Biblioteca comunitária criada por morador da Zona Norte do Rio cresce, multiplica-se e vira referência de cultura, educação e pertencimento


por Lais Silveira

Em Anchieta, bairro da Zona Norte do Rio, uma construção pintada de amarelo se tornou ponto de encontro, acolhimento e transformação. Mais do que um espaço físico, A Casa Amarela é hoje uma rede de cuidado coletivo que promove acesso à leitura, à cultura e à educação, construída a partir do envolvimento direto da comunidade.

A iniciativa nasceu em 2022, criada por Pedro Gerolimich, conhecido como Pedro do Livro. O apelido não é por acaso: o professor carrega o livro no apelido, nas mãos e na trajetória. Foi de seu desejo de aproximar a leitura da vida cotidiana que surgiu a ideia de reunir amigos e moradores de Anchieta e bairros próximos para criar uma biblioteca comunitária que fosse viva e aberta a todos.

Desde o início, o projeto foi pensado como algo maior do que estantes e acervos. A proposta sempre foi criar um espaço de acolhimento, escuta e pertencimento, onde crianças, jovens, adultos e idosos se sentissem vistos, respeitados e estimulados a sonhar.

“O trabalho da Casa Amarela busca promover, acima de tudo, acesso. Acesso à leitura, à educação de qualidade, à cultura e a um atendimento humano, respeitoso. A biblioteca vai muito além dos livros, é um espaço de acolhimento, de pertencimento e de construção de novas possibilidades”, explica Samara Ferreira, coordenadora do projeto.

Com sede inicial na Praça Nazaré, em Anchieta, A Casa Amarela cresceu e deu frutos: a biblioteca comunitária está presente em mais três locais – na Praça Granito, também em Anchieta; no bairro Mariópolis; e em Ricardo de Albuquerque. Este ano, um novo passo foi dado com a inauguração da cozinha comunitária da Casa Amarela, também em Anchieta, em parceria com o programa Prato Feito Carioca, ampliando o alcance social da iniciativa.

A atuação do projeto se organiza a partir de três eixos principais: educacional, social e cultural, sempre considerando as necessidades reais da população local. Oficinas, atividades educativas, ações culturais e esportivas fazem parte da rotina, reforçando a ideia de que a biblioteca é um equipamento completo e acessível a todos.

“A Casa Amarela é uma referência no território. As pessoas nos procuram, falam sobre o projeto. Anchieta passou a aparecer na mídia de forma positiva, não apenas associada à violência, mas também como um lugar onde existe uma biblioteca comunitária que trabalha para transformar realidades”, orgulha-se Samara.

Relação de confiança e pertencimento

Histórias de impacto surgem diariamente na Casa Amarela, mas algumas se tornam símbolos do que o projeto representa. Uma delas envolve uma mãe analfabeta que, por não conseguir ler, sempre pedia ajuda para escolher livros para o filho. Esse menino, hoje adulto, enquadra-se no espectro autista e, por muito tempo, teve grande dificuldade de sair de casa:

“Aos poucos, fomos construindo uma relação de confiança e pertencimento. Trabalhamos juntos a autonomia dessa família, respeitando todas as limitações. Agora esse rapaz participa da nossa turma de karatê, e a mãe também passou a frequentar as atividades”.

O futuro da Casa Amarela é de crescimento e cuidado. Os próximos passos envolvem fortalecer os espaços já existentes, ampliar a programação cultural e educativa, além de investir em ações voltadas ao lazer, à saúde física e à saúde mental da comunidade. Para Pedro, que transformou o livro em caminho e o caminho em encontro, o sentido do projeto está nas pessoas que frequentam a local:

“A Casa Amarela nasceu do amor pelo nosso território e da certeza de que a educação e a cultura podem transformar vidas. Cada criança, jovem ou adulto que passa por aqui me lembra diariamente que esse trabalho faz sentido”.