Conheça o projeto voluntário que desafia estatísticas, promove inclusão e devolve a autonomia urbana aos moradores do Rio por meio da bicicleta
Por Ana Julia Silveira
Diz o ditado popular que “aprender a andar de bicicleta é algo que a gente nunca esquece”, mas e quando a vida, os medos ou a falta de oportunidade fazem com que a gente sequer comece? Embora pareça uma atividade natural da infância para muitos, a realidade do nosso país conta uma história bem diferente. Segundo a pesquisa global “Ciclismo ao Redor do Mundo”, realizada pela Ipsos em 2022, cerca de quatro em cada dez brasileiros (42%) não sabem andar de bicicleta.
É para transformar essa estatística em histórias de liberdade que o Bike Anjo atua como uma rede nacional de ciclistas voluntários, enxergando na bicicleta uma ferramenta de transformação urbana e social. No Rio de Janeiro, esse movimento acontece por meio da EBA (Escola Bike Anjo). Quem observa de longe o movimento na Quinta da Boa Vista – núcleo que divide as atividades cariocas com o núcleo da Zona Sul – pode até pensar que ali se ensina apenas a equilibrar o corpo em duas rodas. Na verdade, o espaço funciona como um ambiente de incentivo à autonomia.
“A gente acaba, muitas vezes, tendo que se submeter ao transporte público, e isso diminui um pouco a nossa visão de possibilidade na vida”, reflete Danilo Barros, voluntário e coordenador do núcleo da Quinta da Boa Vista. Para ele, a escola é um portal de múltiplos desejos: “Tem quem queira aprender só para dar um passeio no parque no fim de semana, quem precise resolver a vida perto de casa e até quem chegue dizendo que o grande sonho é fazer uma cicloviagem para outro estado”.
Aprender a pedalar na idade adulta destrava uma nova percepção geográfica: trajetos antes considerados impossíveis ou exaustivos dentro de um ônibus passam a ganhar uma nova escala de proximidade. A bicicleta devolve às pessoas o direito de viver e sentir a cidade, em vez de apenas assisti-la passar pelo vidro de uma “caixa metálica” engarrafada no trânsito.
O impacto da Carta de Valores no acolhimento dos alunos
Essa engrenagem de cidadania é pautada por uma Carta de Valores construída coletivamente no projeto. Mas, no asfalto do Rio, esse documento não é uma diretriz rígida: trata-se de um organismo vivo, que se atualiza conforme os aprendizados e as surpresas do dia a dia. “A nossa carta vai se adaptando conforme as necessidades surgem”, explica Danilo. A horizontalidade, o respeito à diversidade e a empatia guiam cada minuto de instrução.
“Já tivemos situações com alunos neurodivergentes em que o toque físico causou estranhamento e estresse. A partir dessas experiências do dia a dia, a gente passa a adotar discursos que provoquem as pessoas a relatarem essas questões físicas ou neurológicas previamente. Entendemos que quem chega ali traz traumas e vivências antigas que precisam ser respeitadas. Por isso, hoje sempre vocalizamos e pedimos permissão expressa antes de tocar no corpo de qualquer aluno para dar o apoio do equilíbrio”.
Essa escuta atenta se reflete diretamente também em quem mais procura o projeto. Um dos dados mais fascinantes do Bike Anjo Rio está no perfil de quem decide dar as pedaladas iniciais: cerca de 80% das pessoas que buscam a escola são mulheres, majoritariamente na faixa dos 35 aos 54 anos.
Muitas dessas mulheres trazem consigo o peso de um histórico social que, na infância, priorizou os meninos na exploração das ruas, enquanto a elas eram atribuídas as tarefas de casa. Chegar à escola depois dos 30, 40 ou 50 anos é um ato de coragem e uma retomada de território. Vencer o medo do julgamento e a barreira da idade é o primeiro grande passo para a liberdade.
A importância da economia colaborativa
Manter uma iniciativa desse tamanho não é tarefa simples. O Bike Anjo Rio não possui patrocínio de empresas nem subsídio governamental e se sustenta de forma independente por meio da economia colaborativa.
Atualmente, o núcleo da Quinta da Boa Vista conta com 15 voluntários cadastrados, dos quais cerca de seis formam a linha de frente mais assídua. Há bicicletas e materiais suficientes para atender muito mais gente, mas a grande dificuldade atual é a falta de braços: o projeto precisa de mais voluntários dispostos a doar seu tempo.
Para custear a manutenção das bicicletas e garantir o lanche dos voluntários nos fins de semana, o projeto conta com contribuições financeiras voluntárias dos próprios alunos e ex-alunos. Trata-se de uma corrente de gratidão: a doação de quem aprendeu ontem viabiliza a bicicleta de quem vai aprender amanhã.
Como resume Danilo: “No fim das contas, eu acho uma grande diversão, mas é uma diversão com responsabilidade.”
Se você tem mais de 16 anos e tem o desejo de aprender a pedalar, o Bike Anjo está pronto para te acolher, sem pressa e com toda a segurança. E se você já domina as duas rodas e quer fazer a diferença na sua cidade, o projeto também te espera para ser o Anjo de alguém.
Quer apoiar ou participar? Acompanhe o projeto no Instagram pelo perfil @bikeanjo.rio e saiba como se voluntariar ou agendar a sua primeira aula!


