ONG Virtualidade usa a tecnologia como instrumento terapêutico para reabilitação de pacientes acamados na rede pública do Rio


por Bárbara Faria

Você já ouviu falar da ONG Virtualidade? O projeto nasceu da amizade, da curiosidade e do desejo de dois estudantes de medicina em mudar vidas. A ideia surgiu dentro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), quando Lucas Campos e João Hazin, hoje médicos formados, perceberam que a afinidade que sempre tiveram com o universo digital poderia ir além do entretenimento. A proposta era simples e, ao mesmo tempo, ousada: usar a realidade virtual através de óculos modernos para levar alívio emocional, momentos de bem-estar e estímulo cognitivo a idosos internados, muitos deles em longos períodos de hospitalização.

Com o apoio de Max Fakoury, primeiro professor que abraçou a ideia, e o aval da universidade, a iniciativa saiu do papel. No fim de 2021, as primeiras sessões passaram a acontecer semanalmente na enfermaria do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG), como um projeto de extensão.

Durante as atividades, os pacientes que estão fisicamente restritos ao leito escolhem os destinos que gostariam de visitar: cidades, países, paisagens naturais, locais simbólicos ou lembranças afetivas. Voluntários acompanham tudo por meio de tablets e conduzem as conversas sobre o que está sendo visto, estimulando memória, linguagem e emoção. Antes e depois das sessões, questionários avaliam aspectos psicológicos e emocionais.

Com o tempo, o projeto universitário ultrapassou os muros da instituição. A demanda de pacientes de outras faixas etárias e o interesse de levar essa iniciativa para mais pessoas impulsionaram a fundação oficial da ONG, batizada de Virtualidade, em agosto de 2022. A organização reúne atualmente cerca de 66 voluntários cadastrados, entre médicos, enfermeiros, professores universitários, profissionais que cuidam do financeiro, do jurídico e da comunicação. 

A Virtualidade expandiu suas ações para outros hospitais do Rio de Janeiro e, hoje, tem sede em três unidades que recebem ações semanalmente: Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG), da Unirio; Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), da Uerj; e Hospital Universitário Antônio Pedro, da UFF. Até o momento, mais de 900 atendimentos já foram realizados, e a expectativa é alcançar a marca de mil ainda este ano.

Os resultados observados chamam atenção. Com uma intervenção muito rápida, como um vídeo relaxante de 10 a 15 minutos, foi possível observar que houve melhora de sentimentos nos pacientes. “A gente usou um questionário de Stein, que avalia diversas sensações humanas, tanto positivas quanto negativas, como estar calmo, feliz, triste, com raiva e preocupação. Perguntávamos, de 0 a 5, quanto esses pacientes se sentiam antes e depois de fazer a atividade com realidade virtual. Cerca de 80% relataram melhora em, pelo menos, três sentimentos. Houve um aumento médio em todos os sentimentos positivos e uma diminuição em todos os negativos avaliados”, explica João Hazin.

Mais do que atuar em prol da saúde pública, a ONG se posiciona como uma ferramenta de incentivo à cultura, ao permitir que pacientes tenham acesso a experiências culturais, viagens virtuais e espaços que, muitas vezes, não seriam possíveis nem fora do ambiente hospitalar.

Em um cenário em que o envelhecimento da população impõe novos desafios ao sistema de saúde, projetos como este mostram que tecnologia e cuidado não precisam caminhar em direções opostas. Pelo contrário: quando bem aplicados, podem se complementar, levando dignidade, afeto, conscientização e novos significados à experiência do tratamento.

Em dezembro de 2025, a Virtualidade entrou para o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa (Comdepi-Rio), órgão da Prefeitura do Rio que atua com funções deliberativas, normativas, orientadoras e fiscalizadoras das políticas voltadas para a proteção dos direitos das pessoas idosas. “Agora, a gente participa da elaboração e da votação de novas políticas em defesa dos direitos dos idosos do Rio”, ressalta João Hizon.