Projeto criado para apoiar protetores independentes se transformou em uma rede de resgate, cuidado e adoção de animais em uma das regiões mais complexas da cidade
Por Lais Silveira
Neste mês de maio, a Associação Entre Pegadas completa 11 anos de atuação dedicados ao resgate, cuidado e proteção de animais em situação de abandono. O que começou como um grupo de divulgação nas redes sociais se transformou, ao longo dos anos, em uma verdadeira rede de apoio para protetores independentes e animais resgatados no Rio de Janeiro.
Criada em 2015, a associação nasceu com uma proposta comunitária: ajudar pessoas que resgatavam animais, mas não tinham estrutura, visibilidade ou apoio para seguir sozinhas.
“A ideia inicial era criar um grupo de divulgação para apoiar protetores independentes. Quando uma pessoa resgata um animal, normalmente não sabe o que fazer, não tem como cuidar e não tem rede de apoio”, relembra Cristina Malafaia Caetano dos Santos, diretora administrativa da associação.
Na época, o trabalho acontecia principalmente pelo Facebook, enquanto o Instagram ainda dava seus primeiros passos. O objetivo era ampliar a divulgação de resgates feitos por pessoas comuns, já que campanhas de adoção costumam priorizar os bichos dos próprios abrigos.
“A gente queria mudar um pouco isso. Nas campanhas, além dos nossos animais, a gente abre espaço para esses protetores levarem também os seus animais, o que é uma forma de apoio”, explica Cristina.
Desde o início, o Entre Pegadas também apostou na conscientização como ferramenta de transformação. Palestras em escolas, eventos e campanhas educativas passaram a fazer parte da rotina do projeto, sempre reforçando temas como proteção animal, castração e guarda responsável.
Mas foi em 2016 que a história da associação mudou de rumo. Um pedido de ajuda levou o grupo até o CEASA, em Irajá, uma das áreas com maior circulação de caminhões e fluxo intenso de pessoas no Rio de Janeiro. A intenção inicial era ajudar na castração dos animais que viviam no local. Só que a realidade encontrada ali transformou completamente o trabalho do grupo.
“Já saímos de lá com uma ninhada de uma cadela que tinha parido dentro de um ferro-velho”, conta Cristina.
O que era para ser um apoio pontual virou uma atuação permanente. Aos poucos, o grupo começou a castrar, vacinar e resgatar animais que viviam soltos entre estacionamentos, galpões e áreas de carga. Sem espaço físico no início, muitos eram levados para casas de voluntários até conseguirem adoção.
Em 2016, a associação conquistou um espaço dentro do CEASA para funcionar como ponto de triagem dos animais resgatados. A ideia era criar um fluxo contínuo: os animais seriam acolhidos, tratados, castrados e colocados para adoção. Mas a quantidade de abandonos tornou o desafio muito maior do que o planejado. “A entrada é sempre maior do que a saída”, resume Cristina.
Com o passar do tempo, o local passou a ser conhecido como ponto de abandono. Animais começaram a ser deixados amarrados na porta do abrigo ou jogados por cima do muro. Ao redor do CEASA, comunidades inteiras convivem diariamente com cães e gatos soltos, muitos deles sem castração, expostos à fome, doenças e atropelamentos.
“O CEASA é um dos lugares do Rio de Janeiro com maior fluxo de caminhões, vans e carros. É uma loucura o tempo todo”, relata.
Uma batalha diária
A rotina dentro do CEASA é marcada por situações extremas. Animais atropelados, doenças graves, infecções e abandono fazem parte do cotidiano dos voluntários.
“Tem animais que, às vezes, estão há mais de um mês atropelados. É uma situação que, inicialmente, é desesperadora. Muitas vezes, você não sabe por onde começar”, conta Cristina.
Ela explica que muitos resgates chegam em estado crítico e exigem internações, cirurgias e tratamentos caros. Frequentemente, os próprios voluntários arcam com os custos para que os animais não fiquem sem atendimento.
“Nenhum de nós ganha nada com o projeto. Tudo isso é feito com muito amor, mas precisamos comprar ração, medicação e pagar cirurgias”, diz.
Hoje, a associação é formada por uma rede fixa de voluntários que se divide entre os cuidados do abrigo, campanhas de adoção, atendimento veterinário, redes sociais, logística e arrecadação. Muitos estão no projeto desde o começo.
“É um trabalho movido por muito amor”, resume Cristina.
Ao longo de 11 anos, o Entre Pegadas já realizou cerca de 2 mil castrações e resgatou mais de 1.800 animais.
Histórias que resistem
Entre tantos casos difíceis, algumas histórias seguem como símbolo de esperança para quem acompanha o trabalho do Entre Pegadas.
Uma delas é a de Joana, uma cadela caramelo abandonada no CEASA. Com o tempo, os voluntários descobriram que ela era cega e surda.
“Ela sabia que a gente chegava pela vibração do solo e pelo cheiro”, relembra Cristina.
A chance de adoção parecia praticamente impossível. Além de adulta, Joana tinha duas deficiências que dificultavam ainda mais a adaptação. Mas a história tomou outro rumo quando uma família decidiu adotá-la.
“É incrível alguém adotar um cachorro caramelo, vira-lata, adulto, cego e surdo”, conta.
Outra história marcante é a da Zoeh, uma gata que perdeu os dois olhos após infecções severas. Ela foi adotada por uma família em São Paulo e, mesmo sem enxergar, se adaptou completamente ao novo lar.
“Você vê os vídeos dela andando pela casa e nem parece que é uma gata cega”, diz Cristina.
Mais do que uma causa animal
Manter o abrigo funcionando exige muito mais do que boa vontade. Rifas, bazares solidários, campanhas de arrecadação e doações ajudam a manter os animais alimentados e medicados. Ainda assim, os recursos quase nunca são suficientes.
“A fila de pedidos de ajuda é gigante, e a fila de pessoas dispostas a ajudar é pequena”, afirma Cristina.
Para ela, a dificuldade de mobilizar apoio para o abrigo também revela algo maior sobre a forma como a sociedade se relaciona com causas coletivas.
“Quando eu falo de animais, falo disso porque é onde a gente atua, mas você vê isso de modo geral. As pessoas ficam, muitas vezes, focadas no próprio trabalho, nas próprias responsabilidades, na própria vida e não têm esse olhar de comunidade”, reflete.
Ainda assim, Cristina acredita que pequenas ações podem fazer diferença, seja com doações, divulgação nas redes sociais ou campanhas solidárias.
“Nossa meta continua sendo conscientizar as pessoas sobre os maus-tratos, sobre a importância da castração e dos cuidados com os animais”, explica.
Depois de mais de uma década convivendo diariamente com abandono, dor e resgates difíceis, Cristina diz que existe uma palavra capaz de resumir o que mantém o projeto vivo.
“O que eu mais vejo nesses bichos, independentemente do que eles sofram, é que eles não perdem a capacidade de amar”, reflete. “Eu acho que a palavra que resume tudo isso é amor.”