Fundadora da Dellarte, empresária reúne em livro episódios que marcaram mais de quatro décadas dedicadas à música e às artes no país
por Vanessa Pessoa
É impossível falar de produção cultural no Brasil sem citar Myrian Dauelsberg. Empresária, fundou em 1982 a Dellarte, que se tornou uma das principais instituições dedicadas à difusão da música clássica e do balé no país. Ao longo dessa trajetória, passou a viajar com frequência ao exterior, estabelecendo contatos com produtores e artistas, em um cenário que sempre exigiu persistência para viabilizar projetos culturais no país.
A ideia de transformar sua história em livro surgiu em 1991, após a insistência de amigos durante um jantar em Paris, no restaurante Chez Denise. Na ocasião, Myrian estava com o marido, Peter Dauelsberg, e com o ex-aluno e amigo Mauro Maddalena:
“Havia acabado de contar minhas últimas aventuras com Luciano Pavarotti, quando Mauro sugeriu que registrasse a ‘epopeia’ que precedera a vinda do tenor ao Brasil”.
O incentivo foi reforçado ao longo dos anos por amigos próximos, como o pianista português Adriano Jordão, parceiro em diversas produções internacionais. Entre os episódios lembrados no livro “Atrás do Palco – Bastidores por Myrian Dauelsberg” (Rebento Editora) está um dos primeiros grandes desafios internacionais enfrentados por ela na Sala Cecília Meireles, na Lapa, Rio de Janeiro, com a apresentação do grupo inglês Deller Consort.
“Não tinha verba alguma, dispunha de apenas 240 mil moedas da época para toda a temporada. Decidi investir tudo na primeira semana, acreditando que um grande impacto inicial abriria portas para o futuro. E deu certo: o concerto foi um sucesso tremendo. Com a sala lotada, consegui convencer patrocinadores a apoiar a temporada e pude organizar os eventos seguintes com mais segurança. Foi um momento de alívio e de confirmação de que, mesmo sem recursos, a paixão e a convicção são capazes de transformar a cena cultural”, ressalta.
A obra também reúne histórias curiosas dos bastidores, como a passagem de Luciano Pavarotti pelo Rio, antes de seguir para o Chile em um avião fretado pela Dellarte:
“Ainda no aeroporto, ele percebeu que havia esquecido um legítimo queijo Parmigiano Reggiano, que trazia consigo em uma sacola de plástico. Desesperou-se, e logo todos estávamos mobilizados para resolver o impasse. A secretária desvendou o mistério: a sacola havia ficado em uma das cadeiras da sala de embarque. Recuperamos o queijo e, só então, o tenor seguiu tranquilo para o Chile. Situações assim me ensinaram que, nos bastidores, a arte não está só no palco, ela também vive no improviso”.
Ao longo de mais de 40 anos de atividades ininterruptas, a Dellarte realizou 580 concertos no Brasil e desenvolveu projetos voltados à formação de plateias para a música clássica. Aos 90 anos, completados em 2025, Myrian reuniu essas experiências em pequenos relatos que transitam entre desafios, conquistas e encontros com grandes nomes da música do século XX:
“Que este livro encontre outras plateias que possam se inspirar em alguém que dificilmente aceitava o ‘não’ como resposta”.