Como o Bike Anjo transforma vidas sobre duas rodas
Conheça o projeto voluntário que desafia estatísticas, promove inclusão e devolve a autonomia urbana aos moradores do Rio por meio da bicicleta
Por Ana Julia Silveira
Diz o ditado popular que “aprender a andar de bicicleta é algo que a gente nunca esquece”, mas e quando a vida, os medos ou a falta de oportunidade fazem com que a gente sequer comece? Embora pareça uma atividade natural da infância para muitos, a realidade do nosso país conta uma história bem diferente. Segundo a pesquisa global “Ciclismo ao Redor do Mundo”, realizada pela Ipsos em 2022, cerca de quatro em cada dez brasileiros (42%) não sabem andar de bicicleta.
É para transformar essa estatística em histórias de liberdade que o Bike Anjo atua como uma rede nacional de ciclistas voluntários, enxergando na bicicleta uma ferramenta de transformação urbana e social. No Rio de Janeiro, esse movimento acontece por meio da EBA (Escola Bike Anjo). Quem observa de longe o movimento na Quinta da Boa Vista – núcleo que divide as atividades cariocas com o núcleo da Zona Sul – pode até pensar que ali se ensina apenas a equilibrar o corpo em duas rodas. Na verdade, o espaço funciona como um ambiente de incentivo à autonomia.
“A gente acaba, muitas vezes, tendo que se submeter ao transporte público, e isso diminui um pouco a nossa visão de possibilidade na vida”, reflete Danilo Barros, voluntário e coordenador do núcleo da Quinta da Boa Vista. Para ele, a escola é um portal de múltiplos desejos: “Tem quem queira aprender só para dar um passeio no parque no fim de semana, quem precise resolver a vida perto de casa e até quem chegue dizendo que o grande sonho é fazer uma cicloviagem para outro estado”.
Aprender a pedalar na idade adulta destrava uma nova percepção geográfica: trajetos antes considerados impossíveis ou exaustivos dentro de um ônibus passam a ganhar uma nova escala de proximidade. A bicicleta devolve às pessoas o direito de viver e sentir a cidade, em vez de apenas assisti-la passar pelo vidro de uma “caixa metálica” engarrafada no trânsito.
O impacto da Carta de Valores no acolhimento dos alunos
Essa engrenagem de cidadania é pautada por uma Carta de Valores construída coletivamente no projeto. Mas, no asfalto do Rio, esse documento não é uma diretriz rígida: trata-se de um organismo vivo, que se atualiza conforme os aprendizados e as surpresas do dia a dia. “A nossa carta vai se adaptando conforme as necessidades surgem”, explica Danilo. A horizontalidade, o respeito à diversidade e a empatia guiam cada minuto de instrução.
“Já tivemos situações com alunos neurodivergentes em que o toque físico causou estranhamento e estresse. A partir dessas experiências do dia a dia, a gente passa a adotar discursos que provoquem as pessoas a relatarem essas questões físicas ou neurológicas previamente. Entendemos que quem chega ali traz traumas e vivências antigas que precisam ser respeitadas. Por isso, hoje sempre vocalizamos e pedimos permissão expressa antes de tocar no corpo de qualquer aluno para dar o apoio do equilíbrio”.
Essa escuta atenta se reflete diretamente também em quem mais procura o projeto. Um dos dados mais fascinantes do Bike Anjo Rio está no perfil de quem decide dar as pedaladas iniciais: cerca de 80% das pessoas que buscam a escola são mulheres, majoritariamente na faixa dos 35 aos 54 anos.
Muitas dessas mulheres trazem consigo o peso de um histórico social que, na infância, priorizou os meninos na exploração das ruas, enquanto a elas eram atribuídas as tarefas de casa. Chegar à escola depois dos 30, 40 ou 50 anos é um ato de coragem e uma retomada de território. Vencer o medo do julgamento e a barreira da idade é o primeiro grande passo para a liberdade.
A importância da economia colaborativa
Manter uma iniciativa desse tamanho não é tarefa simples. O Bike Anjo Rio não possui patrocínio de empresas nem subsídio governamental e se sustenta de forma independente por meio da economia colaborativa.
Atualmente, o núcleo da Quinta da Boa Vista conta com 15 voluntários cadastrados, dos quais cerca de seis formam a linha de frente mais assídua. Há bicicletas e materiais suficientes para atender muito mais gente, mas a grande dificuldade atual é a falta de braços: o projeto precisa de mais voluntários dispostos a doar seu tempo.
Para custear a manutenção das bicicletas e garantir o lanche dos voluntários nos fins de semana, o projeto conta com contribuições financeiras voluntárias dos próprios alunos e ex-alunos. Trata-se de uma corrente de gratidão: a doação de quem aprendeu ontem viabiliza a bicicleta de quem vai aprender amanhã.
Como resume Danilo: “No fim das contas, eu acho uma grande diversão, mas é uma diversão com responsabilidade.”
Se você tem mais de 16 anos e tem o desejo de aprender a pedalar, o Bike Anjo está pronto para te acolher, sem pressa e com toda a segurança. E se você já domina as duas rodas e quer fazer a diferença na sua cidade, o projeto também te espera para ser o Anjo de alguém.
Quer apoiar ou participar? Acompanhe o projeto no Instagram pelo perfil @bikeanjo.rio e saiba como se voluntariar ou agendar a sua primeira aula!
Filosofia da rua
O trabalho de Paulo Escobar une acolhimento, denúncia e produção de conhecimento ao lado da população em situação de rua
Por Ana Julia Silveira
Para quem observa as discussões calorosas nos corredores do programa de Mudança Social e Participação Política da USP, o sociólogo Paulo Escobar Gonzalez pode parecer apenas mais um acadêmico imerso em teorias complexas sobre aporofobia – termo que define a rejeição e a aversão aos mais pobres. No entanto, basta caminhar alguns minutos ao seu lado pelas ruas do Belém ou pelo centro de São Paulo para entender que sua bagagem intelectual não nasceu dos livros, mas do asfalto que pisa diariamente há 26 anos. É dessa junção rara entre o rigor científico e a vivência crua das ruas que pulsa o coração do Projeto Caminhos e do Observatório de Pobrefobia, iniciativas que desafiam a lógica da caridade tradicional e propõem uma nova forma de enxergar a dignidade humana.
