O trabalho de Paulo Escobar une acolhimento, denúncia e produção de conhecimento ao lado da população em situação de rua


Por Ana Julia Silveira

Para quem observa as discussões calorosas nos corredores do programa de Mudança Social e Participação Política da USP, o sociólogo Paulo Escobar Gonzalez pode parecer apenas mais um acadêmico imerso em teorias complexas sobre aporofobia – termo que define a rejeição e a aversão aos mais pobres. No entanto, basta caminhar alguns minutos ao seu lado pelas ruas do Belém ou pelo centro de São Paulo para entender que sua bagagem intelectual não nasceu dos livros, mas do asfalto que pisa diariamente há 26 anos. É dessa junção rara entre o rigor científico e a vivência crua das ruas que pulsa o coração do Projeto Caminhos e do Observatório de Pobrefobia, iniciativas que desafiam a lógica da caridade tradicional e propõem uma nova forma de enxergar a dignidade humana.

A sensibilidade que hoje molda esses projetos foi herdada ainda na infância, no Chile, sob uma severa ditadura militar. Aos sete anos, enquanto as outras crianças corriam com medo do “homem do saco preto”, sua avó o puxou pela mão para sentar na calçada e oferecer pão e café a Horácio, um morador de rua local. Naquela mesa improvisada no chão, em meio à própria pobreza da família, Paulo aprendeu que a miséria não anula a existência do outro. No fim de 1999, já em São Paulo, ele decidiu transformar aquele ensinamento em escolha de vida: passou a dedicar integralmente seu tempo à população que habitava o centro e a antiga Cracolândia, sem o distanciamento comum de quem faz apenas um trabalho voluntário esporádico.

É justamente o conceito de “convívio” que diferencia suas ações de uma assistência social burocrática. Paulo rejeita o termo “ajuda”, por entender que a caridade vertical muitas vezes enxerga apenas um número ou objeto de pena, e não um sujeito. No cotidiano das ruas, descobriu uma via de mão dupla em que os afetos se cruzam.

“A galera sabe quando eu estou bem ou mal. Teve momentos de profunda dor que passei na vida, andava na rua e, pelo meu rosto, eles me paravam e perguntavam: ‘Você tá bem?’. Isso me tocava demais, porque eu pensava: ‘Caramba, ele sabe me ler muito melhor do que muita gente’. E essas coisas vêm pelo convívio”, conta.

Segundo ele, o convívio real envolve também partilhar dores e contradições humanas, longe de qualquer romantização moral. “A população de rua não é formada por anjos nem demônios. São seres humanos que têm suas ações potencializadas, tanto para o bem quanto para o mal, pela condição em que se encontram”, pontua.

Foi dessa percepção que nasceu o Projeto Caminhos, há cerca de quatro anos. A iniciativa surgiu do incômodo de Paulo e seu amigo Fabiano com a morosidade e a burocracia do Estado, que chega a demorar até 45 dias para liberar uma simples passagem de ônibus para quem deseja voltar para sua terra natal. O projeto começou do zero, com a criação de um fundo solidário focado em soluções personalizadas e ágeis. Em vez de uma resposta única para uma população plural, o Caminhos atua de acordo com demandas individuais: seja pagando o primeiro aluguel e mobiliando a casa de uma jovem que desejava tirar a avó da rua, seja comprando um botijão de gás ou articulando uma vaga de trabalho.

A evolução natural desse movimento foi a abertura da Casa Caminhos, um espaço cultural próximo ao metrô Belém que funciona sob uma premissa fundamental: a de parecer — e ser — um lar, sem placas institucionais na fachada que rotulem quem entra. Ali, a horizontalidade dita as regras. Os frequentadores utilizam uma cozinha coletiva onde muitas vezes preparam alimentos que eles próprios conseguiram e doaram para o grupo. O espaço oferece lavanderia, horta comunitária e banhos individuais que respeitam a privacidade – um contraste com os chuveiros coletivos dos albergues estatais.

