Voar junto é muito melhor do que sozinho

Movimento Voa Down reúne famílias promovendo acolhimento, informação e pertencimento


por Lais Silveira

O que começa como encontro entre famílias pode se transformar em um movimento capaz de mudar trajetórias. Foi assim que surgiu o Voa Down, iniciativa independente criada a partir da escuta, do afeto e da necessidade urgente de pertencimento vivida por famílias de pessoas com síndrome de Down.

O primeiro encontro aconteceu em 21 de março de 2021, Dia da Conscientização da Síndrome de Down, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. A proposta era simples e potente: um piquenique coletivo, onde cada família levaria um prato para compartilhar. Estavam presentes mães, pais, tios, avós e irmãos, todos reunidos em um dia marcado por trocas, informação, emoção e acolhimento.

“Foi um dia muito especial, de alegria, troca e emoção. Ali eu percebi o quanto era importante para as famílias e para as crianças estarem juntas. Posso dizer que o Voa Down nasceu de verdade naquele momento”, relembra Mônica Manhoni, idealizadora do movimento, fisioterapeuta e especialista em síndrome de Down.

A partir dali, o que era apenas um grupo passou a se transformar em um movimento que cresceu com as famílias. O Voa Down se estruturou como um projeto independente, com o propósito de promover pertencimento, trocas, acolhimento e informação de qualidade por meio de encontros presenciais.

“Não somos uma ONG. Somos um movimento que conecta famílias, profissionais e a sociedade. Criamos espaços de escuta, troca, vivências e orientação, sempre colocando a família no centro de tudo”, explica Mônica.

O objetivo principal do Voa Down é fortalecer vínculos e contribuir para um desenvolvimento adequado, estimulando autonomia e inclusão real. A criança é vista em sua totalidade, e a família ocupa um papel central nesse processo:

“Acredito muito que o ambiente e as vivências oferecidas fazem toda a diferença no desenvolvimento da criança e também na saúde emocional da família”.

O acolhimento é um dos pilares do Voa Down. Atualmente, as famílias se conectam principalmente por meio do WhatsApp e do Instagram, canais por onde muitas mães chegam espontaneamente, em busca de apoio e orientação.

“Quando uma nova mãe entra em contato, ela é acolhida de forma cuidadosa e individual. A gente escuta, orienta e respeita o tempo de cada família”, conta Mônica.

Após esse primeiro contato, as famílias são convidadas a preencher um cadastro que ajuda o grupo a compreender melhor sua realidade. Existe ainda uma equipe dedicada apenas ao acolhimento inicial, formada por quatro pessoas: a própria Mônica e três mães capacitadas para esse primeiro cuidado. Em situações de maior fragilidade emocional, o acolhimento é imediato, mesmo antes do preenchimento do formulário:

“Quando percebemos que aquela família está muito fragilizada, a prioridade é acolher. Depois, com o tempo, cuidamos da parte burocrática. O mais importante é que ela se sinta abraçada”.

Além da escuta ativa, o Voa Down oferece orientação jurídica gratuita, realizada por uma das mães do grupo. Sempre que possível, o movimento também presta apoio material, com doações de cestas básicas, fraldas e roupas, criando uma rede solidária entre as próprias famílias.

“O cadastro nos permite conhecer o global dessa família, entender como ela está estruturada, se a criança faz terapias, se existem comorbidades associadas, se a mãe é solo. A partir disso, conseguimos direcionar melhor as orientações e até ajudar de forma mais direta”, explica Mônica.

O convívio entre as famílias é apontado como um dos aspectos mais transformadores do Voa Down. Nos encontros presenciais, as diferenças dão lugar à troca, ao respeito e à igualdade.

“Quando a gente se reúne, é mágico. Mesmo sendo diferentes, ali todo mundo é igual. As famílias conversam, brincam, tiram dúvidas, falam dos desafios sem medo, sem julgamento e sem preconceito”, relata Mônica.

Sempre que possível, profissionais especializados em síndrome de Down participam desses encontros, garantindo que as famílias levem para casa informações corretas e seguras. São famílias de diferentes classes sociais reunidas com um único propósito: lutar por respeito, inclusão e oportunidades reais:

“Conviver com a síndrome de Down nos mostra todos os dias o quanto a informação e o acolhimento humanizado fazem diferença no desenvolvimento da criança e no fortalecimento da família ao longo de toda a vida. O Voa Down nos ensina diariamente. Aprendemos que, quando existe amor, apoio, escuta e união, é possível transformar realidades”.

O maior desafio do Voa Down sempre foi a falta de recursos financeiros. O movimento não possui espaço físico próprio e depende de apoios pontuais para que os encontros aconteçam.

“Muitas vezes fazemos rifas e pedimos ajuda a colegas profissionais, amigos e parceiros. Eu peço, explico o destino desse apoio e, assim, vamos construindo essa rede”, conta Mônica, que sonha com um espaço próprio, acessível e acolhedor, com jardim, gramado e uma cozinha ampla: “Queremos um lugar onde possamos estimular os sentidos da criança, o cognitivo, o social, o sensorial e o motor, sempre com responsabilidade, conhecimento e direcionamento. Acima de tudo, sonhamos com uma sociedade mais respeitosa, onde todos tenham as mesmas oportunidades”.