A sensibilidade que hoje molda esses projetos foi herdada ainda na infância, no Chile, sob uma severa ditadura militar. Aos sete anos, enquanto as outras crianças corriam com medo do “homem do saco preto”, sua avó o puxou pela mão para sentar na calçada e oferecer pão e café a Horácio, um morador de rua local. Naquela mesa improvisada no chão, em meio à própria pobreza da família, Paulo aprendeu que a miséria não anula a existência do outro. No fim de 1999, já em São Paulo, ele decidiu transformar aquele ensinamento em escolha de vida: passou a dedicar integralmente seu tempo à população que habitava o centro e a antiga Cracolândia, sem o distanciamento comum de quem faz apenas um trabalho voluntário esporádico.
É justamente o conceito de “convívio” que diferencia suas ações de uma assistência social burocrática. Paulo rejeita o termo “ajuda”, por entender que a caridade vertical muitas vezes enxerga apenas um número ou objeto de pena, e não um sujeito. No cotidiano das ruas, descobriu uma via de mão dupla em que os afetos se cruzam.
“A galera sabe quando eu estou bem ou mal. Teve momentos de profunda dor que passei na vida, andava na rua e, pelo meu rosto, eles me paravam e perguntavam: ‘Você tá bem?’. Isso me tocava demais, porque eu pensava: ‘Caramba, ele sabe me ler muito melhor do que muita gente’. E essas coisas vêm pelo convívio”, conta.
Segundo ele, o convívio real envolve também partilhar dores e contradições humanas, longe de qualquer romantização moral. “A população de rua não é formada por anjos nem demônios. São seres humanos que têm suas ações potencializadas, tanto para o bem quanto para o mal, pela condição em que se encontram”, pontua.
Foi dessa percepção que nasceu o Projeto Caminhos, há cerca de quatro anos. A iniciativa surgiu do incômodo de Paulo e seu amigo Fabiano com a morosidade e a burocracia do Estado, que chega a demorar até 45 dias para liberar uma simples passagem de ônibus para quem deseja voltar para sua terra natal. O projeto começou do zero, com a criação de um fundo solidário focado em soluções personalizadas e ágeis. Em vez de uma resposta única para uma população plural, o Caminhos atua de acordo com demandas individuais: seja pagando o primeiro aluguel e mobiliando a casa de uma jovem que desejava tirar a avó da rua, seja comprando um botijão de gás ou articulando uma vaga de trabalho.
A evolução natural desse movimento foi a abertura da Casa Caminhos, um espaço cultural próximo ao metrô Belém que funciona sob uma premissa fundamental: a de parecer — e ser — um lar, sem placas institucionais na fachada que rotulem quem entra. Ali, a horizontalidade dita as regras. Os frequentadores utilizam uma cozinha coletiva onde muitas vezes preparam alimentos que eles próprios conseguiram e doaram para o grupo. O espaço oferece lavanderia, horta comunitária e banhos individuais que respeitam a privacidade – um contraste com os chuveiros coletivos dos albergues estatais.
Mais do que assistência básica, a casa tornou-se um polo de acesso à cidadania e à subjetividade. Nas salas, computadores com internet já permitiram que dezenas de pessoas reencontrassem familiares que as julgavam mortas, enquanto oficinas de arte e as rodas de “Filosofia da Rua” estimulam o pensamento crítico a partir do saber construído nas calçadas.
“O principal no Caminhos é que a gente sempre tentou lutar pela dignidade e pela autonomia. Quem atua em órgãos do Estado parece querer tomar para si a tutela sobre a população. Nós alugamos a casa, eles seguem seus caminhos e a gente não fica vigiando. Eles constroem seus planos e são eles que dizem por onde querem ir”, explica Paulo.
Paralelamente ao acolhimento, a urgência da denúncia moldou o Observatório de Pobrefobia. Por meio dele, Paulo e sua rede expõem a violência cotidiana sofrida por essa população, que vai desde as agressões físicas até a arquitetura hostil das cidades, projetada para impedir o descanso dos corpos mais pobres. É um trabalho de enfrentamento que já o colocou em situações de risco e o fez sofrer ameaças inúmeras vezes. Para Paulo, a sociedade e o Estado operam negando a subjetividade dessas pessoas, controlando seus corpos e julgando suas escolhas sob uma ótica puramente moral.
Essa crítica à desumanização da pobreza também aparece nos livros escritos por ele, como ‘20 Sonhos de Rua’ e ‘Uma História de Amor’. Nas obras, Paulo destaca o fato de que a população em situação de rua tem direito ao desejo, ao afeto e ao futuro, e não apenas ao prato de comida que sobrou de alguém. Ele recorda o aniversário de uma frequentadora do projeto que, ao ser perguntada sobre o que queria ganhar, pediu apenas um pudim com ameixa – um doce que a conectava diretamente às memórias de sua infância e de sua mãe. “A gente nega a humanidade e a subjetividade da população de rua o tempo inteiro. Se alguém está dançando na pobreza, tudo é questionado. O morador de rua é um ser humano julgado a cada segundo pelo que faz, pelo que sonha e pelas ações que tem”, desabafa o sociólogo.
Trazer essas vozes e vivências para dentro dos muros rígidos da USP é a missão atual de Paulo em seu doutorado. Ele se assume como um “corpo estranho” na universidade e tensiona a estrutura acadêmica que, historicamente, trata os vulneráveis apenas como objetos de estudo. Sua produção textual e sua dissertação de mestrado – que será lançada em livro ainda este ano – invertem essa lógica vertical. “Não é a academia que me dá suporte teórico para eu entender a realidade. Eu acho que é a população de rua que dá o suporte teórico para entendermos onde estamos e o meio em que vivemos”, defende.
Para ele, a universidade se faz inacessível propositalmente e acaba excluindo potenciais brilhantes por causa de uma engrenagem rígida: “A estrutura da universidade tem uma dívida muito grande com a população mais pobre. Me incomoda esse lance de que tudo tem que ser escrito ‘para os meus pares’. Já é um mecanismo de exclusão. Eu tentei propor na faculdade que levassem as teorias para as pessoas que foram estudadas lerem, para ver se elas entendiam, até por uma questão de honestidade. Quero que quem está do lado de fora dos muros tenha acesso ao que é escrito, para pelo menos abrir algumas brechas nesse muro”.
