Coletora de lixo encontra livro de Direito e, à base de muita luta, estuda até se formar advogada: ‘Meus filhos podem sonhar’
por Ana Julia Silveira
Algumas histórias não começam com oportunidades, mas sim com resistência. A de Lindiane Godoi é assim. Ao longo de três décadas, atravessou pobreza, violência, jornadas exaustivas de trabalho e uma sucessão de rupturas. Mas, enquanto a vida parecia lhe negar espaço para crescer, insistiu em criar seu próprio caminho até passar na prova da Ordem dos Advogados do Brasil. Hoje, o diploma é muito mais que um papel pendurado na parede, é símbolo de uma luta marcada por superações.
Lindiane sempre soube que a vida exigiria mais dela. Filha de uma família humilde, criada entre quatro irmãs e dois irmãos, cresceu em um ambiente onde não havia lugar para distrações. A infância em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, foi marcada por regras rígidas e por uma lógica simples, dura:
“Era preciso sobreviver, a gente foi sempre educado para isso. Não tinha espaço para sonhar”.
A vida ficou ainda mais difícil aos 14 anos, quando o pai foi assassinado. O episódio mudou a rotina da família e colocou a mãe, empregada doméstica, diante da missão de criar sozinha sete filhos. Lindiane, no entanto, mantinha a fé:
“Era tudo muito difícil, mas sempre acreditei que, independentemente de onde a gente veio, existe a chance de mudar a nossa realidade”.
Com a morte do pai, Lindiane precisou começar a trabalhar. Foram anos assumindo qualquer função que garantisse o básico. Aos 17, enfrentou uma ruptura dolorosa: foi expulsa de casa. Ela explica que não se encaixava mais na dinâmica familiar. As rotinas, as regras e os conflitos constantes acabaram tornando a convivência insustentável.
“Um dia simplesmente me disseram que não tinha mais espaço para mim. Fui para o mundo e não olhei para trás”, relata.
Pouco depois, veio a gravidez do primeiro filho, Leonardo. Sem ter onde morar, foi acolhida pela família paterna do menino, que abriu as portas e deu a ela um mínimo de estabilidade.
“Vivia cheia de medo, mas também começava a sentir outra coisa, uma vontade nova de mudar de vida”, conta ela, que teve na maternidade seu primeiro movimento interno de transformação: “Quando o Leo nasceu, entendi que queria dar a ele o que eu não tive. Acho que foi ali que a chavezinha começou a virar”.
Mudança de direção
Os contornos de estabilidade começaram a surgir aos 24 anos, quando Lindiane passou no processo seletivo da Codeca, empresa de Caxias do Sul. Entrou como roçadora, função responsável pela limpeza e manutenção das áreas verdes do município. O trabalho era pesado, mas o salário era melhor do que tudo o que ela já tinha recebido. Nessa época, ainda morava com a família paterna do filho e começou, pela primeira vez, a se manter com o próprio dinheiro.
“Conseguia pagar minhas coisas, ajudar dentro de casa e cuidar do Leo. Mas ainda faltava algo que me permitisse estudar”, ressalta Lindiane, contando que, quando surgiu o concurso interno para coletora de lixo, decidiu tentar. Passou: “Fiz por causa do salário. Aqui o custo de vida é alto, e precisava garantir o básico para mim e para o Leo”.
Foi no caminhão que uma mudança inesperada começou a acontecer. Durante o processo seletivo de resíduos, Lindiane pegava livros que encontrava no lixo reciclável. Um dia, achou um “Vade Mecum”, que reúne leis, códigos, estatutos e normas mais importantes de diversas áreas do Direito. Nunca tinha folheado um. Guardou. Leu. E algo mudou:
“Foi dali que veio o interesse pelo Direito. Nunca tinha pensado na área, mas aquele livro ficou me chamando…”.
Sem dinheiro para pagar um supletivo, entrou no EJA, programa de ensino para jovens e adultos da rede pública. A rotina era exaustiva.
“Mas eu tentava não olhar para o quanto era pesado. Se olhasse, travaria”, lembra.
Contra todas as expectativas, inclusive as suas, Lindiane fez o Enem. E entrou no curso de Direito da Universidade de Caxias do Sul (UCS), aos 36 anos. A alegria inicial logo deu lugar a um estranhamento. Nas primeiras semanas, sentia que não pertencia àquele lugar.
“Era como se existisse espaço de rico e espaço de pobre. Achava que aquele ambiente não era meu”, conta.
Mesmo assim, seguiu. Encontrou acolhimento entre professores e colegas, mas convivia com uma série de dificuldades: o cansaço acumulado do trabalho, a falta de tempo, a insegurança com tecnologia.
“Ficava apavorada para mexer no Drive. Hoje acho simples, mas naquela época vivia entre dois mundos”, diz.
A vida acadêmica seguiu enquanto ela administrava a maternidade solo de dois filhos. Nesse período, Lindiane enfrentou, também, uma das faces mais duras da violência para uma mulher:
“Passei por violência psicológica, doméstica… até medida protetiva eu precisei”.
Foram momentos em que a vida quase a fez parar. Um episódio em particular ilustra o quão exaustiva era a luta diária.
“Em uma terça-feira, ele invadiu minha casa, quebrou tudo, me agrediu. No outro dia, eu tinha prova. Tirei nota baixa e me senti culpada”, revela Lindiane que, mesmo com o trauma, não desistiu dos estudos: “Pensava que aquela era a porta para eu conseguir me libertar. E segui transformando o estudo em ferramenta de sobrevivência, autonomia”.
Inspiração para os colegas
Já formada em Direito, decidiu voltar à antiga empresa para tirar fotos de formatura com um caminhão de lixo e os colegas que acompanharam sua luta, torcendo por ela. As imagens foram publicadas nas redes da empresa e viralizaram. Com a repercussão, veio também o julgamento. Muitos comentários desmereciam a conquista. A enxurrada de críticas foi dura:
“Falavam que bacharel não é advogado, que advogado faz Uber, que eu não ia ganhar dinheiro. Muita coisa negativa. Machuca”.
Mas a repercussão trouxe algo maior. Colegas da Codeca que acompanharam sua história se inspiraram e voltaram a estudar.
“É tão lindo ver gente da coleta fazendo faculdade, buscando outra vida. Quando vejo isso, penso que valeu a pena”, conta, emocionada.
Hoje, Lindiane trabalha como agente de endemias na prefeitura e acaba de ser aprovada na OAB. Estuda, planeja e segue firme em cada pequena conquista. Ao olhar para trás, enxerga uma história feita de rupturas, mas também de escolhas e de uma obstinação silenciosa. Nada, porém, a emociona mais do que olhar para os filhos: Leonardo, agora com 20 anos, cursa Direito; Laura, de 10, cresce com oportunidades que Lindiane nunca teve.
“Entendia que precisava e queria muito buscar algo que transformasse minha vida e a dos meus filhos. Ver o Leo entrando na faculdade é algo que não consigo descrever. Meus filhos podem sonhar. Para mim, é isso que importa”, orgulha-se.