A fome de quem luta por um país mais justo

Três décadas após nascer como campanha que mobilizou o Brasil, Ação da Cidadania se reinventa para combater outros tipos de necessidade


por Ana Julia Silveira

Quando a Ação da Cidadania surgiu, em 1993, o Brasil foi confrontado com um dado impossível de ignorar: 32 milhões de pessoas viviam em situação de fome. Mais de três décadas depois, embora as estatísticas tenham oscilado drasticamente, a organização nascida daquela urgência não apenas resiste, como se reinventou para operar em uma escala muito superior à original. Criada a partir de uma campanha idealizada por Herbert de Souza, o Betinho, a entidade se consolidou como uma das maiores experiências de engajamento social do país.

“Foi uma mobilização gigantesca, com milhões de voluntários, numa época sem internet e sem redes sociais”, recorda Kiko Afonso, diretor-executivo da organização: “Quando o número de pessoas com fome veio a público, o Brasil inteiro se envolveu”.

O percurso da instituição acompanhou os altos e baixos das políticas públicas brasileiras. Após o país sair do Mapa da Fome em 2014, a Ação atravessou um período de retração natural: “Era uma organização com uma história enorme, mas que naquele momento tinha perdido escala”.

A virada de chave começou em meados da década de 2010, com um processo profundo de reorganização, que incluiu modernização administrativa e um novo estatuto. Foi nesse período que a entidade ampliou seu olhar para além da urgência do prato vazio, incorporando o combate às chamadas “outras fomes”, como a de cultura e direitos.

O retorno da fome severa ao cenário nacional, no entanto, foi percebido pela organização antes mesmo dos dados oficiais. Com a crise fiscal de 2016, especialmente no Rio de Janeiro, a rede nacional da Ação notou famílias que nunca haviam enfrentado insegurança alimentar batendo à porta em busca de ajuda.

“Quando fomos a campo, ficou claro que a fome estava voltando. Essa constatação levou à reativação do Natal Sem Fome em 2017, agora em um contexto de comunicação dominado pelo digital. Já não era mais a grande mídia que pautava a narrativa. Tivemos que aprender a atuar nesse novo ambiente, com campanhas digitais e parcerias com empresas de tecnologia”, explica Kiko Afonso.

A chegada da pandemia de Covid-19 apenas acelerou uma tragédia que já se desenhava. O impacto foi devastador e exigiu uma logística de guerra: durante o período, a Ação da Cidadania atendeu sozinha mais de 15 milhões de brasileiros: “A pandemia veio como uma bola de boliche derrubando pinos que já estavam caindo”.

Prevendo que o cenário pioraria após o pico da crise sanitária, a gestão decidiu investir parte dos recursos arrecadados no fortalecimento da própria estrutura. “A gente sabia que a situação da fome iria piorar quando a Covid passasse e que as doações iriam cair. E foi exatamente o que aconteceu”, observa.

Atualmente, a instituição opera com uma engrenagem robusta, contando com mais de 120 funcionários e uma rede de 3 mil organizações parceiras. Esse crescimento, contudo, trouxe dores de maturação.

Essa visão de longo prazo se materializa hoje nos hubs de segurança alimentar, projetos estruturantes que reúnem bancos de alimentos, cozinhas solidárias e hortas agroecológicas. Com unidades em expansão por capitais como Belém, São Luís e Porto Alegre, a iniciativa busca atacar a raiz do problema de forma sistêmica. Para o diretor-executivo da Ação da Cidadania, o combate à miséria é uma engrenagem complexa: “É como um dominó. Não adianta derrubar o décimo se os anteriores não caíram. A dignidade plena passa por alimento, mas também por cultura, cidadania e direito de escolha”.

Ao olhar para o futuro, o porta-voz rejeita o conformismo diante da desigualdade. Para quem acredita que a fome é um problema grande demais para ser resolvido, o recado é enfático: “A fome não é algo fora do nosso controle, é uma decisão política”. Três décadas após o seu nascimento, a Ação da Cidadania se posiciona hoje como uma estrutura que une memória e método para provar que, com vontade política e organização social, a dignidade não precisa ser uma exceção.

Óculos de realidade virtual: um olhar carinhoso no tratamento de pessoas internadas

ONG Virtualidade usa a tecnologia como instrumento terapêutico para reabilitação de pacientes acamados na rede pública do Rio


por Bárbara Faria

Você já ouviu falar da ONG Virtualidade? O projeto nasceu da amizade, da curiosidade e do desejo de dois estudantes de medicina em mudar vidas. A ideia surgiu dentro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), quando Lucas Campos e João Hazin, hoje médicos formados, perceberam que a afinidade que sempre tiveram com o universo digital poderia ir além do entretenimento. A proposta era simples e, ao mesmo tempo, ousada: usar a realidade virtual através de óculos modernos para levar alívio emocional, momentos de bem-estar e estímulo cognitivo a idosos internados, muitos deles em longos períodos de hospitalização.