Ao olhar para trás, o pesquisador que hoje ocupa as salas da USP mantém o mesmo compromisso do jovem que caminhava pelo Belém e pela Cracolândia no fim dos anos 1990. Mais do que isso, cada passo dado na Casa Caminhos e no Observatório serve para honrar a lembrança de Horácio, aquele primeiro morador de rua que conheceu na infância e que o ensinou a ler a humanidade antes de qualquer teoria sociológica. Para Paulo Escobar, a escrita e os projetos cotidianos servem para abrir brechas nos muros da indiferença paulistana, movidos pela certeza de que a autonomia e a dignidade não se doam de cima para baixo; constroem-se caminhando juntos, no mesmo nível do chão.
Debaixo de uma lona azul estrelada, milhares de jovens descobriram que a cultura também pertence a eles
Projeto Lona na Lua completa 17 anos democratizando o acesso à arte e transformando a vida de crianças e jovens no Rio de Janeiro
Por Lais Silveira
Antes de criar o Lona na Lua, Zeca Novais era um jovem tentando fazer teatro em Rio Bonito. Mas o cenário ao redor dificultava qualquer sonho artístico. Não havia teatro municipal, cinema ou equipamentos culturais na cidade. Faltavam estrutura, oportunidades e espaço para imaginar futuros possíveis.
“O tempo foi passando, e eu acabei entendendo que a minha história seria transformar a vida da molecada para que não houvesse outros Zecas passando pelo mesmo perrengue que eu passei”, relembra o ator, produtor e diretor.
Foi dessa inquietação que nasceu o Lona na Lua, projeto sociocultural que completou recentemente 17 anos, celebrados no último dia 17 de maio. A ideia parecia improvável no início, mas carregava um simbolismo impossível de ignorar.
“Daí nasce essa ideia um tanto quanto absurda de montar uma lona na lua, porque, se você monta uma lona na lua, faz arte em qualquer lugar”, diz Zeca.
O que começou em Rio Bonito cresceu ao longo dos anos e hoje também está presente em Tanguá e Cachoeiras de Macacu. Juntas, as três unidades atendem mais de mil crianças e jovens entre 6 e 18 anos, sempre no contraturno escolar e com aulas totalmente gratuitas.
Mais de 10 mil participantes já passaram pelo projeto ao longo dessa trajetória.
Muito além do circo
Apesar da identidade circense que virou marca registrada do projeto, o trabalho desenvolvido pelo Lona na Lua vai muito além do circo. O espaço reúne diferentes linguagens artísticas e educativas, funcionando como um ambiente de descoberta, formação e pertencimento.
“A gente trabalha com teatro, circo, música, dança, desenho, cenografia e figurino. Tem oficina de Libras para as crianças também, escrita criativa, empreendedorismo… É um espaço onde crianças e jovens descobrem aquilo com o que mais se identificam”, explica Zeca.
O principal propósito do projeto sempre foi democratizar o acesso à cultura em territórios historicamente afastados desse direito. “O objetivo do Lona na Lua sempre foi democratizar o acesso à cultura. Oferecer arte, educação e cidadania a territórios que precisam disso”, afirma.
Para Zeca, o impacto vai muito além do aprendizado técnico ou artístico. Ele acredita que a iniciativa ajuda crianças e jovens a reconhecer o próprio lugar no mundo. “Acho que, acima de tudo, é a questão da representatividade. Eles encontram um lugar de fala, de fato. Debaixo daquela lona azul estrelada, todo mundo é igual”, diz.
Ele reforça que o espaço também ajuda a romper uma ideia ainda muito presente: a de que cultura seria algo distante ou inacessível. “Eles crescem sabendo que cultura não é luxo, cultura é um direito.”
Quando a arte vira profissão
Ao longo dos anos, o Lona na Lua também passou a atuar diretamente na formação profissional de jovens da periferia. Muitos alunos que chegaram ainda crianças hoje trabalham na própria instituição. “O Lona na Lua tem uma característica muito forte, que é a formação de jovens para o mercado de trabalho”, conta Zeca.
Alguns se tornaram assistentes de produção. Outros passaram a atuar como instrutores de teatro, circo ou até motoristas da instituição. Para o fundador, essas trajetórias mostram que a arte também pode ser entendida como trabalho, profissão e possibilidade concreta de futuro. “A arte é um ofício. A gente quer que eles entendam isso, que podem, sim, se tornar trabalhadores da cultura”, afirma.
As histórias individuais acabam se misturando à própria trajetória do projeto, construída coletivamente ao longo de quase duas décadas. “São muitas histórias ali. Crianças e jovens da periferia que crescem naquele espaço e têm ali seu primeiro emprego”, diz.
Uma lona que segue crescendo
O sonho do Lona na Lua ainda está longe de terminar. Zeca conta que o projeto já conversa com outros municípios e espera inaugurar novos espaços em breve. A meta é ambiciosa: espalhar 20 lonas pelo estado do Rio de Janeiro. “A gente brinca que só faltam 17 agora”, diz, aos risos.
Ao longo dos anos, o projeto construiu parcerias importantes com instituições como Criança Esperança, TV Globo, Petrobras, Enel, UNESCO e Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Para Zeca, essa rede de apoio ajudou a fortalecer a credibilidade do movimento e permitiu que milhares de vidas fossem alcançadas pela arte. “A gente entende que existe uma grande rede que se une por um propósito em comum”, afirma.
Mesmo depois de 17 anos, ele garante que o sentimento continua sendo o mesmo do início: a certeza de que ainda há muitos territórios para ocupar e muitas crianças para alcançar. “O Lona na Lua é a arte que pulsa de verdade.”
Entre o abandono e o amor: Associação Entre Pegadas completa 11 anos de luta animal no CEASA do Rio
Projeto criado para apoiar protetores independentes se transformou em uma rede de resgate, cuidado e adoção de animais em uma das regiões mais complexas da cidade
Por Lais Silveira
Neste mês de maio, a Associação Entre Pegadas completa 11 anos de atuação dedicados ao resgate, cuidado e proteção de animais em situação de abandono. O que começou como um grupo de divulgação nas redes sociais se transformou, ao longo dos anos, em uma verdadeira rede de apoio para protetores independentes e animais resgatados no Rio de Janeiro.
Criada em 2015, a associação nasceu com uma proposta comunitária: ajudar pessoas que resgatavam animais, mas não tinham estrutura, visibilidade ou apoio para seguir sozinhas.
