Cria de projeto social na Mangueira, Ingrid Silva se tornou a Primeira Bailarina do Dance Theatre of Harlem, nos Estados Unidos


por Juliana Prestes

A história de Ingrid Silva é, ao mesmo tempo, a trajetória de uma grande artista brasileira e um manifesto vivo contra o racismo estrutural no balé clássico. Nascida e criada no Rio de Janeiro, a bailarina encontrou na dança um caminho de transformação pessoal — e, mais tarde, um instrumento de ativismo capaz de provocar mudanças profundas em uma das linguagens artísticas mais tradicionais e excludentes do mundo.

O Dance Theatre of Harlem (DTH), companhia fundada nos Estados Unidos com o propósito de ampliar a presença negra no balé, tornou-se um porto seguro para talentos brasileiros. Além de nomes como Simone Guedes, foi ali que brilhou Bethânia Gomes, filha da historiadora e ativista Beatriz Nascimento, que entrou para a história como a primeira negra brasileira a alcançar o posto de Primeira Bailarina em uma grande companhia internacional. Em uma de suas vindas ao Brasil, Bethânia conheceu a jovem carioca Ingrid Silva — encontro decisivo que ajudaria a redefinir os rumos da dança clássica no país.

Oriunda do projeto social Dançando para não Dançar, na Mangueira, Ingrid cresceu em um ambiente onde o balé ainda parecia um sonho distante. Aos 17 anos, enquanto estudava na tradicional Escola de Dança Maria Olenewa, chegou a estagiar no Grupo Corpo e na Cia. Deborah Colker, experiências que ampliaram sua formação artística. Ainda assim, o balé clássico seguia como um território de difícil acesso para uma bailarina negra no Brasil.

Com o incentivo de professores e de Bethânia Gomes — que já antevia a escassez de oportunidades consistentes em companhias nacionais —, Ingrid decidiu fazer audição para o Dance Theatre of Harlem. Aprovada, mudou-se para os Estados Unidos e, desde então, nunca mais deixou a companhia. A trajetória ascendente culminou, anos depois, em um feito histórico: Ingrid se tornou Primeira Bailarina do DTH, consolidando-se como um dos nomes mais relevantes do balé contemporâneo.

Hoje, aos 37 anos, Ingrid é muito mais do que uma estrela dos palcos: ela se tornou um símbolo global de representatividade e resistência. Sua presença ultrapassa os teatros e alcança espaços de grande relevância internacional. Recentemente, a bailarina se apresentou em Davos, na Suíça, durante o Concerto de Abertura da Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial, a convite do músico Jon Batiste. Nas redes sociais, Ingrid celebrou o momento: “Que honra ser convidada por @jonbatiste para me apresentar no Concerto de Abertura da Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial (@worldeconomicforum) em Davos, Suíça. Hallelujah é uma música tão poderosa, e estar naquele palco hoje, compartilhando-a com o mundo, foi uma verdadeira bênção. Sou grata pela música, pelo momento e pelo lembrete de que a arte pode nos conectar além de fronteiras, crenças e origens.”

Antes mesmo de grandes marcas passarem a fabricar sapatilhas em diferentes tons de pele, Ingrid já pintava manualmente as suas, adequando-as à própria cor. O gesto simples ganhou força política e visibilidade internacional, transformando-se em um marco do debate sobre diversidade no balé clássico.

Seu ativismo extrapolou os palcos e ganhou forma em palavras. Ingrid é cofundadora do projeto Brown Skin Ballerina, criado para dar voz, visibilidade e apoio a bailarinas negras ao redor do mundo. Sua trajetória também virou livro autobiográfico, ampliando o alcance de sua narrativa e inspirando novas gerações.

O reconhecimento institucional veio de maneira emblemática: suas sapatilhas passaram a integrar o acervo do National Museum of African American History and Culture, em Washington, como símbolo de luta, identidade e transformação cultural.

Entre piruetas e posicionamentos firmes, Ingrid Silva reescreve a história do balé clássico. Sua carreira prova que excelência artística e ativismo podem — e devem — caminhar juntos, abrindo espaço para que o palco reflita, finalmente, a diversidade do mundo que o assiste.