Com o apoio de Max Fakoury, primeiro professor que abraçou a ideia, e o aval da universidade, a iniciativa saiu do papel. No fim de 2021, as primeiras sessões passaram a acontecer semanalmente na enfermaria do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG), como um projeto de extensão.

Durante as atividades, os pacientes que estão fisicamente restritos ao leito escolhem os destinos que gostariam de visitar: cidades, países, paisagens naturais, locais simbólicos ou lembranças afetivas. Voluntários acompanham tudo por meio de tablets e conduzem as conversas sobre o que está sendo visto, estimulando memória, linguagem e emoção. Antes e depois das sessões, questionários avaliam aspectos psicológicos e emocionais.

Com o tempo, o projeto universitário ultrapassou os muros da instituição. A demanda de pacientes de outras faixas etárias e o interesse de levar essa iniciativa para mais pessoas impulsionaram a fundação oficial da ONG, batizada de Virtualidade, em agosto de 2022. A organização reúne atualmente cerca de 66 voluntários cadastrados, entre médicos, enfermeiros, professores universitários, profissionais que cuidam do financeiro, do jurídico e da comunicação. 

A Virtualidade expandiu suas ações para outros hospitais do Rio de Janeiro e, hoje, tem sede em três unidades que recebem ações semanalmente: Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG), da Unirio; Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), da Uerj; e Hospital Universitário Antônio Pedro, da UFF. Até o momento, mais de 900 atendimentos já foram realizados, e a expectativa é alcançar a marca de mil ainda este ano.

Os resultados observados chamam atenção. Com uma intervenção muito rápida, como um vídeo relaxante de 10 a 15 minutos, foi possível observar que houve melhora de sentimentos nos pacientes. “A gente usou um questionário de Stein, que avalia diversas sensações humanas, tanto positivas quanto negativas, como estar calmo, feliz, triste, com raiva e preocupação. Perguntávamos, de 0 a 5, quanto esses pacientes se sentiam antes e depois de fazer a atividade com realidade virtual. Cerca de 80% relataram melhora em, pelo menos, três sentimentos. Houve um aumento médio em todos os sentimentos positivos e uma diminuição em todos os negativos avaliados”, explica João Hazin.

Mais do que atuar em prol da saúde pública, a ONG se posiciona como uma ferramenta de incentivo à cultura, ao permitir que pacientes tenham acesso a experiências culturais, viagens virtuais e espaços que, muitas vezes, não seriam possíveis nem fora do ambiente hospitalar.

Em um cenário em que o envelhecimento da população impõe novos desafios ao sistema de saúde, projetos como este mostram que tecnologia e cuidado não precisam caminhar em direções opostas. Pelo contrário: quando bem aplicados, podem se complementar, levando dignidade, afeto, conscientização e novos significados à experiência do tratamento.

Em dezembro de 2025, a Virtualidade entrou para o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa (Comdepi-Rio), órgão da Prefeitura do Rio que atua com funções deliberativas, normativas, orientadoras e fiscalizadoras das políticas voltadas para a proteção dos direitos das pessoas idosas. “Agora, a gente participa da elaboração e da votação de novas políticas em defesa dos direitos dos idosos do Rio”, ressalta João Hizon.

Loucos Pela Vida: o bloco que faz da rua um lugar de liberdade

Entre samba, cuidado e luta antimanicomial, o cortejo transforma o centro de Niterói em um espaço de pertencimento e visibilidade para a saúde mental


por Ana Julia Silveira

Quando o batuque esquenta e o estandarte do Loucos Pela Vida ganha a rua, o centro de Niterói deixa de ser apenas um corredor de passagem. Entre confetes e tamborins, o que se vê é um ato de ocupação. Ali, a festa é ferramenta de cuidado e alegria, um manifesto político.

Há mais de duas décadas, o bloco desfila na terça-feira que antecede o carnaval. Na avenida, o samba divide espaço com as histórias de resistência de usuários, familiares e profissionais da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). O que nasceu em Jurujuba e se consolidou no Centro de Convivência e Cultura de Niterói hoje é gigante: o bloco já passou pelo Sesc, pela UFF e por praças públicas, sempre em defesa do direito à cidade e ao cuidado em liberdade.

Para Dulce da Costa Antunes, o bloco é uma questão de insistência. Mãe de Gilberto Antunes, usuário da RAPS, ela acompanha o Loucos Pela Vida desde o início e viu a evolução de um movimento que começou modesto, articulado pela prefeitura, e ganhou autonomia. “A gente vem lutando para que ele cresça. Hoje já estamos recebendo muitos convites para nos apresentar”, conta, orgulhosa do espaço conquistado passo a passo.

Para quem participa da RAPS, o carnaval é o momento de deixar o julgamento na calçada. Dulce nota a transformação no corpo de quem desfila, o modo de andar e sorrir muda quando a rua vira lugar de pertencimento: “Eles se soltam, se divertem. É o dia em que estão em sintonia com a felicidade, e o público em volta acaba participando junto dessa festa maravilhosa”.