“A ideia inicial era criar um grupo de divulgação para apoiar protetores independentes. Quando uma pessoa resgata um animal, normalmente não sabe o que fazer, não tem como cuidar e não tem rede de apoio”, relembra Cristina Malafaia Caetano dos Santos, diretora administrativa da associação.
Na época, o trabalho acontecia principalmente pelo Facebook, enquanto o Instagram ainda dava seus primeiros passos. O objetivo era ampliar a divulgação de resgates feitos por pessoas comuns, já que campanhas de adoção costumam priorizar os bichos dos próprios abrigos.
“A gente queria mudar um pouco isso. Nas campanhas, além dos nossos animais, a gente abre espaço para esses protetores levarem também os seus animais, o que é uma forma de apoio”, explica Cristina.
Desde o início, o Entre Pegadas também apostou na conscientização como ferramenta de transformação. Palestras em escolas, eventos e campanhas educativas passaram a fazer parte da rotina do projeto, sempre reforçando temas como proteção animal, castração e guarda responsável.
Mas foi em 2016 que a história da associação mudou de rumo. Um pedido de ajuda levou o grupo até o CEASA, em Irajá, uma das áreas com maior circulação de caminhões e fluxo intenso de pessoas no Rio de Janeiro. A intenção inicial era ajudar na castração dos animais que viviam no local. Só que a realidade encontrada ali transformou completamente o trabalho do grupo.
“Já saímos de lá com uma ninhada de uma cadela que tinha parido dentro de um ferro-velho”, conta Cristina.
O que era para ser um apoio pontual virou uma atuação permanente. Aos poucos, o grupo começou a castrar, vacinar e resgatar animais que viviam soltos entre estacionamentos, galpões e áreas de carga. Sem espaço físico no início, muitos eram levados para casas de voluntários até conseguirem adoção.
Em 2016, a associação conquistou um espaço dentro do CEASA para funcionar como ponto de triagem dos animais resgatados. A ideia era criar um fluxo contínuo: os animais seriam acolhidos, tratados, castrados e colocados para adoção. Mas a quantidade de abandonos tornou o desafio muito maior do que o planejado. “A entrada é sempre maior do que a saída”, resume Cristina.
Com o passar do tempo, o local passou a ser conhecido como ponto de abandono. Animais começaram a ser deixados amarrados na porta do abrigo ou jogados por cima do muro. Ao redor do CEASA, comunidades inteiras convivem diariamente com cães e gatos soltos, muitos deles sem castração, expostos à fome, doenças e atropelamentos.
“O CEASA é um dos lugares do Rio de Janeiro com maior fluxo de caminhões, vans e carros. É uma loucura o tempo todo”, relata.
Uma batalha diária
A rotina dentro do CEASA é marcada por situações extremas. Animais atropelados, doenças graves, infecções e abandono fazem parte do cotidiano dos voluntários.
“Tem animais que, às vezes, estão há mais de um mês atropelados. É uma situação que, inicialmente, é desesperadora. Muitas vezes, você não sabe por onde começar”, conta Cristina.
Ela explica que muitos resgates chegam em estado crítico e exigem internações, cirurgias e tratamentos caros. Frequentemente, os próprios voluntários arcam com os custos para que os animais não fiquem sem atendimento.
“Nenhum de nós ganha nada com o projeto. Tudo isso é feito com muito amor, mas precisamos comprar ração, medicação e pagar cirurgias”, diz.
Hoje, a associação é formada por uma rede fixa de voluntários que se divide entre os cuidados do abrigo, campanhas de adoção, atendimento veterinário, redes sociais, logística e arrecadação. Muitos estão no projeto desde o começo.
“É um trabalho movido por muito amor”, resume Cristina.
Ao longo de 11 anos, o Entre Pegadas já realizou cerca de 2 mil castrações e resgatou mais de 1.800 animais.
Histórias que resistem
Entre tantos casos difíceis, algumas histórias seguem como símbolo de esperança para quem acompanha o trabalho do Entre Pegadas.
Uma delas é a de Joana, uma cadela caramelo abandonada no CEASA. Com o tempo, os voluntários descobriram que ela era cega e surda.
“Ela sabia que a gente chegava pela vibração do solo e pelo cheiro”, relembra Cristina.
A chance de adoção parecia praticamente impossível. Além de adulta, Joana tinha duas deficiências que dificultavam ainda mais a adaptação. Mas a história tomou outro rumo quando uma família decidiu adotá-la.
“É incrível alguém adotar um cachorro caramelo, vira-lata, adulto, cego e surdo”, conta.
Outra história marcante é a da Zoeh, uma gata que perdeu os dois olhos após infecções severas. Ela foi adotada por uma família em São Paulo e, mesmo sem enxergar, se adaptou completamente ao novo lar.
“Você vê os vídeos dela andando pela casa e nem parece que é uma gata cega”, diz Cristina.
Mais do que uma causa animal
Manter o abrigo funcionando exige muito mais do que boa vontade. Rifas, bazares solidários, campanhas de arrecadação e doações ajudam a manter os animais alimentados e medicados. Ainda assim, os recursos quase nunca são suficientes.
“A fila de pedidos de ajuda é gigante, e a fila de pessoas dispostas a ajudar é pequena”, afirma Cristina.
Para ela, a dificuldade de mobilizar apoio para o abrigo também revela algo maior sobre a forma como a sociedade se relaciona com causas coletivas.
“Quando eu falo de animais, falo disso porque é onde a gente atua, mas você vê isso de modo geral. As pessoas ficam, muitas vezes, focadas no próprio trabalho, nas próprias responsabilidades, na própria vida e não têm esse olhar de comunidade”, reflete.
Ainda assim, Cristina acredita que pequenas ações podem fazer diferença, seja com doações, divulgação nas redes sociais ou campanhas solidárias.
“Nossa meta continua sendo conscientizar as pessoas sobre os maus-tratos, sobre a importância da castração e dos cuidados com os animais”, explica.
Depois de mais de uma década convivendo diariamente com abandono, dor e resgates difíceis, Cristina diz que existe uma palavra capaz de resumir o que mantém o projeto vivo.
“O que eu mais vejo nesses bichos, independentemente do que eles sofram, é que eles não perdem a capacidade de amar”, reflete. “Eu acho que a palavra que resume tudo isso é amor.”
