Em Angra dos Reis, Rafael de Jesus ensina canoagem para desenvolver alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA)
Por Bárbara Faria
A interação social é um desafio para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O termo “espectro” se refere justamente às diferentes formas como o autismo se manifesta em cada pessoa. Os desafios no processo de socialização de crianças atípicas são ainda maiores.
A ideia de um projeto de canoagem pensado para elas não surgiu por acaso. Rafael de Jesus, instrutor de canoagem, cresceu vendo a mãe, que é psicóloga, sempre envolvida com atendimentos e viveu boa parte da infância e juventude dentro de consultórios, acompanhando de perto essa realidade, mesmo não tendo um familiar direto diagnosticado com autismo.
As duas vivências se encontraram quando ele começou a enxergar o esporte não apenas como atividade física, mas como uma ferramenta poderosa de desenvolvimento, principalmente para crianças atípicas. Ver essas crianças irem à praia sem conseguir pisar na areia devido à sensibilidade sensorial foi o ponto de partida para o surgimento do Va’Atípico, uma iniciativa gratuita de canoagem que funciona em Angra dos Reis, com bases na Praia do Anil e na Praia do Verolme.
As aulas de canoagem funcionam como uma ferramenta terapêutica complementar. Como cada aluno responde de forma diferente, a adaptação acontece em tudo: linguagem, ritmo, nível de exigência e até no tempo dentro da atividade. O objetivo é que cada criança evolua dentro da própria realidade. “Eu não aplico apenas uma aula de canoagem. Eu utilizo princípios que dialogam com o desenvolvimento infantil dentro do espectro: previsibilidade, repetição, estímulo sensorial controlado e construção de vínculo. A remada, por exemplo, trabalha coordenação bilateral, ritmo e foco. O ambiente natural reduz a sobrecarga sensorial. E a relação construída dentro da canoa fortalece aspectos sociais e emocionais”, explica Rafael.
O ambiente aquático oferece estímulos que, quando bem mediados, trazem benefícios para essas crianças. O mar é um ambiente extremamente rico do ponto de vista sensorial. Enquanto o movimento da água favorece o desenvolvimento do equilíbrio, os sons naturais contribuem para reduzir estímulos agressivos, diminuindo a ansiedade e promovendo um estado de calmaria. “Fora da canoa, algumas ainda apresentam dificuldades, mas com o tempo a evolução começa a generalizar. A criança leva aquilo que constrói na água para outros ambientes”, complementa.
A iniciativa não substitui terapias convencionais, mas atua como um recurso adicional. Quando possível, Rafael mantém diálogo com os terapeutas que já acompanham as crianças, um alinhamento que potencializa o trabalho desenvolvido em conjunto. A maioria chega por indicação, o que mostra o impacto real do projeto. “No início, muitas famílias vêm com receio, principalmente pelo ambiente do mar. Mas com o tempo, isso se transforma em confiança. E o mais marcante é ver a emoção delas ao perceberem a evolução dos filhos”, compartilha Rafael.
Para manter o Va’Atípico gratuito, Rafael conta com o apoio da Secretaria de Esporte de Angra dos Reis, que disponibiliza dois estagiários por aula, o que faz diferença no acompanhamento individualizado das crianças. No entanto, a estrutura exige mais: canoas precisam de manutenção constante e os equipamentos utilizados nas atividades com o público infantil exigem reposição mais frequente do que em um projeto esportivo convencional.
Para preencher essa lacuna, o projeto está aberto a parcerias com empresas e pessoas que queiram contribuir. “Mais do que apoio financeiro, essas parcerias representam investimento direto no desenvolvimento dessas crianças e na continuidade de um trabalho que transforma realidades”, diz Rafael.
Quando perguntado sobre uma história marcante, Rafael diz que não consegue escolher apenas uma. São muitas as lembranças que considera especiais. “Não foi um único momento, foi a repetição de pequenas transformações que me fez ter certeza. Quando você vê uma criança que tem dificuldade de comunicação começar a se expressar ou uma criança que não se conectava passar a criar vínculo, isso muda tudo.”
O nome Va’Atípico carrega uma homenagem dupla. “Va’a” (ou “Wa’a”, no havaiano) significa canoa nas línguas polinésias, referência direta à modalidade praticada. Já “Atípico” representa a essência do projeto. Juntos, os dois termos formam uma identidade que, segundo Rafael, pode ir muito além de Angra dos Reis. “Onde houver água e condições para colocar uma canoa, o projeto pode existir. A gente não limita o Va’Atípico a um ponto específico”.
O sonho de expansão passa, antes de tudo, pela formação de pessoas. Rafael quer formar profissionais e compartilhar o conhecimento acumulado sobre como conduzir, respeitar e estimular o desenvolvimento de crianças dentro do espectro, multiplicando uma prática construída com cuidado, tempo e afeto. Para profissionais do esporte que ainda não pensaram em trabalhar com o público atípico, Rafael deixa uma mensagem que resume o espírito do projeto: “Quando você está em campo, lidando diretamente com essas crianças, o que realmente faz diferença é o quanto você está disposto a se conectar de verdade. É preciso sensibilidade, paciência e, acima de tudo, amor. Porque o mundo atípico exige isso. Não é um trabalho mecânico, é um trabalho humano. O conhecimento é importante, mas é o amor que conduz tudo”.