Três décadas após nascer como campanha que mobilizou o Brasil, Ação da Cidadania se reinventa para combater outros tipos de necessidade
por Ana Julia Silveira
Quando a Ação da Cidadania surgiu, em 1993, o Brasil foi confrontado com um dado impossível de ignorar: 32 milhões de pessoas viviam em situação de fome. Mais de três décadas depois, embora as estatísticas tenham oscilado drasticamente, a organização nascida daquela urgência não apenas resiste, como se reinventou para operar em uma escala muito superior à original. Criada a partir de uma campanha idealizada por Herbert de Souza, o Betinho, a entidade se consolidou como uma das maiores experiências de engajamento social do país.
“Foi uma mobilização gigantesca, com milhões de voluntários, numa época sem internet e sem redes sociais”, recorda Kiko Afonso, diretor-executivo da organização: “Quando o número de pessoas com fome veio a público, o Brasil inteiro se envolveu”.
O percurso da instituição acompanhou os altos e baixos das políticas públicas brasileiras. Após o país sair do Mapa da Fome em 2014, a Ação atravessou um período de retração natural: “Era uma organização com uma história enorme, mas que naquele momento tinha perdido escala”.
A virada de chave começou em meados da década de 2010, com um processo profundo de reorganização, que incluiu modernização administrativa e um novo estatuto. Foi nesse período que a entidade ampliou seu olhar para além da urgência do prato vazio, incorporando o combate às chamadas “outras fomes”, como a de cultura e direitos.
O retorno da fome severa ao cenário nacional, no entanto, foi percebido pela organização antes mesmo dos dados oficiais. Com a crise fiscal de 2016, especialmente no Rio de Janeiro, a rede nacional da Ação notou famílias que nunca haviam enfrentado insegurança alimentar batendo à porta em busca de ajuda.
“Quando fomos a campo, ficou claro que a fome estava voltando. Essa constatação levou à reativação do Natal Sem Fome em 2017, agora em um contexto de comunicação dominado pelo digital. Já não era mais a grande mídia que pautava a narrativa. Tivemos que aprender a atuar nesse novo ambiente, com campanhas digitais e parcerias com empresas de tecnologia”, explica Kiko Afonso.
A chegada da pandemia de Covid-19 apenas acelerou uma tragédia que já se desenhava. O impacto foi devastador e exigiu uma logística de guerra: durante o período, a Ação da Cidadania atendeu sozinha mais de 15 milhões de brasileiros: “A pandemia veio como uma bola de boliche derrubando pinos que já estavam caindo”.
Prevendo que o cenário pioraria após o pico da crise sanitária, a gestão decidiu investir parte dos recursos arrecadados no fortalecimento da própria estrutura. “A gente sabia que a situação da fome iria piorar quando a Covid passasse e que as doações iriam cair. E foi exatamente o que aconteceu”, observa.
Atualmente, a instituição opera com uma engrenagem robusta, contando com mais de 120 funcionários e uma rede de 3 mil organizações parceiras. Esse crescimento, contudo, trouxe dores de maturação.
Essa visão de longo prazo se materializa hoje nos hubs de segurança alimentar, projetos estruturantes que reúnem bancos de alimentos, cozinhas solidárias e hortas agroecológicas. Com unidades em expansão por capitais como Belém, São Luís e Porto Alegre, a iniciativa busca atacar a raiz do problema de forma sistêmica. Para o diretor-executivo da Ação da Cidadania, o combate à miséria é uma engrenagem complexa: “É como um dominó. Não adianta derrubar o décimo se os anteriores não caíram. A dignidade plena passa por alimento, mas também por cultura, cidadania e direito de escolha”.
Ao olhar para o futuro, o porta-voz rejeita o conformismo diante da desigualdade. Para quem acredita que a fome é um problema grande demais para ser resolvido, o recado é enfático: “A fome não é algo fora do nosso controle, é uma decisão política”. Três décadas após o seu nascimento, a Ação da Cidadania se posiciona hoje como uma estrutura que une memória e método para provar que, com vontade política e organização social, a dignidade não precisa ser uma exceção.