Mas a rua também é trincheira. Enquanto celebra os avanços, o bloco escancara o que ainda falta. “Ali o usuário se mostra, mas também é onde reivindicamos melhorias na rede de saúde mental, que ainda é precária e tem poucos espaços abertos para as famílias”, explica Dulce, lembrando que o desfile só acontece pelo esforço de profissionais que, mesmo sob condições difíceis, sustentam o cuidado com afeto.
O Loucos Pela Vida não aparece apenas em fevereiro. O ano é preenchido por oficinas no Centro de Convivência que vão muito além da preparação carnavalesca. Tem fotografia, adereços, batuque, teatro, capoeira e até horta coletiva. São atividades que devolvem a voz a quem, por muito tempo, viveu de cabeça baixa. É o caso de Ana Paula Ramos, usuária da RAPS. Antes retraída, hoje ela transita pelos espaços com uma naturalidade que nem ela mesma imaginava: “Antes eu era antissocial, andava de cabeça baixa e quase não falava com ninguém. Depois que entrei aqui, agora eu falo o dia todo se deixar”.

“O CAPS não é meme”

Neste ano, o enredo leva um incômodo para a avenida: “O CAPS não é meme: por que minha invisibilidade te incomoda?”. O samba-enredo, escolhido por concurso, foi composto por Jaguacyara Menezes, mãe de uma usuária da rede. A letra nasceu de um lugar de confissão e desabafo.

“Foi a primeira vez que escrevi algo assim. Escrevi numa linguagem que as mães atípicas entendem. Mas espero que todas as pessoas entendam que a maternidade atípica não é fácil e tenham menos julgamentos, porque ainda vivemos numa sociedade com muito preconceito.”, explica.

Mais do que uma agremiação carnavalesca, o Loucos Pela Vida é um lembrete de que ninguém deve ser invisível. Como resume Dulce, o sonho é o reconhecimento do óbvio: “Nós existimos. Temos direito de ocupar a cidade, de viver e de ter nossos direitos reconhecidos por lei”. No final das contas, o samba é apenas o ritmo de uma luta que não para quando a quarta-feira de cinzas chega.

Myrian Dauelsberg: uma vida nos bastidores da produção cultural brasileira

Fundadora da Dellarte, empresária reúne em livro episódios que marcaram mais de quatro décadas dedicadas à música e às artes no país


por Vanessa Pessoa

É impossível falar de produção cultural no Brasil sem citar Myrian Dauelsberg. Empresária, fundou em 1982 a Dellarte, que se tornou uma das principais instituições dedicadas à difusão da música clássica e do balé no país. Ao longo dessa trajetória, passou a viajar com frequência ao exterior, estabelecendo contatos com produtores e artistas, em um cenário que sempre exigiu persistência para viabilizar projetos culturais no país.

A ideia de transformar sua história em livro surgiu em 1991, após a insistência de amigos durante um jantar em Paris, no restaurante Chez Denise. Na ocasião, Myrian estava com o marido, Peter Dauelsberg, e com o ex-aluno e amigo Mauro Maddalena:

“Havia acabado de contar minhas últimas aventuras com Luciano Pavarotti, quando Mauro sugeriu que registrasse a ‘epopeia’ que precedera a vinda do tenor ao Brasil”.

O incentivo foi reforçado ao longo dos anos por amigos próximos, como o pianista português Adriano Jordão, parceiro em diversas produções internacionais. Entre os episódios lembrados no livro “Atrás do Palco – Bastidores por Myrian Dauelsberg” (Rebento Editora) está um dos primeiros grandes desafios internacionais enfrentados por ela na Sala Cecília Meireles, na Lapa, Rio de Janeiro, com a apresentação do grupo inglês Deller Consort.

“Não tinha verba alguma, dispunha de apenas 240 mil moedas da época para toda a temporada. Decidi investir tudo na primeira semana, acreditando que um grande impacto inicial abriria portas para o futuro. E deu certo: o concerto foi um sucesso tremendo. Com a sala lotada, consegui convencer patrocinadores a apoiar a temporada e pude organizar os eventos seguintes com mais segurança. Foi um momento de alívio e de confirmação de que, mesmo sem recursos, a paixão e a convicção são capazes de transformar a cena cultural”, ressalta.

A obra também reúne histórias curiosas dos bastidores, como a passagem de Luciano Pavarotti pelo Rio, antes de seguir para o Chile em um avião fretado pela Dellarte:

“Ainda no aeroporto, ele percebeu que havia esquecido um legítimo queijo Parmigiano Reggiano, que trazia consigo em uma sacola de plástico. Desesperou-se, e logo todos estávamos mobilizados para resolver o impasse. A secretária desvendou o mistério: a sacola havia ficado em uma das cadeiras da sala de embarque. Recuperamos o queijo e, só então, o tenor seguiu tranquilo para o Chile. Situações assim me ensinaram que, nos bastidores, a arte não está só no palco, ela também vive no improviso”.

Ao longo de mais de 40 anos de atividades ininterruptas, a Dellarte realizou 580 concertos no Brasil e desenvolveu projetos voltados à formação de plateias para a música clássica. Aos 90 anos, completados em 2025, Myrian reuniu essas experiências em pequenos relatos que transitam entre desafios, conquistas e encontros com grandes nomes da música do século XX:

“Que este livro encontre outras plateias que possam se inspirar em alguém que dificilmente aceitava o ‘não’ como resposta”.

