casa para o projeto funcionar. Entre as ações feitas estão a montagem de enxovais, realização de bazar gratuito e oferta de lanches durante as reuniões. É por isso que o desejo do Reage Mãe é ter uma sede onde as mulheres possam chegar sabendo que aquele lugar existe para elas. “Um dos maiores sonhos é ter um espaço próprio, uma casa que possamos chamar de nossa. Um lugar onde essas mulheres saibam que sempre terão acolhimento, apoio e pertencimento.”, explica a doula.
Para Daniela, o Dia das Mães é sempre muito especial, e até simbólico, porque acontece bem próximo do aniversário dela. “A gente sempre prepara uma comemoração cheia de afeto. É um momento de celebração dessas mulheres que enfrentam tantas batalhas todos os dias.”
O Reage Mãe aceita mimos que elevem a autoestima dessas mulheres: bijuterias, maquiagem, roupas, ou até um vale para um dia de cuidado, como salão de beleza. Quem quiser ajudar pode entrar em contato pelo número (24) 99284-6199 ou pelas contas no Instagram (@reagemae e @danireagemae). O acolhimento e o suporte são capazes de transformar as realidades dessas mães e, consequentemente, o futuro de seus filhos.