Projeto Lona na Lua completa 17 anos democratizando o acesso à arte e transformando a vida de crianças e jovens no Rio de Janeiro


Por Lais Silveira

Antes de criar o Lona na Lua, Zeca Novais era um jovem tentando fazer teatro em Rio Bonito. Mas o cenário ao redor dificultava qualquer sonho artístico. Não havia teatro municipal, cinema ou equipamentos culturais na cidade. Faltavam estrutura, oportunidades e espaço para imaginar futuros possíveis.

“O tempo foi passando, e eu acabei entendendo que a minha história seria transformar a vida da molecada para que não houvesse outros Zecas passando pelo mesmo perrengue que eu passei”, relembra o ator, produtor e diretor.

Foi dessa inquietação que nasceu o Lona na Lua, projeto sociocultural que completou recentemente 17 anos, celebrados no último dia 17 de maio. A ideia parecia improvável no início, mas carregava um simbolismo impossível de ignorar. 

“Daí nasce essa ideia um tanto quanto absurda de montar uma lona na lua, porque, se você monta uma lona na lua, faz arte em qualquer lugar”, diz Zeca.

O que começou em Rio Bonito cresceu ao longo dos anos e hoje também está presente em Tanguá e Cachoeiras de Macacu. Juntas, as três unidades atendem mais de mil crianças e jovens entre 6 e 18 anos, sempre no contraturno escolar e com aulas totalmente gratuitas.

Mais de 10 mil participantes já passaram pelo projeto ao longo dessa trajetória.

Muito além do circo

Apesar da identidade circense que virou marca registrada do projeto, o trabalho desenvolvido pelo Lona na Lua vai muito além do circo. O espaço reúne diferentes linguagens artísticas e educativas, funcionando como um ambiente de descoberta, formação e pertencimento.

“A gente trabalha com teatro, circo, música, dança, desenho, cenografia e figurino. Tem oficina de Libras para as crianças também, escrita criativa, empreendedorismo… É um espaço onde crianças e jovens descobrem aquilo com o que mais se identificam”, explica Zeca.

O principal propósito do projeto sempre foi democratizar o acesso à cultura em territórios historicamente afastados desse direito. “O objetivo do Lona na Lua sempre foi democratizar o acesso à cultura. Oferecer arte, educação e cidadania a territórios que precisam disso”, afirma.

Para Zeca, o impacto vai muito além do aprendizado técnico ou artístico. Ele acredita que a iniciativa ajuda crianças e jovens a reconhecer o próprio lugar no mundo. “Acho que, acima de tudo, é a questão da representatividade. Eles encontram um lugar de fala, de fato. Debaixo daquela lona azul estrelada, todo mundo é igual”, diz.

Ele reforça que o espaço também ajuda a romper uma ideia ainda muito presente: a de que cultura seria algo distante ou inacessível. “Eles crescem sabendo que cultura não é luxo, cultura é um direito.”

Quando a arte vira profissão

Ao longo dos anos, o Lona na Lua também passou a atuar diretamente na formação profissional de jovens da periferia. Muitos alunos que chegaram ainda crianças hoje trabalham na própria instituição. “O Lona na Lua tem uma característica muito forte, que é a formação de jovens para o mercado de trabalho”, conta Zeca.

Alguns se tornaram assistentes de produção. Outros passaram a atuar como instrutores de teatro, circo ou até motoristas da instituição. Para o fundador, essas trajetórias mostram que a arte também pode ser entendida como trabalho, profissão e possibilidade concreta de futuro. “A arte é um ofício. A gente quer que eles entendam isso, que podem, sim, se tornar trabalhadores da cultura”, afirma.

As histórias individuais acabam se misturando à própria trajetória do projeto, construída coletivamente ao longo de quase duas décadas. “São muitas histórias ali. Crianças e jovens da periferia que crescem naquele espaço e têm ali seu primeiro emprego”, diz.

Uma lona que segue crescendo

O sonho do Lona na Lua ainda está longe de terminar. Zeca conta que o projeto já conversa com outros municípios e espera inaugurar novos espaços em breve. A meta é ambiciosa: espalhar 20 lonas pelo estado do Rio de Janeiro. “A gente brinca que só faltam 17 agora”, diz, aos risos.

Ao longo dos anos, o projeto construiu parcerias importantes com instituições como Criança Esperança, TV Globo, Petrobras, Enel, UNESCO e Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Para Zeca, essa rede de apoio ajudou a fortalecer a credibilidade do movimento e permitiu que milhares de vidas fossem alcançadas pela arte. “A gente entende que existe uma grande rede que se une por um propósito em comum”, afirma.

Mesmo depois de 17 anos, ele garante que o sentimento continua sendo o mesmo do início: a certeza de que ainda há muitos territórios para ocupar e muitas crianças para alcançar. “O Lona na Lua é a arte que pulsa de verdade.”