Casa Amarela transforma o livro em caminho e o caminho em encontro

Biblioteca comunitária criada por morador da Zona Norte do Rio cresce, multiplica-se e vira referência de cultura, educação e pertencimento


por Lais Silveira

Em Anchieta, bairro da Zona Norte do Rio, uma construção pintada de amarelo se tornou ponto de encontro, acolhimento e transformação. Mais do que um espaço físico, A Casa Amarela é hoje uma rede de cuidado coletivo que promove acesso à leitura, à cultura e à educação, construída a partir do envolvimento direto da comunidade.

A iniciativa nasceu em 2022, criada por Pedro Gerolimich, conhecido como Pedro do Livro. O apelido não é por acaso: o professor carrega o livro no apelido, nas mãos e na trajetória. Foi de seu desejo de aproximar a leitura da vida cotidiana que surgiu a ideia de reunir amigos e moradores de Anchieta e bairros próximos para criar uma biblioteca comunitária que fosse viva e aberta a todos.

Desde o início, o projeto foi pensado como algo maior do que estantes e acervos. A proposta sempre foi criar um espaço de acolhimento, escuta e pertencimento, onde crianças, jovens, adultos e idosos se sentissem vistos, respeitados e estimulados a sonhar.

“O trabalho da Casa Amarela busca promover, acima de tudo, acesso. Acesso à leitura, à educação de qualidade, à cultura e a um atendimento humano, respeitoso. A biblioteca vai muito além dos livros, é um espaço de acolhimento, de pertencimento e de construção de novas possibilidades”, explica Samara Ferreira, coordenadora do projeto.

Com sede inicial na Praça Nazaré, em Anchieta, A Casa Amarela cresceu e deu frutos: a biblioteca comunitária está presente em mais três locais – na Praça Granito, também em Anchieta; no bairro Mariópolis; e em Ricardo de Albuquerque. Este ano, um novo passo foi dado com a inauguração da cozinha comunitária da Casa Amarela, também em Anchieta, em parceria com o programa Prato Feito Carioca, ampliando o alcance social da iniciativa.

A atuação do projeto se organiza a partir de três eixos principais: educacional, social e cultural, sempre considerando as necessidades reais da população local. Oficinas, atividades educativas, ações culturais e esportivas fazem parte da rotina, reforçando a ideia de que a biblioteca é um equipamento completo e acessível a todos.

“A Casa Amarela é uma referência no território. As pessoas nos procuram, falam sobre o projeto. Anchieta passou a aparecer na mídia de forma positiva, não apenas associada à violência, mas também como um lugar onde existe uma biblioteca comunitária que trabalha para transformar realidades”, orgulha-se Samara.

Relação de confiança e pertencimento

Histórias de impacto surgem diariamente na Casa Amarela, mas algumas se tornam símbolos do que o projeto representa. Uma delas envolve uma mãe analfabeta que, por não conseguir ler, sempre pedia ajuda para escolher livros para o filho. Esse menino, hoje adulto, enquadra-se no espectro autista e, por muito tempo, teve grande dificuldade de sair de casa:

“Aos poucos, fomos construindo uma relação de confiança e pertencimento. Trabalhamos juntos a autonomia dessa família, respeitando todas as limitações. Agora esse rapaz participa da nossa turma de karatê, e a mãe também passou a frequentar as atividades”.

O futuro da Casa Amarela é de crescimento e cuidado. Os próximos passos envolvem fortalecer os espaços já existentes, ampliar a programação cultural e educativa, além de investir em ações voltadas ao lazer, à saúde física e à saúde mental da comunidade. Para Pedro, que transformou o livro em caminho e o caminho em encontro, o sentido do projeto está nas pessoas que frequentam a local:

“A Casa Amarela nasceu do amor pelo nosso território e da certeza de que a educação e a cultura podem transformar vidas. Cada criança, jovem ou adulto que passa por aqui me lembra diariamente que esse trabalho faz sentido”.

No trabalho de reciclagem, uma vida se transforma

Coletora de lixo encontra livro de Direito e, à base de muita luta, estuda até se formar advogada: ‘Meus filhos podem sonhar’


por  Ana Julia Silveira

Algumas histórias não começam com oportunidades, mas sim com resistência. A de Lindiane Godoi é assim. Ao longo de três décadas, atravessou pobreza, violência, jornadas exaustivas de trabalho e uma sucessão de rupturas. Mas, enquanto a vida parecia lhe negar espaço para crescer, insistiu em criar seu próprio caminho até passar na prova da Ordem dos Advogados do Brasil. Hoje, o diploma é muito mais que um papel pendurado na parede, é símbolo de uma luta marcada por superações.

Lindiane sempre soube que a vida exigiria mais dela. Filha de uma família humilde, criada entre quatro irmãs e dois irmãos, cresceu em um ambiente onde não havia lugar para distrações. A infância em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, foi marcada por regras rígidas e por uma lógica simples, dura: 

“Era preciso sobreviver, a gente foi sempre educado para isso. Não tinha espaço para sonhar”.

