Movimento Voa Down reúne famílias promovendo acolhimento, informação e pertencimento
por Lais Silveira
O que começa como encontro entre famílias pode se transformar em um movimento capaz de mudar trajetórias. Foi assim que surgiu o Voa Down, iniciativa independente criada a partir da escuta, do afeto e da necessidade urgente de pertencimento vivida por famílias de pessoas com síndrome de Down.
O primeiro encontro aconteceu em 21 de março de 2021, Dia da Conscientização da Síndrome de Down, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. A proposta era simples e potente: um piquenique coletivo, onde cada família levaria um prato para compartilhar. Estavam presentes mães, pais, tios, avós e irmãos, todos reunidos em um dia marcado por trocas, informação, emoção e acolhimento.
“Foi um dia muito especial, de alegria, troca e emoção. Ali eu percebi o quanto era importante para as famílias e para as crianças estarem juntas. Posso dizer que o Voa Down nasceu de verdade naquele momento”, relembra Mônica Manhoni, idealizadora do movimento, fisioterapeuta e especialista em síndrome de Down.
A partir dali, o que era apenas um grupo passou a se transformar em um movimento que cresceu com as famílias. O Voa Down se estruturou como um projeto independente, com o propósito de promover pertencimento, trocas, acolhimento e informação de qualidade por meio de encontros presenciais.
“Não somos uma ONG. Somos um movimento que conecta famílias, profissionais e a sociedade. Criamos espaços de escuta, troca, vivências e orientação, sempre colocando a família no centro de tudo”, explica Mônica.
O objetivo principal do Voa Down é fortalecer vínculos e contribuir para um desenvolvimento adequado, estimulando autonomia e inclusão real. A criança é vista em sua totalidade, e a família ocupa um papel central nesse processo:
“Acredito muito que o ambiente e as vivências oferecidas fazem toda a diferença no desenvolvimento da criança e também na saúde emocional da família”.
O acolhimento é um dos pilares do Voa Down. Atualmente, as famílias se conectam principalmente por meio do WhatsApp e do Instagram, canais por onde muitas mães chegam espontaneamente, em busca de apoio e orientação.
“Quando uma nova mãe entra em contato, ela é acolhida de forma cuidadosa e individual. A gente escuta, orienta e respeita o tempo de cada família”, conta Mônica.
Após esse primeiro contato, as famílias são convidadas a preencher um cadastro que ajuda o grupo a compreender melhor sua realidade. Existe ainda uma equipe dedicada apenas ao acolhimento inicial, formada por quatro pessoas: a própria Mônica e três mães capacitadas para esse primeiro cuidado. Em situações de maior fragilidade emocional, o acolhimento é imediato, mesmo antes do preenchimento do formulário:
“Quando percebemos que aquela família está muito fragilizada, a prioridade é acolher. Depois, com o tempo, cuidamos da parte burocrática. O mais importante é que ela se sinta abraçada”.
Além da escuta ativa, o Voa Down oferece orientação jurídica gratuita, realizada por uma das mães do grupo. Sempre que possível, o movimento também presta apoio material, com doações de cestas básicas, fraldas e roupas, criando uma rede solidária entre as próprias famílias.
“O cadastro nos permite conhecer o global dessa família, entender como ela está estruturada, se a criança faz terapias, se existem comorbidades associadas, se a mãe é solo. A partir disso, conseguimos direcionar melhor as orientações e até ajudar de forma mais direta”, explica Mônica.
O convívio entre as famílias é apontado como um dos aspectos mais transformadores do Voa Down. Nos encontros presenciais, as diferenças dão lugar à troca, ao respeito e à igualdade.
“Quando a gente se reúne, é mágico. Mesmo sendo diferentes, ali todo mundo é igual. As famílias conversam, brincam, tiram dúvidas, falam dos desafios sem medo, sem julgamento e sem preconceito”, relata Mônica.
Sempre que possível, profissionais especializados em síndrome de Down participam desses encontros, garantindo que as famílias levem para casa informações corretas e seguras. São famílias de diferentes classes sociais reunidas com um único propósito: lutar por respeito, inclusão e oportunidades reais:
“Conviver com a síndrome de Down nos mostra todos os dias o quanto a informação e o acolhimento humanizado fazem diferença no desenvolvimento da criança e no fortalecimento da família ao longo de toda a vida. O Voa Down nos ensina diariamente. Aprendemos que, quando existe amor, apoio, escuta e união, é possível transformar realidades”.
O maior desafio do Voa Down sempre foi a falta de recursos financeiros. O movimento não possui espaço físico próprio e depende de apoios pontuais para que os encontros aconteçam.
“Muitas vezes fazemos rifas e pedimos ajuda a colegas profissionais, amigos e parceiros. Eu peço, explico o destino desse apoio e, assim, vamos construindo essa rede”, conta Mônica, que sonha com um espaço próprio, acessível e acolhedor, com jardim, gramado e uma cozinha ampla: “Queremos um lugar onde possamos estimular os sentidos da criança, o cognitivo, o social, o sensorial e o motor, sempre com responsabilidade, conhecimento e direcionamento. Acima de tudo, sonhamos com uma sociedade mais respeitosa, onde todos tenham as mesmas oportunidades”.