Filme estrelado por moradores de favela do Rio mostra as dores e as esperanças de quem é tratado como coadjuvante na vida real
’É o Complexo’ abre trilogia inspirada em músicas de Chico Buarque
por Marco Antonio Rocha
As ruas da Favela do Engenho da Rainha, território violento da Zona Norte do Rio, são cenário do filme “É o Complexo”. Estrelada por atores da comunidade, a obra retrata as dores e as esperanças de quem é tratado como coadjuvante na vida real. Na trama, os estudantes de cinema Gabry e Mel fazem um documentário com traficantes locais. De classe média, a jovem se deslumbra com aquele universo de armas, bailes funk, códigos próprios de conduta e assistencialismo aos moradores. Mas a ilusão é inevitavelmente desfeita pela violência que não deixa vitoriosos nesta guerra.
“Conheci essa história ao assistir na internet a websérie dirigida pelo Gabriel Machado, que tem o mesmo nome do filme. Fiquei muito bem impressionado com os talentos que vi ali, apesar dos pouquíssimos recursos tinham. Achei que poderia contribuir e entrei em contato com os produtores”, conta Vinícius Coimbra, que divide a direção do filme com Machado: “Rodamos as cenas novamente, com equipamentos mais modernos e minha experiência, mantendo os atores e seus personagens. Minha intenção era fazer um filme com eles e para eles”.
“É o Complexo” abre uma trilogia concebida por Coimbra, inspirada em músicas de Chico Buarque – neste caso, é “Meu Guri” que serve de fio-condutor da história. A experiência de gravar por três semanas na Favela do Engenho da Rainha foi transformadora para o diretor: “As cenas foram criadas por eles, porque essa realidade não é a minha. Eles são muito talentosos, todos os diálogos foram improvisados a partir das suas próprias vivências. É uma realidade que precisa ser iluminada e debatida. As classes privilegiadas viram as costas para questões que acabam retornando para elas próprias”.
Um dos atores da obra, Da Champion, de 28 anos, ressalta que “É o Complexo” é diferente de outras produções sobre favela.
“Esse filme mostra nossa realidade, sem filtros e estereótipos. Meu sonho desde moleque é ser ator. Até já tinha gravado algumas coisas por conta própria, mas nada que chegasse nem perto disso. É uma emoção enorme ver que chegamos aqui, juntos”, diz ele, que tenta a vida como cantor de rap, trap e funk: “A grande mensagem que ‘É o Complexo’ passa é que o crime não vale a pena, porque a morte é uma certeza. A favela não tem nem mesmo o básico, mas isso não é capaz de fazer a gente parar de sonhar”.
E é no corre como motoboy que Índio, de 26, tenta ultrapassar as dificuldades para seguir a carreira de ator. Pai de um menino, estudou apenas até a terceira série:
“As oportunidades são raras na favela, mas esse filme chegou como uma grande chance. Espero voltar a estudar, por mais que eu saiba que é difícil. Já até procurei um curso de teatro, mas é muito caro”.
Para Jayzz, um dos idealizadores do projeto, o maior ganho que “É o Complexo” traz para a comunidade é apontar as saídas que, muitas vezes, ficam escondidas no dia a dia.
“A história busca conscientizar os moradores periféricos de todo o Brasil, pessoas que não têm condições de estudar, que enfrentam dificuldades imensas na hora de procurar trabalho. Claro que a vida de quem vive na favela é cheia de obstáculos, mas é possível vencer”, avisa Jayzz, que empresaria oito cantores do Alemão.
O filme está disponível no site https://vimeo.com/1101008432, com a senha EOC0207
Vinícius Coimbra