A vida ficou ainda mais difícil aos 14 anos, quando o pai foi assassinado. O episódio mudou a rotina da família e colocou a mãe, empregada doméstica, diante da missão de criar sozinha sete filhos. Lindiane, no entanto, mantinha a fé:

“Era tudo muito difícil, mas sempre acreditei que, independentemente de onde a gente veio, existe a chance de mudar a nossa realidade”.

Com a morte do pai, Lindiane precisou começar a trabalhar. Foram anos assumindo qualquer função que garantisse o básico. Aos 17, enfrentou uma ruptura dolorosa: foi expulsa de casa. Ela explica que não se encaixava mais na dinâmica familiar. As rotinas, as regras e os conflitos constantes acabaram tornando a convivência insustentável.

“Um dia simplesmente me disseram que não tinha mais espaço para mim. Fui para o mundo e não olhei para trás”, relata.

Pouco depois, veio a gravidez do primeiro filho, Leonardo. Sem ter onde morar, foi acolhida pela família paterna do menino, que abriu as portas e deu a ela um mínimo de estabilidade.

“Vivia cheia de medo, mas também começava a sentir outra coisa, uma vontade nova de mudar de vida”, conta ela, que teve na maternidade seu primeiro movimento interno de transformação: “Quando o Leo nasceu, entendi que queria dar a ele o que eu não tive. Acho que foi ali que a chavezinha começou a virar”.

Mudança de direção

Os contornos de estabilidade começaram a surgir aos 24 anos, quando Lindiane passou no processo seletivo da Codeca, empresa de Caxias do Sul. Entrou como roçadora, função responsável pela limpeza e manutenção das áreas verdes do município. O trabalho era pesado, mas o salário era melhor do que tudo o que ela já tinha recebido. Nessa época, ainda morava com a família paterna do filho e começou, pela primeira vez, a se manter com o próprio dinheiro.

“Conseguia pagar minhas coisas, ajudar dentro de casa e cuidar do Leo. Mas ainda faltava algo que me permitisse estudar”, ressalta Lindiane, contando que, quando surgiu o concurso interno para coletora de lixo, decidiu tentar. Passou: “Fiz por causa do salário. Aqui o custo de vida é alto, e precisava garantir o básico para mim e para o Leo”.

Foi no caminhão que uma mudança inesperada começou a acontecer. Durante o processo seletivo de resíduos, Lindiane pegava livros que encontrava no lixo reciclável. Um dia, achou um “Vade Mecum”, que reúne leis, códigos, estatutos e normas mais importantes de diversas áreas do Direito. Nunca tinha folheado um. Guardou. Leu. E algo mudou:

“Foi dali que veio o interesse pelo Direito. Nunca tinha pensado na área, mas aquele livro ficou me chamando…”.

Sem dinheiro para pagar um supletivo, entrou no EJA, programa de ensino para jovens e adultos da rede pública. A rotina era exaustiva.

“Mas eu tentava não olhar para o quanto era pesado. Se olhasse, travaria”, lembra.

Contra todas as expectativas, inclusive as suas, Lindiane fez o Enem. E entrou no curso de Direito da Universidade de Caxias do Sul (UCS), aos 36 anos. A alegria inicial logo deu lugar a um estranhamento. Nas primeiras semanas, sentia que não pertencia àquele lugar.

“Era como se existisse espaço de rico e espaço de pobre. Achava que aquele ambiente não era meu”, conta.

Mesmo assim, seguiu. Encontrou acolhimento entre professores e colegas, mas convivia com uma série de dificuldades: o cansaço acumulado do trabalho, a falta de tempo, a insegurança com tecnologia.

“Ficava apavorada para mexer no Drive. Hoje acho simples, mas naquela época vivia entre dois mundos”, diz.

A vida acadêmica seguiu enquanto ela administrava a maternidade solo de dois filhos. Nesse período, Lindiane enfrentou, também, uma das faces mais duras da violência para uma mulher:

“Passei por violência psicológica, doméstica… até medida protetiva eu precisei”.

Foram momentos em que a vida quase a fez parar. Um episódio em particular ilustra o quão exaustiva era a luta diária.

“Em uma terça-feira, ele invadiu minha casa, quebrou tudo, me agrediu. No outro dia, eu tinha prova. Tirei nota baixa e me senti culpada”, revela Lindiane que, mesmo com o trauma, não desistiu dos estudos: “Pensava que aquela era a porta para eu conseguir me libertar. E segui transformando o estudo em ferramenta de sobrevivência, autonomia”.

Inspiração para os colegas

Já formada em Direito, decidiu voltar à antiga empresa para tirar fotos de formatura com um caminhão de lixo e os colegas que acompanharam sua luta, torcendo por ela. As imagens foram publicadas nas redes da empresa e viralizaram. Com a repercussão, veio também o julgamento. Muitos comentários desmereciam a conquista. A enxurrada de críticas foi dura:

“Falavam que bacharel não é advogado, que advogado faz Uber, que eu não ia ganhar dinheiro. Muita coisa negativa. Machuca”.

Mas a repercussão trouxe algo maior. Colegas da Codeca que acompanharam sua história se inspiraram e voltaram a estudar. 

“É tão lindo ver gente da coleta fazendo faculdade, buscando outra vida. Quando vejo isso, penso que valeu a pena”, conta, emocionada.

