ViDançar
A cada passo de dança é um caminho que se abre
Criado no Complexo do Alemão, projeto leva arte e educação a novos territórios, transformando a vida de milhares de jovens
por Lais Silveira
O que começou como uma pequena oficina de balé no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, em 2010, hoje é um projeto que movimenta sonhos e realidades em diferentes regiões do Brasil. À frente do ViDançar, a idealizadora Ellen Serra transformou uma experiência voluntária em iniciativa que une disciplina, arte e oportunidades para crianças e jovens.
“Depois de cinco anos fazendo trabalho voluntário no Alemão, percebi que só o apoio pontual não mudava a vida daquelas crianças. Então tive a ideia de montar uma oficina de balé clássico, mas com a exigência de que os alunos estivessem estudando e com a carteira de vacinação em dia. A gente acompanha isso até hoje”, conta Ellen.
O projeto começou com oito alunos e, no ano seguinte, já tinha 14 meninas inscritas. Desde então, mais de 5 mil famílias já foram beneficiadas pelas aulas do ViDançar, que hoje atende mais de 500 crianças e jovens em diferentes territórios, entre eles o Complexo do Alemão, Duque de Caxias, o Espírito Santo e o Sertão da Bahia.
Em 2013, o projeto passou a inscrever alunos em grandes audições e o talento dos participantes logo começou a se destacar. O ViDançar já soma oito aprovações na Escola do Teatro Bolshoi e resultados expressivos em outras instituições de referência, como a Escola Maria Olenewa, a Alice Arja, o Studio Gouveia e a Petite Danse. O talento dos jovens também já ultrapassou fronteiras: Luis Fernando Rego integra hoje o Dance Theatre of Harlem (EUA), e Camila Braga faz parte do Imperial Classical Ballet (Inglaterra).
As conquistas seguem crescendo: em 2025, duas alunas participaram de um intercâmbio na França e outras quatro se preparam para novas experiências no mesmo país e em Portugal, em 2026. O projeto, que nasceu com o propósito de unir arte e educação, segue abrindo caminhos para o futuro de muitos jovens:
“Eu me sinto muito feliz de ver todo o trabalho, que é feito em equipe, por várias pessoas, permitindo que essas possibilidades tão bonitas aconteçam”.
Biblioteca Comunitária Wagner Vinício
História da Biblioteca Comunitária Wagner Vinício é como um livro que o mundo precisa conhecer
Espaço em Rio das Pedras abriga crianças e jovens para que encontrem na leitura um lugar de pertencimento, afeto e transformação social
por Bárbara Faria
A história da Biblioteca Wagner Vinício, em Rio das Pedras, é desde o início escrita a muitas mãos. Antes de ser o que é hoje, existia o Projeto Plantando o Futuro, uma iniciativa financiada pelo Instituto C&A, que a partir de 1999 promovia diversas atividades culturais e educativas para jovens e adultos. Anos depois, entre 2004 e 2005, o programa Prazer em Ler foi lançado pela instituição com a proposta de transformar o projeto em uma biblioteca comunitária. Em 2006, a comunidade, que sempre foi a principal construtora do acervo, reuniu-se para escolher o nome daquele espaço.
O mais votado foi o de Wagner Vinício, um jovem morador local que, com um carrinho de mão abarrotado de livros, havia sido o primeiro a enxergar ali a possibilidade de um futuro diferente. Wagner faleceu em decorrência de um acidente de trânsito, mas seu legado foi eternizado com um lindo propósito.
Hoje, quem mantém o espaço vivo são duas mulheres persistentes: Juliana Moreira e Simone Araújo. Juntas, elas fazem toda a gestão e são as responsáveis pelas articulações externas, contando com a ajuda de parceiros, colaboradores e voluntários, que contribuem mensalmente para garantir a sobrevivência desse grande sonho. Desta forma, vão ampliando e renovando o catálogo por meio de doações literárias que priorizam obras sobre diversidade, ancestralidade, questões raciais, identidade, direitos humanos, autores negros, indígenas e periféricos.
Quando um livro muda uma vida
A Biblioteca Comunitária Wagner Vinício tem transformado o cotidiano das crianças e jovens de Rio das Pedras desde sua criação. Por meio das rodas de leitura, mediações, oficinas e atividades lúdicas, desperta o desejo de aprender e de sonhar, um lugar onde os livros passam a ser uma ponte para a liberdade.
“Sou um exemplo marcante disso. Cheguei aqui como uma criança curiosa, cresci entre estantes, páginas e afetos. Hoje, sou graduanda em Pedagogia pela Uerj e cuido do lugar que me viu florescer. A biblioteca me ensinou a ler o mundo e a acreditar que, mesmo morando em uma comunidade, era possível voar alto, sem esquecer minhas origens”, orgulha-se Juliana, que vê sua história se repetir em muitas outras trajetórias de crianças e adolescentes que encontraram na leitura um caminho e chegaram a lugares inimagináveis.
A biblioteca que acolhe, cura e liberta
Mais que um espaço de leitura, a biblioteca é afeto organizado em estantes. Durante a pandemia, quando o isolamento social privou todos do cotidiano escolar e de outras atividades que faziam parte do dia a dia, o local mais uma vez foi abrigo. Por meio de um projeto aprovado em edital da Fiocruz, mais de 40 crianças de Rio das Pedras receberam reforço escolar e acolhimento. Essa iniciativa foi importante para a autoestima dos pequenos e para a retomada do prazer em aprender, unindo o pedagógico ao literário.
“Além disso, a biblioteca proporciona outras ações em prol da formação cultural e social das crianças e dos adolescentes. Visitas a museus e a centros culturais se tornam experiências inesquecíveis para muitos deles. Assim como a entrega de kits escolares, presentes simbólicos e a realização de festas e celebrações coletivas se tornam lembranças preciosas”, conta Simone.