Transformar direitos em prática: o que move o trabalho do IDC
Entre redes e articulação, o instituto aposta no fortalecimento de quem já está nos territórios para gerar impacto real
Por Ana Julia Silveira
Nem sempre o desafio está em garantir direitos, mas em fazer com que eles cheguem, de fato, a quem precisa. É nesse intervalo – entre o que está previsto e o que acontece na prática – que o Instituto de Direito Coletivo constrói sua atuação. Desde 2017, o IDC organiza seu trabalho a partir de uma lógica que se repete em diferentes frentes: o fortalecimento de quem já está nos territórios. Mais do que criar soluções isoladas, a aposta está em dar estrutura para que iniciativas existentes ganhem continuidade e escala.
Para Tatiana Bastos, presidente do IDC, essa ideia de impacto passa menos pela inovação constante e mais pela permanência: “Não é sobre criar algo novo o tempo todo, é sobre garantir que quem já está na ponta consiga continuar. Na prática, isso significa olhar para organizações que já atuam em suas comunidades, mas enfrentam dificuldades para se estruturar, acessar recursos ou simplesmente se manter. Nosso papel é fortalecer esse caminho, para que elas tenham mais segurança, autonomia e consigam ampliar o que já fazem”.
Essa lógica aparece com clareza nas iniciativas que operam, muitas vezes, longe dos holofotes, mas são decisivas para que o trabalho aconteça. Ao desenvolver soluções como a eTransparente ou fortalecer redes com mais de 120 organizações, o foco não está na ferramenta em si, mas no que ela viabiliza: organizações mais estruturadas, aptas a acessar recursos públicos e a manter suas atividades com maior estabilidade.
Mais do que criar projetos, o IDC atua ajustando engrenagens.
O mesmo princípio orienta o trabalho com cooperativas de catadores, onde a pauta ambiental se cruza diretamente com a inclusão social. Ao apoiar processos de formalização, geração de renda e participação em políticas públicas, o IDC atua para reposicionar esses trabalhadores dentro da cadeia de resíduos. Como aponta Tatiana: “não é só sobre reciclagem, é sobre reconhecimento. Sobre garantir que essas pessoas sejam vistas como parte essencial da solução”.
Esse movimento revela também a forma como o IDC entende sua atuação: menos como protagonista isolado e mais como articulador. Seja conectando organizações, incidindo sobre políticas públicas ou traduzindo demandas complexas em ações concretas, o objetivo é o mesmo: reduzir a distância entre direito e realidade. “Direitos não se garantem sozinhos. Eles precisam de estrutura, de rede e de continuidade para existirem na prática”, resume Tatiana.
No fim, o que move o IDC não é apenas a criação de iniciativas, mas a construção de caminhos para que elas permaneçam. Porque, mais do que existir na lei, o direito só se realiza quando consegue fazer parte da vida real.
Mulheres reagem todos os dias. O Reage Mãe existe para que essa reação venha acompanhada da consciência de seus direitos e de sua força.
Neste Dia das Mães, conheça a história de uma casa de acolhimento para gestantes e puérperas, que mostra que lutar com apoio é diferente de lutar sozinha
Por Bárbara Faria
O Reage Mãe nasceu de uma dor muito pessoal, de uma história familiar marcada por violência obstétrica que terminou em óbito. Esse foi o estalo que Daniela Freitas, doula e ativista pelos direitos das mulheres, da gestação e da primeira infância, teve ao dar vida ao projeto que virou uma rede de apoio para gestantes em situação de vulnerabilidade em Petrópolis, no Rio de Janeiro.
O que aconteceu na família de Daniela não foi uma tragédia isolada. É um padrão que se repete muitas vezes: mulheres sendo abandonadas, negligenciadas e violentadas justamente no momento mais delicado de suas vidas, que é a gestação e o parto. A pesquisa “Retratos do Parto e do Nascimento no Estado do Rio de Janeiro”, lançada em setembro de 2025 pela Fiocruz, aponta que 65% das mulheres sofreram algum tipo de violência obstétrica no Rio de Janeiro entre 2021 e 2023. “Foi entendendo este padrão de sofrimento invisibilizado que nasceu o Reage Mãe, como uma resposta, um grito e uma rede de apoio para que outras mulheres não passem pelo mesmo”, compartilha Daniela.
Quem acompanha partos se depara com uma realidade muito dura, que é a de mulheres normalizando a violência obstétrica porque já vivem outros tipos de violência, como a doméstica, antes de chegar à maternidade. A doula explica que para elas, a violência no parto acaba sendo só mais uma camada. “A desigualdade é gritante e tem cor. Quem mais sofre com essas violências e com a vulnerabilidade são, em sua maioria, mulheres pretas. Já vi mães deixarem os filhos dormirem até mais tarde, durante as férias, para pular o café da manhã e conseguirem garantir apenas o almoço. Já vi gestantes deixarem de comer para alimentar os filhos que já têm. Essas mulheres são constantemente julgadas pela sua vulnerabilidade, enquanto o abandono paterno quase nunca é questionado. Então, quando falamos de suporte físico e emocional no parto, precisamos ampliar essa visão. Não basta acolher naquele momento se o básico dentro de casa não está garantido. Falar de cuidado é também falar de comida, dignidade e sobrevivência.”
Nesse contexto, o primeiro passo do Reage Mãe é uma escuta verdadeira, sem julgamento. A partir daí, são feitos os encaminhamentos necessários, de acordo com a realidade de cada mulher, seja na saúde ou na assistência social. “O abraço é coletivo. Não vem apenas de uma representante, mas de toda uma rede de mulheres que constroem o projeto juntas. É isso que transforma: a mulher entende que não está mais sozinha.”, conta Daniela.
O nome do projeto não foi escolhido por acaso. Reage Mãe é, nas palavras de Daniela, um tapa na cara da sociedade porque as mulheres já reagem todos os dias. A diferença é que agora a reação é com ainda mais consciência para que as pessoas enxerguem suas dores, suas lutas e sua força. É sobre mulheres entenderem seus direitos para ocupar seu lugar de fala. Inclusive, o projeto atua também em casos de gravidez na adolescência, lutando para que meninas sejam amparadas, cuidadas e tenham oportunidades.