Hoje, Lindiane trabalha como agente de endemias na prefeitura e acaba de ser aprovada na OAB. Estuda, planeja e segue firme em cada pequena conquista. Ao olhar para trás, enxerga uma história feita de rupturas, mas também de escolhas e de uma obstinação silenciosa. Nada, porém, a emociona mais do que olhar para os filhos: Leonardo, agora com 20 anos, cursa Direito; Laura, de 10, cresce com oportunidades que Lindiane nunca teve.

“Entendia que precisava e queria muito buscar algo que transformasse minha vida e a dos meus filhos. Ver o Leo entrando na faculdade é algo que não consigo descrever. Meus filhos podem sonhar. Para mim, é isso que importa”, orgulha-se.

’É o Complexo’

Filme estrelado por moradores de favela do Rio mostra as dores e as esperanças de quem é tratado como coadjuvante na vida real


’É o Complexo’ abre trilogia inspirada em músicas de Chico Buarque


por Marco Antonio Rocha

As ruas da Favela do Engenho da Rainha, território violento da Zona Norte do Rio, são cenário do filme “É o Complexo”. Estrelada por atores da comunidade, a obra retrata as dores e as esperanças de quem é tratado como coadjuvante na vida real. Na trama, os estudantes de cinema Gabry e Mel fazem um documentário com traficantes locais. De classe média, a jovem se deslumbra com aquele universo de armas, bailes funk, códigos próprios de conduta e assistencialismo aos moradores. Mas a ilusão é inevitavelmente desfeita pela violência que não deixa vitoriosos nesta guerra.

“Conheci essa história ao assistir na internet a websérie dirigida pelo Gabriel Machado, que tem o mesmo nome do filme. Fiquei muito bem impressionado com os talentos que vi ali, apesar dos pouquíssimos recursos tinham. Achei que poderia contribuir e entrei em contato com os produtores”, conta Vinícius Coimbra, que divide a direção do filme com Machado: “Rodamos as cenas novamente, com equipamentos mais modernos e minha experiência, mantendo os atores e seus personagens. Minha intenção era fazer um filme com eles e para eles”.  

“É o Complexo” abre uma trilogia concebida por Coimbra, inspirada em músicas de Chico Buarque – neste caso, é “Meu Guri” que serve de fio-condutor da história. A experiência de gravar por três semanas na Favela do Engenho da Rainha foi transformadora para o diretor: “As cenas foram criadas por eles, porque essa realidade não é a minha.  Eles são muito talentosos, todos os diálogos foram improvisados a partir das suas próprias vivências. É uma realidade que precisa ser iluminada e debatida. As classes privilegiadas viram as costas para questões que acabam retornando para elas próprias”.

Um dos atores da obra, Da Champion, de 28 anos, ressalta que “É o Complexo” é diferente de outras produções sobre favela.

“Esse filme mostra nossa realidade, sem filtros e estereótipos. Meu sonho desde moleque é ser ator. Até já tinha gravado algumas coisas por conta própria, mas nada que chegasse nem perto disso. É uma emoção enorme ver que chegamos aqui, juntos”, diz ele, que tenta a vida como cantor de rap, trap e funk: “A grande mensagem que ‘É o Complexo’ passa é que o crime não vale a pena, porque a morte é uma certeza. A favela não tem nem mesmo o básico, mas isso não é capaz de fazer a gente parar de sonhar”.

E é no corre como motoboy que Índio, de 26, tenta ultrapassar as dificuldades para seguir a carreira de ator. Pai de um menino, estudou apenas até a terceira série: 

“As oportunidades são raras na favela, mas esse filme chegou como uma grande chance. Espero voltar a estudar, por mais que eu saiba que é difícil. Já até procurei um curso de teatro, mas é muito caro”. 

Para Jayzz, um dos idealizadores do projeto, o maior ganho que “É o Complexo” traz para a comunidade é apontar as saídas que, muitas vezes, ficam escondidas no dia a dia.

“A história busca conscientizar os moradores periféricos de todo o Brasil, pessoas que não têm condições de estudar, que enfrentam dificuldades imensas na hora de procurar trabalho. Claro que a vida de quem vive na favela é cheia de obstáculos, mas é possível vencer”, avisa Jayzz, que empresaria oito cantores do Alemão.

O filme está disponível no site https://vimeo.com/1101008432, com a senha EOC0207

Vinícius Coimbra

Vinícius Coimbra

O encontro de paixões na luta olímpica

O encontro de paixões na luta olímpica


Aluna e professor de projeto inédito são figurinhas carimbadas nos pódios pelo país


por Guilherme Frota

Nos tatames, Maria Eduarda Ribeiro do Nascimento é sinônimo de garra e esperança por títulos. Moradora da Zona Norte do Rio, a jovem de 16 anos é um dos nomes mais promissores da luta olímpica no país. Com oito medalhas conquistadas em Brasileiros e Estaduais, ela segue em busca de mais e demonstra nos treinos que qualquer desafio pode ser superado.

“Ela é uma chilena que veio lutar com a gente hoje, é experiente, tem quase o dobro da minha idade. Achei que ia tomar uma surra, mas não foi bem assim”, orgulha-se Duda, ao lado de sua oponente após mais uma sessão de treinos.

