A amarração que entrelaça histórias
Projeto carioca mostra que usar turbante é também um ato de autoestima, ancestralidade e conexão entre mulheres
por Ana Julia Silveira
Há encontros que mudam destinos. Às vezes, é em um gesto simples — como uma mulher ensinando outra a amarrar um pano na cabeça — que nasce algo muito maior. Foi assim que Priscila Teodoro descobriu, em 2018, que o turbante podia ser mais do que um acessório: podia ser um laço entre mulheres, histórias e tempos.
“Comecei vendendo turbantes, só vendas mesmo. Mas as clientes sempre me pediam ajuda nas amarrações. Colocava elas sentadas, dava um espelhinho, ensinava como deveria ser feito e depois deixava tentarem sozinhas”, lembra a moradora do Morro do Urubu, em Pilares, Zona Norte do Rio: “Aos poucos, aquilo deixou de ser só sobre vender. Era um momento de troca, de autoestima, de afeto”.
Uma das clientes trabalhava no Instituto Nacional do Câncer (Inca) e foi a primeira a perceber que o trabalho de Priscila ia além das amarrações. Foi ela quem a convidou para participar da campanha do Outubro Rosa, ensinando as pacientes em tratamento oncológico a amarrar seus turbantes:
“Fui lá para ensinar, mas saí transformada. Vi o quanto aquele gesto podia levantar a cabeça de uma mulher, no sentido mais profundo mesmo”.
A cliente acabou se mudando para outro estado, mas deixou uma semente. E, como quem está em movimento atrai novos caminhos, outra mulher logo cruzou o de Priscila: desta vez uma professora.
“Ela me perguntou se eu toparia ir à escola dela, no Novembro Negro, para ensinar as amarrações aos alunos de uma turma do ensino médio. Fui e, a partir dali, o que era apenas venda virou, também, uma oficina”, orgulha-se a afroempreendedora, dizendo que aquela vivência despertou uma nova curiosidade: “Não queria somente ensinar a amarrar, queria ensinar o que o turbante significa. Então comecei a estudar a história da África e a cultura afro-brasileira. Descobri coisas lindas, aprendi que o turbante é uma linguagem. Em algumas regiões ele representa paz, em outras indica se uma mulher é casada ou não. Vai muito além da moda”.
Filha de axé, Priscila aprendeu as primeiras amarrações no terreiro. Entre ojás e cantos, compreendeu o significado espiritual do pano: símbolo de fé, identidade e respeito. Foi nesse território que o Turbante-se de Ancestralidade começou a tomar forma — primeiro como gesto, depois como propósito. Em 2024, o projeto se tornou oficial com o edital Ações Locais, da Prefeitura do Rio. Para participar, Priscila precisou formar um coletivo. Assim nasceu o Pirâmide Ancestral, junto de duas amigas afroempreendedoras.
“Quando comecei a descrever o projeto, percebi que ele já não era só meu. Era sobre o coletivo, sobre como uma mulher chama a outra e as coisas vão crescendo”, conta.
Com apoio do edital, o Turbante-se de Ancestralidade ganhou fôlego: passou a percorrer escolas, comunidades, grupos LGBTQIA+ e espaços de acolhimento, espalhando consciência e ancestralidade. Hoje, o projeto segue itinerante, e Priscila entende que seu trabalho ultrapassa o gesto manual de amarrar o pano:
“Minha mãe de santo me disse que essa é uma das minhas missões de vida, levar esse conhecimento além dos terreiros. E sinto isso mesmo: é um chamado. Meu sonho é impactar mais gente… mulheres, jovens, idosos, pessoas LGBTQIA+. Que elas também possam transformar isso em renda, fazer seus turbantes e levar essa história adiante”.