Por um bom tempo, o trabalho foi itinerante, mas era bastante difícil mantê-lo. Hoje, Daniela cede uma parte da própria casa para o projeto funcionar. Entre as ações feitas estão a montagem de enxovais, realização de bazar gratuito e oferta de lanches durante as reuniões. É por isso que o desejo do Reage Mãe é ter uma sede onde as mulheres possam chegar sabendo que aquele lugar existe para elas. “Um dos maiores sonhos é ter um espaço próprio, uma casa que possamos chamar de nossa. Um lugar onde essas mulheres saibam que sempre terão acolhimento, apoio e pertencimento.”, explica a doula.
Para Daniela, o Dia das Mães é sempre muito especial, e até simbólico, porque acontece bem próximo do aniversário dela. “A gente sempre prepara uma comemoração cheia de afeto. É um momento de celebração dessas mulheres que enfrentam tantas batalhas todos os dias.”
O Reage Mãe aceita mimos que elevem a autoestima dessas mulheres: bijuterias, maquiagem, roupas, ou até um vale para um dia de cuidado, como salão de beleza. Quem quiser ajudar pode entrar em contato pelo número (24) 99284-6199 ou pelas contas no Instagram (@reagemae e @danireagemae). O acolhimento e o suporte são capazes de transformar as realidades dessas mães e, consequentemente, o futuro de seus filhos.
Entre a dor e o acolhimento: projeto da Uerj transforma vidas de pessoas com fibromialgia
Iniciativa gratuita une ciência, escuta e atividade física para enfrentar a dor crônica e criar redes de apoio na universidade pública
Por Ana Julia Silveira
A dor nem sempre aparece em exames, mas atravessa o corpo e o cotidiano de quem convive com a fibromialgia de forma persistente. É uma dor generalizada, muitas vezes difícil de descrever, que se mistura ao cansaço, às alterações de sono e aos impactos emocionais que a condição carrega. Na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), um projeto gratuito vem transformando essa experiência em uma nova possibilidade: a de cuidado, acolhimento e reconstrução da vida em coletivo.
Coordenado pelo professor Paulo Sérgio Chagas Gomes, o projeto surgiu a partir da proposta da universidade pública e se mantém há mais de duas décadas como um espaço em que produção de conhecimento e prática caminham juntos. “A universidade funciona nesse tripé de ensino, pesquisa e extensão. O que a gente produz aqui não é só para ficar dentro da universidade, mas para circular, para chegar às pessoas. E também para olhar para o nosso próprio entorno, para o que está acontecendo aqui dentro”, explica o coordenador.
Hoje, o projeto atende majoritariamente mulheres, não por recorte definido, mas porque a própria fibromialgia incide de forma muito mais frequente nelas, em uma proporção que pode ultrapassar cinco casos para um. Ainda assim, o desconhecimento sobre a condição segue sendo um dos principais obstáculos enfrentados por quem convive com a doença.
A fibromialgia é uma condição complexa, sem cura e, em muitos casos, também está associada a quadros de ansiedade e depressão. Nesse contexto, o diagnóstico e o cuidado exigem um olhar mais amplo, algo que nem sempre acontece nos atendimentos convencionais. Segundo o coordenador, embora não seja possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito, é recorrente que essas trajetórias tragam episódios de estresse intenso ou experiências traumáticas.
“Como pesquisador, eu tenho que ter cuidado com isso. Não dá para dizer que uma coisa causa a outra. Mas o que a gente observa, nas conversas com elas, é que muitas passaram por situações difíceis ao longo da vida — perda de alguém, problemas familiares, algum tipo de violência ou pressão constante”. A recorrência desses relatos, segundo ele, ajuda a dimensionar a complexidade dos casos acompanhados. Diante desse cenário, o projeto parte de um princípio que antecede qualquer protocolo técnico: o reconhecimento. “A primeira coisa que a gente faz aqui é acolher. É fazer com que elas se sintam reconhecidas. Porque muitas chegam sem ter sido ouvidas”, diz Paulo Sérgio.
A partir daí, o trabalho se estrutura principalmente em exercícios físicos orientados, especialmente o treinamento de força, apontado por estudos como uma das estratégias mais eficazes no manejo da fibromialgia. Mas o projeto não se limita a isso. Desde sua origem, a ideia foi construir um cuidado interdisciplinar, envolvendo diferentes áreas da saúde. Ao longo do tempo, essa estrutura chegou a incluir psicólogos, enfermeiros e outros profissionais, mas acabou sendo parcialmente reduzida devido a limitações de recursos.
“Já tivemos uma equipe mais completa, com psicólogo, enfermeira e médico, mas isso se perdeu ao longo dos anos, principalmente porque não é simples manter pessoas trabalhando sem remuneração. A gente continua tentando resgatar isso, porque entende que não é só exercício. É preciso ter alguém que escute, que identifique se a pessoa está em crise, que possa orientar”.
Mesmo com essas limitações, o projeto segue se expandindo. Novas frentes estão sendo desenvolvidas, como atividades de hidroginástica, alongamento e yoga, além de pesquisas que buscam aprofundar o entendimento sobre os efeitos do exercício no tratamento da fibromialgia. Uma das linhas em andamento investiga, por exemplo, qual intensidade de treino pode gerar mais benefícios sem provocar aumento da dor, informação essencial para orientar práticas mais seguras e eficazes.
“A gente quer entender até onde pode ir. Porque, às vezes, um treino um pouco mais intenso pode até ajudar mais, mas precisa ser feito com cuidado. Nosso objetivo é melhorar a qualidade de vida, mas principalmente a funcionalidade. Muitas dessas mulheres trabalham, cuidam da casa, da família, elas precisam estar bem para dar conta do dia a dia”, afirma.
Se a pesquisa sustenta o projeto, é no dia a dia que ele ganha seu sentido mais evidente. Ao longo dos encontros, as participantes constroem relações que extrapolam o espaço das atividades. Criam redes de apoio, trocam experiências, se acompanham fora dali. O que começa como um grupo de tratamento se transforma, aos poucos, em um espaço de convivência.
Esse vínculo coletivo é percebido como um dos pilares do processo. Para muitas, o projeto representa não apenas um lugar de cuidado, mas um espaço onde é possível existir sem julgamento. Não é incomum que participantes que se afastam por um período retornem, motivadas justamente pela falta que esse ambiente faz no cotidiano.