Aluna do professor iraniano Sajad Salami, a atleta faz parte de um grupo de luta olímpica que nasceu na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Trata-se de um projeto de extensão que busca incluir alunos e não alunos no esporte, justamente na instituição onde Sajad dá aulas, como professor de matemática, durante a semana:

“O Wrestling na Uerj nasceu em 2023. Esse esporte, que no Brasil é conhecido como luta olímpica, é a paixão dos iranianos. Para nós, é como o futebol para os brasileiros!”.

Técnico do Brasil no Pan-Americano de 2023, Salami também busca, a partir do Wrestling na Uerj, formar uma equipe de lutadores. Afinal, a paixão pelo esporte milenar o segue por onde vai, já que pratica a modalidade desde os 9 anos. Hoje, inspira jovens, como Duda, que têm vontade de aprender.

“Ela começou a treinar com a gente há quase um ano e já ganhou várias medalhas. Duda participou de três ou quatro competições estaduais e nacionais. Acho que ela vai representar muito bem o Brasil no futuro”, aposta o professor.

Com tatames importados e um ambiente bem preparado, Salami cultiva a esperança de encontrar apoio financeiro. O objetivo é ampliar as aulas de luta, mas, enquanto houver jovens interessados, o iraniano diz “dar um jeito”. Recentemente, o projeto Wrestling na Uerj foi renovado até 2027.

Turbante-se de Ancestralidade

A amarração que entrelaça histórias


Projeto carioca mostra que usar turbante é também um ato de autoestima, ancestralidade e conexão entre mulheres


por Ana Julia Silveira

Há encontros que mudam destinos. Às vezes, é em um gesto simples — como uma mulher ensinando outra a amarrar um pano na cabeça — que nasce algo muito maior. Foi assim que Priscila Teodoro descobriu, em 2018, que o turbante podia ser mais do que um acessório: podia ser um laço entre mulheres, histórias e tempos.

“Comecei vendendo turbantes, só vendas mesmo. Mas as clientes sempre me pediam ajuda nas amarrações. Colocava elas sentadas, dava um espelhinho, ensinava como deveria ser feito e depois deixava tentarem sozinhas”, lembra a moradora do Morro do Urubu, em Pilares, Zona Norte do Rio: “Aos poucos, aquilo deixou de ser só sobre vender. Era um momento de troca, de autoestima, de afeto”.

Uma das clientes trabalhava no Instituto Nacional do Câncer (Inca) e foi a primeira a perceber que o trabalho de Priscila ia além das amarrações. Foi ela quem a convidou para participar da campanha do Outubro Rosa, ensinando as pacientes em tratamento oncológico a amarrar seus turbantes:

“Fui lá para ensinar, mas saí transformada. Vi o quanto aquele gesto podia levantar a cabeça de uma mulher, no sentido mais profundo mesmo”.

A cliente acabou se mudando para outro estado, mas deixou uma semente. E, como quem está em movimento atrai novos caminhos, outra mulher logo cruzou o de Priscila: desta vez uma professora.

“Ela me perguntou se eu toparia ir à escola dela, no Novembro Negro, para ensinar as amarrações aos alunos de uma turma do ensino médio. Fui e, a partir dali, o que era apenas venda virou, também, uma oficina”, orgulha-se a afroempreendedora, dizendo que aquela vivência despertou uma nova curiosidade: “Não queria somente ensinar a amarrar, queria ensinar o que o turbante significa. Então comecei a estudar a história da África e a cultura afro-brasileira. Descobri coisas lindas, aprendi que o turbante é uma linguagem. Em algumas regiões ele representa paz, em outras indica se uma mulher é casada ou não. Vai muito além da moda”.

Filha de axé, Priscila aprendeu as primeiras amarrações no terreiro. Entre ojás e cantos, compreendeu o significado espiritual do pano: símbolo de fé, identidade e respeito. Foi nesse território que o Turbante-se de Ancestralidade começou a tomar forma — primeiro como gesto, depois como propósito. Em 2024, o projeto se tornou oficial com o edital Ações Locais, da Prefeitura do Rio. Para participar, Priscila precisou formar um coletivo. Assim nasceu o Pirâmide Ancestral, junto de duas amigas afroempreendedoras.

“Quando comecei a descrever o projeto, percebi que ele já não era só meu. Era sobre o coletivo, sobre como uma mulher chama a outra e as coisas vão crescendo”, conta.

Com apoio do edital, o Turbante-se de Ancestralidade ganhou fôlego: passou a percorrer escolas, comunidades, grupos LGBTQIA+ e espaços de acolhimento, espalhando consciência e ancestralidade. Hoje, o projeto segue itinerante, e Priscila entende que seu trabalho ultrapassa o gesto manual de amarrar o pano:

“Minha mãe de santo me disse que essa é uma das minhas missões de vida, levar esse conhecimento além dos terreiros. E sinto isso mesmo: é um chamado. Meu sonho é impactar mais gente… mulheres, jovens, idosos, pessoas LGBTQIA+. Que elas também possam transformar isso em renda, fazer seus turbantes e levar essa história adiante”.