Em Itatiaia, William Santos criou uma regra simples para ajudar crianças que não têm dinheiro para jogar: quem lê, joga e descobre que as duas coisas podem ser divertidas
Por Bárbara Faria
A WD Game House, em Itatiaia, Rio de Janeiro, nasceu com uma intenção simples e bonita: ser o lugar que William Santos não teve na infância. Um espaço onde crianças do bairro pudessem jogar videogame com dignidade, sem depender de ter dinheiro sobrando no bolso. A impotência que sentia ao ver os pequenos parados na porta da sua lan house era a mesma que ele carregava desde menino, quando ia até a locadora só para assistir aos outros jogarem, na esperança de ganhar alguns minutinhos.
Deixar todo mundo jogar de graça não era sustentável para o negócio, e cobrar de quem não tinha como pagar doía tanto quanto não fazer nada. As primeiras tentativas de driblar essa realidade eram criativas, como a troca de latinhas e recicláveis por horas de jogo, mas não foram muito longe porque a ideia virou alvo de críticas. Foi a partir daí que William olhou para o cantinho da sala e viu naquela minibiblioteca que estava lá desde sempre, quase invisível, uma oportunidade que mudaria tudo. Ele não sabia exatamente como ia funcionar quando propôs pela primeira vez, mas sugeriu da seguinte maneira: dez minutos de leitura valeriam vinte de jogo. Vinte minutos de livro valeriam quarenta de controle na mão. Meia hora lida, valeriam uma hora jogada.
Após sugerir a ideia e os garotos aceitarem, os livros começaram a despertar cada vez mais interesse. Um deles chegou um dia e perguntou se havia livros novos. Disse que já havia terminado o que pegou antes e queria outro. Foi até a estante, escolheu, voltou e pediu uma folha para fazer um resumo, mesmo sem ninguém ter pedido. William conta esse episódio com alegria: “Eu nem pedia resumo. Só veio à cabeça que eles não podiam ir embora mais uma vez frustrados. Hoje, sinto que eles realmente gostam da leitura porque, por mais que tenham o interesse de jogar, se eles não gostassem de ler, nem aceitariam a proposta”, explica.
O acervo conta com uma grande variedade de histórias em quadrinhos e mangás, mas também tem livros de romance e fantasia. No começo, as crianças davam preferência às HQs, como Turma da Mônica e Dragon Ball, mas William começou a notar que, com o tempo, passaram a escolher livros maiores. “O engraçado e bonito é que as crianças e adolescentes que começaram lendo quadrinhos estão migrando para livros mais profundos. Estão lendo livros de heróis, Sherlock Holmes e Harry Potter. Essa mudança aconteceu sozinha, no ritmo deles”, conta.
O sucesso da WD Game House, inaugurada em 2019, é inegável e logo se espalhou pelas redes sociais, tomando uma proporção ainda maior. De acordo com William, a repercussão é bastante positiva. Muitos professores o parabenizam pela iniciativa e pelos incentivos que ele dá aos estudos e à leitura. “Os incentivos que existem aqui na Game House mudam a rotina deles. É uma vitória grande que eu conquistei aqui porque a criança só vai depender dela mesma para poder jogar. Aqui eles vão ter a oportunidade de jogar através da leitura”, comenta.
Gradualmente, o projeto foi ganhando outros incentivos que estimulam foco e educação: não falar palavrão para não perder 30 minutos do tempo conquistado; terminar o jogo do mês, do começo ao fim, para receber R$50; e ter o melhor boletim para concorrer a um videogame doado por seguidores das redes sociais. Com isso, os pais das crianças também passaram a reconhecer a importância do projeto. “Uma mãe disse que o filho está se esforçando mais na escola, chegando em casa e pedindo ajuda nos deveres. Tudo porque ele quer ganhar um PlayStation 5 que vamos dar no final do ano”, explica William.
William Santos tem 38 anos e trabalha com limpeza e manutenção de piscinas há mais de 20 anos. Ele faz parte de uma geração que cresceu ouvindo que videogame é perda de tempo, mas não perdeu a esperança de transformar esse conceito. Ele acredita que é possível mudar essa mentalidade e mostrar que os games podem ser usados para o bem.
A WD Game House é um exemplo disso, já que vem ajudando na rotina das famílias e criando consciência para que as crianças joguem com moderação, adquirindo conhecimento com os livros. “Independentemente do empreendimento que tiverem, eu procuro falar que eles têm que trazer inovação. Por aqui, estou sempre trazendo alguma coisa nova. Agora quero fazer um clube de leitura para a criançada. A inovação aguça a curiosidade da criança”, compartilha William.