O projeto é gratuito e aberto ao público, sem necessidade de vínculo prévio com a universidade. Podem participar pessoas com diagnóstico ou suspeita de fibromialgia, desde que atendam a alguns critérios básicos de segurança, como a apresentação de atestado médico autorizando a prática de atividade física e, em alguns casos, exames complementares.
As inscrições são realizadas por meio do Instagram do projeto, @fibro.uerj, ou pelo WhatsApp, cujo contato está disponível no próprio perfil. Atualmente, as turmas contam com cerca de 20 participantes cada, e há fila de espera ativa devido à alta procura. Isso indica não apenas a demanda reprimida por esse tipo de cuidado, mas também a relevância de iniciativas que aproximam a universidade da população.
WD Game House: a locadora de games onde a leitura serve como passaporte para a diversão
Em Itatiaia, William Santos criou uma regra simples para ajudar crianças que não têm dinheiro para jogar: quem lê, joga e descobre que as duas coisas podem ser divertidas
Por Bárbara Faria
A WD Game House, em Itatiaia, Rio de Janeiro, nasceu com uma intenção simples e bonita: ser o lugar que William Santos não teve na infância. Um espaço onde crianças do bairro pudessem jogar videogame com dignidade, sem depender de ter dinheiro sobrando no bolso. A impotência que sentia ao ver os pequenos parados na porta da sua lan house era a mesma que ele carregava desde menino, quando ia até a locadora só para assistir aos outros jogarem, na esperança de ganhar alguns minutinhos.
Deixar todo mundo jogar de graça não era sustentável para o negócio, e cobrar de quem não tinha como pagar doía tanto quanto não fazer nada. As primeiras tentativas de driblar essa realidade eram criativas, como a troca de latinhas e recicláveis por horas de jogo, mas não foram muito longe porque a ideia virou alvo de críticas. Foi a partir daí que William olhou para o cantinho da sala e viu naquela minibiblioteca que estava lá desde sempre, quase invisível, uma oportunidade que mudaria tudo. Ele não sabia exatamente como ia funcionar quando propôs pela primeira vez, mas sugeriu da seguinte maneira: dez minutos de leitura valeriam vinte de jogo. Vinte minutos de livro valeriam quarenta de controle na mão. Meia hora lida, valeriam uma hora jogada.
Após sugerir a ideia e os garotos aceitarem, os livros começaram a despertar cada vez mais interesse. Um deles chegou um dia e perguntou se havia livros novos. Disse que já havia terminado o que pegou antes e queria outro. Foi até a estante, escolheu, voltou e pediu uma folha para fazer um resumo, mesmo sem ninguém ter pedido. William conta esse episódio com alegria: “Eu nem pedia resumo. Só veio à cabeça que eles não podiam ir embora mais uma vez frustrados. Hoje, sinto que eles realmente gostam da leitura porque, por mais que tenham o interesse de jogar, se eles não gostassem de ler, nem aceitariam a proposta”, explica.
O acervo conta com uma grande variedade de histórias em quadrinhos e mangás, mas também tem livros de romance e fantasia. No começo, as crianças davam preferência às HQs, como Turma da Mônica e Dragon Ball, mas William começou a notar que, com o tempo, passaram a escolher livros maiores. “O engraçado e bonito é que as crianças e adolescentes que começaram lendo quadrinhos estão migrando para livros mais profundos. Estão lendo livros de heróis, Sherlock Holmes e Harry Potter. Essa mudança aconteceu sozinha, no ritmo deles”, conta.
O sucesso da WD Game House, inaugurada em 2019, é inegável e logo se espalhou pelas redes sociais, tomando uma proporção ainda maior. De acordo com William, a repercussão é bastante positiva. Muitos professores o parabenizam pela iniciativa e pelos incentivos que ele dá aos estudos e à leitura. “Os incentivos que existem aqui na Game House mudam a rotina deles. É uma vitória grande que eu conquistei aqui porque a criança só vai depender dela mesma para poder jogar. Aqui eles vão ter a oportunidade de jogar através da leitura”, comenta.
Gradualmente, o projeto foi ganhando outros incentivos que estimulam foco e educação: não falar palavrão para não perder 30 minutos do tempo conquistado; terminar o jogo do mês, do começo ao fim, para receber R$50; e ter o melhor boletim para concorrer a um videogame doado por seguidores das redes sociais. Com isso, os pais das crianças também passaram a reconhecer a importância do projeto. “Uma mãe disse que o filho está se esforçando mais na escola, chegando em casa e pedindo ajuda nos deveres. Tudo porque ele quer ganhar um PlayStation 5 que vamos dar no final do ano”, explica William.
William Santos tem 38 anos e trabalha com limpeza e manutenção de piscinas há mais de 20 anos. Ele faz parte de uma geração que cresceu ouvindo que videogame é perda de tempo, mas não perdeu a esperança de transformar esse conceito. Ele acredita que é possível mudar essa mentalidade e mostrar que os games podem ser usados para o bem.
A WD Game House é um exemplo disso, já que vem ajudando na rotina das famílias e criando consciência para que as crianças joguem com moderação, adquirindo conhecimento com os livros. “Independentemente do empreendimento que tiverem, eu procuro falar que eles têm que trazer inovação. Por aqui, estou sempre trazendo alguma coisa nova. Agora quero fazer um clube de leitura para a criançada. A inovação aguça a curiosidade da criança”, compartilha William.
A luta do campeão começa meses antes da competição
Entre o nervosismo e a coragem, o jiu-jitsu se torna espaço de crescimento, disciplina e construção
Por Ana Julia Silveira
Antes de entrar no tatame, Guilherme de Souza aperta as mãos, se mexe sem parar e responde baixo, quase como se ainda estivesse se acostumando com a própria voz. Aos 12 anos, ele carrega a timidez de quem está descobrindo o mundo – e o próprio lugar dentro dele. Mas essa postura muda quando o treino começa. No jiu-jitsu, Guilherme encontra um espaço onde consegue se expressar de outra forma, mais segura e direta.
“Eu gosto das aulas… da competição”, diz Guilherme, ainda tímido, mas já deixando claro o que o motiva a continuar.
O início no esporte aconteceu em 2021, logo depois da pandemia, quando os pais, Daniel de Souza e Karen Regina Gomes, decidiram incentivar uma rotina mais ativa. A ideia, naquele momento, era simples: tirar o filho do excesso de tempo nas telas e apresentar uma alternativa. O que começou assim, de forma despretensiosa, rapidamente ganhou outro peso, principalmente, quando o próprio Guilherme passou a demonstrar que queria ir além.
