História da Biblioteca Comunitária Wagner Vinício é como um livro que o mundo precisa conhecer
Espaço em Rio das Pedras abriga crianças e jovens para que encontrem na leitura um lugar de pertencimento, afeto e transformação social
por Bárbara Faria
A história da Biblioteca Wagner Vinício, em Rio das Pedras, é desde o início escrita a muitas mãos. Antes de ser o que é hoje, existia o Projeto Plantando o Futuro, uma iniciativa financiada pelo Instituto C&A, que a partir de 1999 promovia diversas atividades culturais e educativas para jovens e adultos. Anos depois, entre 2004 e 2005, o programa Prazer em Ler foi lançado pela instituição com a proposta de transformar o projeto em uma biblioteca comunitária. Em 2006, a comunidade, que sempre foi a principal construtora do acervo, reuniu-se para escolher o nome daquele espaço.
O mais votado foi o de Wagner Vinício, um jovem morador local que, com um carrinho de mão abarrotado de livros, havia sido o primeiro a enxergar ali a possibilidade de um futuro diferente. Wagner faleceu em decorrência de um acidente de trânsito, mas seu legado foi eternizado com um lindo propósito.
Hoje, quem mantém o espaço vivo são duas mulheres persistentes: Juliana Moreira e Simone Araújo. Juntas, elas fazem toda a gestão e são as responsáveis pelas articulações externas, contando com a ajuda de parceiros, colaboradores e voluntários, que contribuem mensalmente para garantir a sobrevivência desse grande sonho. Desta forma, vão ampliando e renovando o catálogo por meio de doações literárias que priorizam obras sobre diversidade, ancestralidade, questões raciais, identidade, direitos humanos, autores negros, indígenas e periféricos.
Quando um livro muda uma vida
A Biblioteca Comunitária Wagner Vinício tem transformado o cotidiano das crianças e jovens de Rio das Pedras desde sua criação. Por meio das rodas de leitura, mediações, oficinas e atividades lúdicas, desperta o desejo de aprender e de sonhar, um lugar onde os livros passam a ser uma ponte para a liberdade.
“Sou um exemplo marcante disso. Cheguei aqui como uma criança curiosa, cresci entre estantes, páginas e afetos. Hoje, sou graduanda em Pedagogia pela Uerj e cuido do lugar que me viu florescer. A biblioteca me ensinou a ler o mundo e a acreditar que, mesmo morando em uma comunidade, era possível voar alto, sem esquecer minhas origens”, orgulha-se Juliana, que vê sua história se repetir em muitas outras trajetórias de crianças e adolescentes que encontraram na leitura um caminho e chegaram a lugares inimagináveis.
A biblioteca que acolhe, cura e liberta
Mais que um espaço de leitura, a biblioteca é afeto organizado em estantes. Durante a pandemia, quando o isolamento social privou todos do cotidiano escolar e de outras atividades que faziam parte do dia a dia, o local mais uma vez foi abrigo. Por meio de um projeto aprovado em edital da Fiocruz, mais de 40 crianças de Rio das Pedras receberam reforço escolar e acolhimento. Essa iniciativa foi importante para a autoestima dos pequenos e para a retomada do prazer em aprender, unindo o pedagógico ao literário.
“Além disso, a biblioteca proporciona outras ações em prol da formação cultural e social das crianças e dos adolescentes. Visitas a museus e a centros culturais se tornam experiências inesquecíveis para muitos deles. Assim como a entrega de kits escolares, presentes simbólicos e a realização de festas e celebrações coletivas se tornam lembranças preciosas”, conta Simone.
Os desafios enfrentados, porém, são muitos: falta de financiamento contínuo, escassez de voluntários, dificuldades sociais das famílias e a violência da região. Ainda assim, a Biblioteca Comunitária Wagner Vinício resiste. O desejo de todos é simples: que ela continue existindo, cumprindo o papel essencial de formar leitores e cidadãos.
Quem é de fora da comunidade também pode fazer parte dessa corrente de esperança ao contribuir mensalmente com a campanha “Amigos da Biblioteca”, iniciativa criada por Simone Araújo, que busca arrecadar recursos por meio de contribuições mensais de R$ 20. Esse apoio tem sido fundamental para suprir necessidades básicas, como compra de materiais de limpeza, pequenos lanches e manutenção do espaço.
Voluntariar-se em oficinas e atividades, doar livros de qualidade e divulgar a biblioteca também são ações importantes. Toda a colaboração é uma forma de fortalecer a democratização do acesso ao livro.