Os desafios enfrentados, porém, são muitos: falta de financiamento contínuo, escassez de voluntários, dificuldades sociais das famílias e a violência da região. Ainda assim, a Biblioteca Comunitária Wagner Vinício resiste. O desejo de todos é simples: que ela continue existindo, cumprindo o papel essencial de formar leitores e cidadãos.
Quem é de fora da comunidade também pode fazer parte dessa corrente de esperança ao contribuir mensalmente com a campanha “Amigos da Biblioteca”, iniciativa criada por Simone Araújo, que busca arrecadar recursos por meio de contribuições mensais de R$ 20. Esse apoio tem sido fundamental para suprir necessidades básicas, como compra de materiais de limpeza, pequenos lanches e manutenção do espaço.
Voluntariar-se em oficinas e atividades, doar livros de qualidade e divulgar a biblioteca também são ações importantes. Toda a colaboração é uma forma de fortalecer a democratização do acesso ao livro.
Rio de Música
A arte e a cidadania seguem seu curso
Projeto celebra 12 anos oferecendo aulas gratuitas de sete instrumentos a crianças, jovens, adultos e idosos
por Marco Antonio Rocha
Em uma das regiões mais conflagradas do Rio de Janeiro, a música tenta vencer o barulho dos tiros. Criado no Jacarezinho e atualmente funcionando em Higienópolis, na Zona Norte, o Rio de Música insiste em fazer a melodia do piano se encontrar com os acordes de guitarra, enquanto os dedos dos alunos de flauta percorrem o instrumento com delicadeza. É nesta mistura de sons que o projeto chega aos 12 anos, ocupando três salas do Colégio Estadual Professor Clóvis Monteiro.
Da primeira sede, na viela conhecida como Garganta do Diabo, no Jacarezinho, sobrou apenas o desejo de ver a escola seguindo seu curso, como um rio de esperança na região que tem um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado. Já as paredes foram estilhaçadas por balas perdidas, mas o sonho saiu ileso. E fortalecido.
Hoje o Rio de Música oferece aulas gratuitas de sete instrumentos a crianças, jovens, adultos e idosos: baixo, violão, piano, percussão, bateria, flauta e canto. Todos os professores acompanham grandes artistas como Maria Bethânia, Hermeto Pascoal, Edu Lobo e Egberto Gismonti.
“A ideia surgiu quando visitei o Jacarezinho, a convite do Antônio Carlos Costa, presidente da ONG Rio de Paz. Havia muitos problemas, crianças e jovens nas ruas sem ter o que fazer. Mas percebemos também possibilidades incríveis, uma força cultural muito potente”, lembra Bruno Aguilar, fundador e professor de baixo do projeto, orgulhoso ao contar que a escola já impactou diretamente mais de 500 pessoas: “Nosso objetivo nunca foi somente formar músicos, mas sim mostrar que a música é um instrumento de transformação, forma de despertar uma sensibilidade diferente para ver o mundo”.
Amiga inseparável, conselheira nos melhores momentos e ombro à disposição quando a dor aperta, Dona Marlene encontrou na arte uma forma de superar a morte do marido, após um casamento de 32 anos:
“Cheguei em um momento muito difícil e todos me abraçaram, fui muito bem recebida. Depois perdi meu filho também, mas tento não me abater. Para o Rio de Música, não interessa se a pessoa é nova ou velha, preta ou branca. No projeto eu tenho amigos, me sinto à vontade. É isso o que me ajudou, é isso o que me ajuda. O Rio de Música mudou minha vida”.
Para Aline Gonçalves, professora de flauta, a atividade musical tem de fato esse poder.
“É claro que se pode fazer música sozinho, mas em grupo a fluidez é incrível porque todo esse processo envolve olhares, gestos… Quando se entende que o jogo é jogado junto, a música acaba sendo um momento de agregar. Tenho uma lembrança viva da minha escola de música, quando eu ficava a tarde inteira fazendo as minhas aulas, observando as de outros alunos e trocando ideias com colegas. Aquilo acabava virando um lugar de aprendizado que é ainda maior do que só aquele momento que chamamos de aula”, recorda Aline.
Na escuridão, uma nova forma de enxergar
Em meio a vultos e objetos de contornos indefinidos, a música surge com mensagens nítidas, que se moldam às emoções de Fábio Santos. Aluno do Rio de Música, ele foi acometido por uma neurotoxoplasmose há oito anos. Ficaram a cegueira total do olho esquerdo, apenas 10% de visão no olho direito, limitações na coordenação motora e uma vontade imensa se seguir na música, já que era percussionista e os movimentos passaram a ser um desafio. Foi pela flauta que Fábio descobriu uma nova forma de ver o mundo: através da audição.
“Tenho restrições também nos dedos, mas não me impedem de tocar flauta. As aulas são uma forma de superação, permitem que eu não perca minha musicalidade. Através da flauta toco corações. A música é um jeito não apenas de ver o mundo, mas de me mostrar para ele. O instrumento fala por nós, qualquer instrumento bem tocado tem o poder de passar uma mensagem”, afirma o morador de Manguinhos.
Coordenador do Rio de Música, Thiago Freitas ressalta que, para o projeto seguir adiante, é fundamental a ajuda de colaboradores:
“A importância de colaborar com o Rio de Música é a garantia de seguirmos democratizando o acesso à educação musical para pessoas de áreas periféricas da Zona Norte carioca. Quem desejar, pode nos ajudar tanto com doações pontuais, através da chave Pix pixriodemusica@gmail.com, ou de forma recorrente, pelo site benfeitoria.com/riodemusica. Também é possível adquirir as camisas do projeto pelo endereço reserva.ink/riodemusica.