Mais do que assistência básica, a casa tornou-se um polo de acesso à cidadania e à subjetividade. Nas salas, computadores com internet já permitiram que dezenas de pessoas reencontrassem familiares que as julgavam mortas, enquanto oficinas de arte e as rodas de “Filosofia da Rua” estimulam o pensamento crítico a partir do saber construído nas calçadas. 

“O principal no Caminhos é que a gente sempre tentou lutar pela dignidade e pela autonomia. Quem atua em órgãos do Estado parece querer tomar para si a tutela sobre a população. Nós alugamos a casa, eles seguem seus caminhos e a gente não fica vigiando. Eles constroem seus planos e são eles que dizem por onde querem ir”, explica Paulo.

Paralelamente ao acolhimento, a urgência da denúncia moldou o Observatório de Pobrefobia. Por meio dele, Paulo e sua rede expõem a violência cotidiana sofrida por essa população, que vai desde as agressões físicas até a arquitetura hostil das cidades, projetada para impedir o descanso dos corpos mais pobres. É um trabalho de enfrentamento que já o colocou em situações de risco e o fez sofrer ameaças inúmeras vezes. Para Paulo, a sociedade e o Estado operam negando a subjetividade dessas pessoas, controlando seus corpos e julgando suas escolhas sob uma ótica puramente moral.

Essa crítica à desumanização da pobreza também aparece nos livros escritos por ele, como ‘20 Sonhos de Rua’ e ‘Uma História de Amor’. Nas obras, Paulo destaca o fato de que a população em situação de rua tem direito ao desejo, ao afeto e ao futuro, e não apenas ao prato de comida que sobrou de alguém. Ele recorda o aniversário de uma frequentadora do projeto que, ao ser perguntada sobre o que queria ganhar, pediu apenas um pudim com ameixa – um doce que a conectava diretamente às memórias de sua infância e de sua mãe. “A gente nega a humanidade e a subjetividade da população de rua o tempo inteiro. Se alguém está dançando na pobreza, tudo é questionado. O morador de rua é um ser humano julgado a cada segundo pelo que faz, pelo que sonha e pelas ações que tem”, desabafa o sociólogo.

Trazer essas vozes e vivências para dentro dos muros rígidos da USP é a missão atual de Paulo em seu doutorado. Ele se assume como um “corpo estranho” na universidade e tensiona a estrutura acadêmica que, historicamente, trata os vulneráveis apenas como objetos de estudo. Sua produção textual e sua dissertação de mestrado – que será lançada em livro ainda este ano – invertem essa lógica vertical. “Não é a academia que me dá suporte teórico para eu entender a realidade. Eu acho que é a população de rua que dá o suporte teórico para entendermos onde estamos e o meio em que vivemos”, defende.

Para ele, a universidade se faz inacessível propositalmente e acaba excluindo potenciais brilhantes por causa de uma engrenagem rígida: “A estrutura da universidade tem uma dívida muito grande com a população mais pobre. Me incomoda esse lance de que tudo tem que ser escrito ‘para os meus pares’. Já é um mecanismo de exclusão. Eu tentei propor na faculdade que levassem as teorias para as pessoas que foram estudadas lerem, para ver se elas entendiam, até por uma questão de honestidade. Quero que quem está do lado de fora dos muros tenha acesso ao que é escrito, para pelo menos abrir algumas brechas nesse muro”.

Ao olhar para trás, o pesquisador que hoje ocupa as salas da USP mantém o mesmo compromisso do jovem que caminhava pelo Belém e pela Cracolândia no fim dos anos 1990. Mais do que isso, cada passo dado na Casa Caminhos e no Observatório serve para honrar a lembrança de Horácio, aquele primeiro morador de rua que conheceu na infância e que o ensinou a ler a humanidade antes de qualquer teoria sociológica. Para Paulo Escobar, a escrita e os projetos cotidianos servem para abrir brechas nos muros da indiferença paulistana, movidos pela certeza de que a autonomia e a dignidade não se doam de cima para baixo; constroem-se caminhando juntos, no mesmo nível do chão.