A Casa de Apoio à Criança São Vicente de Paulo oferece às famílias suporte social, psicológico e humano durante o tratamento
Por Lais Silveira
Nem toda dor pode ser tratada com remédios. Há momentos em que uma família precisa, acima de tudo, de um lugar onde possa respirar, ser ouvida e encontrar apoio para seguir em frente. Foi dessa percepção que nasceu a Casa de Apoio à Criança São Vicente de Paulo, que há 26 anos acolhe famílias de crianças em tratamento contra o câncer e transforma a vulnerabilidade em cuidado.
A origem do projeto está justamente naquilo que faltava para muitas famílias. Os hospitais realizavam o tratamento médico, mas havia uma necessidade que permanecia sem resposta.
“O desejo surgiu a partir desse contato direto com as mães e os pais que estavam realizando o tratamento. Existia o tratamento da criança, mas não existia o acolhimento. A gente presenciava esse desespero, essa necessidade de algo mais social voltado para a vulnerabilidade que essas famílias apresentavam naquele momento. O desejo começou a partir dessa vivência na carne, de você ver e ser tocado pela dificuldade que elas estavam passando”, relembra Wanderson, coordenador da Casa de Apoio.
Desde então, a instituição passou a construir um trabalho voltado para enxergar cada família além do diagnóstico. O acolhimento começa antes mesmo dos atendimentos. As famílias chegam à Casa de Apoio encaminhadas pelas equipes de assistência social das unidades de saúde onde realizam o tratamento e, ao chegarem, passam por uma nova escuta. O objetivo é compreender suas necessidades e de que forma a instituição pode contribuir naquele momento.
“A gente faz uma nova anamnese para entender a necessidade daquela família e como a instituição pode trabalhar para melhorar essa situação. É um acolhimento para entender o momento em que ela está vivendo e qual apoio ela precisa: medicamentoso, nutricional, social ou estrutural. A gente busca entender para oferecer um apoio mais assertivo no apoio que oferece”, explica Wanderson.
Hoje, a instituição atende cerca de 70 famílias em todo o estado do Rio de Janeiro. A maioria é formada por mulheres responsáveis sozinhas pelos filhos, muitas vezes impossibilitadas de manter um vínculo de trabalho por causa da rotina intensa entre consultas, internações e tratamentos.
Além do suporte social, as famílias recebem acompanhamento nutricional, psicológico, pedagógico e participam de oficinas desenvolvidas pela instituição. Parte desse trabalho é realizada por voluntários e estagiários, enquanto outras atividades contam com profissionais especializados.
Durante muitos anos, a Casa de Apoio também recebeu famílias vindas de diferentes estados brasileiros. A hospedagem, porém, precisou ser interrompida após a pandemia por causa da redução das doações e do aumento dos custos para manter esse serviço.
“A gente tem toda a estrutura física pronta, mas manter uma família hospedada exige alimentação, transporte, medicação, produtos de higiene, limpeza… Tudo isso ficou muito caro. Sem ajuda governamental e sem recursos suficientes, a gente precisou interromper esse serviço. Se conseguirmos novas parcerias, esperamos voltar com a hospedagem no futuro”, conta.
Ao longo de sua trajetória, a Casa de Apoio já beneficiou diretamente mais de cinco mil famílias. Para Wanderson, no entanto, alguns números nunca conseguirão traduzir o impacto real do trabalho.
O que as crianças ensinam
Conviver diariamente com crianças em tratamento também transforma quem está do outro lado do cuidado.
“A gente aprende a não reclamar tanto. Aprende que a vida pode ser mais simples e conduzida de uma forma diferente. A gente tem muito, mas está sempre reclamando do pouco. Aqui, convivendo com essas crianças e essas famílias, a gente entende diariamente que tem muito mais motivos para agradecer.”
Para Wanderson, acompanhar de perto cada etapa do tratamento muda a forma de enxergar a própria vida.
“Você vê uma criança passando por situações que, humanamente, a gente não consegue explicar. Ela faz quimioterapia, perde o cabelo, enfrenta tantas dificuldades… É uma convivência muito tocante.”
Um trabalho que depende de muitas mãos
Assim como tantas organizações sociais brasileiras, o maior desafio enfrentado pela Casa de Apoio continua sendo a escassez de recursos.
“O recurso financeiro é o maior desafio. Falta parceria, falta doação, e isso limita o número de famílias que conseguimos atender. As instituições acabam suprindo uma necessidade social muito grande, mas ainda existe pouco apoio para que esse trabalho continue crescendo”, afirma.
Para ele, a participação da sociedade é indispensável para manter iniciativas como essa funcionando.
“A sociedade não só pode, como deve participar. É ela que mantém as instituições por meio das doações, do trabalho voluntário e do acompanhamento das ações. Sem essa participação, muitos projetos simplesmente não conseguem existir.”
Mais do que contribuir com uma causa específica, Wanderson acredita que esse envolvimento fortalece uma cultura de cuidado coletivo.
“A gente fala das crianças com câncer porque é a realidade que vivemos aqui, mas isso vale para tantas outras causas sociais. Quando a sociedade participa, ela fortalece iniciativas que transformam vidas todos os dias.”
O sonho da Casa de Apoio é ampliar novamente o número de famílias atendidas, retomar a hospedagem de pessoas vindas de outros estados e voltar a ter o alcance nacional que marcou parte de sua história. Enquanto isso não acontece, o trabalho continua sendo construído diariamente por pessoas que acreditam que cuidar vai muito além do tratamento.
“Hoje eu resumo a instituição como um projeto social muito importante. Já vi famílias totalmente desestruturadas saírem daqui fortalecidas, conseguirem caminhar com as próprias pernas e reconstruírem suas vidas. Isso é muito gratificante. É um trabalho de impacto social tremendo.”