Entre samba, cuidado e luta antimanicomial, o cortejo transforma o centro de Niterói em um espaço de pertencimento e visibilidade para a saúde mental
por Ana Julia Silveira
Quando o batuque esquenta e o estandarte do Loucos Pela Vida ganha a rua, o centro de Niterói deixa de ser apenas um corredor de passagem. Entre confetes e tamborins, o que se vê é um ato de ocupação. Ali, a festa é ferramenta de cuidado e alegria, um manifesto político.
Há mais de duas décadas, o bloco desfila na terça-feira que antecede o carnaval. Na avenida, o samba divide espaço com as histórias de resistência de usuários, familiares e profissionais da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). O que nasceu em Jurujuba e se consolidou no Centro de Convivência e Cultura de Niterói hoje é gigante: o bloco já passou pelo Sesc, pela UFF e por praças públicas, sempre em defesa do direito à cidade e ao cuidado em liberdade.
Para Dulce da Costa Antunes, o bloco é uma questão de insistência. Mãe de Gilberto Antunes, usuário da RAPS, ela acompanha o Loucos Pela Vida desde o início e viu a evolução de um movimento que começou modesto, articulado pela prefeitura, e ganhou autonomia. “A gente vem lutando para que ele cresça. Hoje já estamos recebendo muitos convites para nos apresentar”, conta, orgulhosa do espaço conquistado passo a passo.
Para quem participa da RAPS, o carnaval é o momento de deixar o julgamento na calçada. Dulce nota a transformação no corpo de quem desfila, o modo de andar e sorrir muda quando a rua vira lugar de pertencimento: “Eles se soltam, se divertem. É o dia em que estão em sintonia com a felicidade, e o público em volta acaba participando junto dessa festa maravilhosa”.
Mas a rua também é trincheira. Enquanto celebra os avanços, o bloco escancara o que ainda falta. “Ali o usuário se mostra, mas também é onde reivindicamos melhorias na rede de saúde mental, que ainda é precária e tem poucos espaços abertos para as famílias”, explica Dulce, lembrando que o desfile só acontece pelo esforço de profissionais que, mesmo sob condições difíceis, sustentam o cuidado com afeto.
O Loucos Pela Vida não aparece apenas em fevereiro. O ano é preenchido por oficinas no Centro de Convivência que vão muito além da preparação carnavalesca. Tem fotografia, adereços, batuque, teatro, capoeira e até horta coletiva. São atividades que devolvem a voz a quem, por muito tempo, viveu de cabeça baixa. É o caso de Ana Paula Ramos, usuária da RAPS. Antes retraída, hoje ela transita pelos espaços com uma naturalidade que nem ela mesma imaginava: “Antes eu era antissocial, andava de cabeça baixa e quase não falava com ninguém. Depois que entrei aqui, agora eu falo o dia todo se deixar”.
“O CAPS não é meme”
Neste ano, o enredo leva um incômodo para a avenida: “O CAPS não é meme: por que minha invisibilidade te incomoda?”. O samba-enredo, escolhido por concurso, foi composto por Jaguacyara Menezes, mãe de uma usuária da rede. A letra nasceu de um lugar de confissão e desabafo.
“Foi a primeira vez que escrevi algo assim. Escrevi numa linguagem que as mães atípicas entendem. Mas espero que todas as pessoas entendam que a maternidade atípica não é fácil e tenham menos julgamentos, porque ainda vivemos numa sociedade com muito preconceito.”, explica.
Mais do que uma agremiação carnavalesca, o Loucos Pela Vida é um lembrete de que ninguém deve ser invisível. Como resume Dulce, o sonho é o reconhecimento do óbvio: “Nós existimos. Temos direito de ocupar a cidade, de viver e de ter nossos direitos reconhecidos por lei”. No final das contas, o samba é apenas o ritmo de uma luta que não para quando a quarta-feira de cinzas chega.
Fico muito feliz e agradecida por fazer parte do bloco loucos pela vida