Depois das primeiras experiências em competições voltadas para iniciantes, ele deixou claro que não queria apenas participar. Queria competir de verdade. A partir dali, o jiu-jitsu deixou de ser só uma atividade e passou a organizar a rotina da casa: “Ele acorda, vai para escola, volta, estuda, descansa um pouco e depois vai treinar. O treino começa às três da tarde e vai até às sete e meia da noite. Segunda, quarta e sexta é jiu-jitsu. Terça e quinta, ele ainda faz futebol. Durante a semana é treino e estudo. Celular, só no fim de semana”, explica o pai.
O caminho, no entanto, não foi tranquilo. Pouco tempo depois de começar a competir, Guilherme sofreu um acidente grave durante uma luta. Ao cair, apoiou a mão no chão e quebrou o braço. A situação se agravou no atendimento inicial, resultando em uma fratura exposta e na necessidade de uma cirurgia longa e delicada.
“Foi o pior dia da minha vida”, conta o pai, emocionado. “Era para ser uma cirurgia de uma hora e meia, duas horas… e foram quase cinco. Eu só pensava em ver meu filho bem. Naquele momento, eu não queria mais que ele voltasse para o jiu-jitsu”.
Para Guilherme, porém, a experiência não mudou o desejo de continuar. Ainda no hospital, mesmo lidando com a dor e sem saber como seria a recuperação, ele já falava sobre voltar. “Eu vou continuar, né, pai?”, perguntava.
A recuperação foi mais rápida do que o esperado e, cerca de quatro meses depois, ele já estava de volta às competições. No primeiro campeonato após o retorno, conquistou a medalha de ouro. Mais do que o resultado, o episódio ajudou a consolidar uma postura que aparece desde cedo: a de insistir, mesmo quando o caminho fica mais difícil.
Fora do tatame, Guilherme continua sendo um menino de 12 anos, inquieto, por vezes tímido, apenas uma criança. Dentro da academia, no entanto, ele assume outra postura. Aos poucos, passa a ajudar o professor, acompanhar alunos mais novos e se envolver com o ambiente de uma forma que vai além do treino.
Quando fala sobre o futuro, já projeta esse caminho com naturalidade. Quer seguir no jiu-jitsu, conquistar títulos e, mais adiante, ensinar. A vontade de se tornar professor aparece como uma extensão do que ele já vive hoje no dia a dia da academia.
Para a mãe, as mudanças vão além do desempenho esportivo e aparecem no cotidiano. “O jiu-jitsu trouxe disciplina e responsabilidade. Ele entende que tem horário, que tem regra e que precisa estudar para poder treinar. A gente vê diferença em tudo, dentro de casa, na forma como ele se comporta e na forma como ele lida com as coisas”, afirma.
Essa transformação também impacta a dinâmica familiar. Sem patrocínio fixo, a família encontrou formas de sustentar o sonho do filho. Uma delas é a venda de paçoca em dias de jogo no Estádio São Januário — estratégia que ajuda a custear inscrições, transporte e outras despesas das competições. Ao mesmo tempo, os pais apostam nas redes sociais como uma forma de ampliar o alcance da história de Guilherme e, principalmente, de abrir caminhos.
“O mais importante hoje é o engajamento, porque é isso que pode trazer um patrocinador. Às vezes, a pessoa não consegue ajudar com dinheiro, mas seguir, compartilhar e mostrar para outras pessoas já ajuda muito. É assim que a gente acredita que pode chegar a alguém que consiga apoiá-lo”, explica o pai. O perfil do atleta é o @guilhermesouza.bjj.
O próximo objetivo é disputar o Pan Kids, nos Estados Unidos, uma oportunidade que representa não apenas um avanço na trajetória esportiva, mas também a primeira experiência internacional de Guilherme. Para a família, esse momento carrega um significado especial: é a chance de ver de perto até onde esse caminho pode chegar.
Hoje, a corrida é contra o tempo. Entre treinos, rotina e esforços para viabilizar a viagem, os pais buscam alternativas para tornar possível a participação no campeonato, desde a mobilização nas redes até a busca por apoio e patrocínio. Mais do que uma competição, é uma oportunidade que pode abrir portas importantes no esporte.
Enquanto isso, a rotina segue. Treinos, campeonatos, erros, aprendizados. Um processo contínuo, construído dia após dia, sem atalhos. Para quem está começando, Guilherme é direto: “Tem que começar e não pode desistir. O jiu-jitsu dá muita coisa boa”.
A voz indígena à beira do campo
Locutor esportivo da etnia Xakriaba narra jogos com paixão ancestral
Por Guilherme Frota
Conhecido pelo nome indígena Aukum, que equivale a “onça-pintada”, o locutor Juvenal de Seixas Ferro é figura carimbada em eventos esportivos indígenas no Sudeste do país. Com a força da voz, digna do maior felino do Brasil, ele se orgulha de fazer o que ama, tendo apenas um bloquinho de notas e uma caneta.
“É uma paixão que virou realidade. Não tenho formação na área, mas sempre foi um sonho, desde mais novo, trabalhar com comunicação no rádio”, relata.
Aos 57 anos, Juvenal narra jogos no território onde mora, uma área demarcada no norte de Minas Gerais que abriga a etnia Xakriaba, perto da divisa com a Bahia. Depois de trabalhar voluntariamente por mais de 26 anos em rádios comunitárias, ele afirma ter aproveitado todas as oportunidades e, até hoje, viaja pelo país narrando jogos indígenas.
“Quando saímos da aldeia, tudo aquilo que trazemos serve de conhecimento para o nosso povo. Apesar de nossos anciãos preferirem não sair do território, somos preparados por eles sobre como agir fora de casa”, conta Juvenal.
Entre suas referências na profissão, Aukum menciona o narrador Osmar Santos, conhecido como “o rei da matéria” nas transmissões de rádio. Desde criança, ele foi uma inspiração para Juvenal, assim como Galvão Bueno, com seus famosos bordões na televisão.
“Eu agradeço a oportunidade de contar um pouco de mim para vocês. Na língua dos Xakriaba, eu diria “ariatã”, que, em português, significa “obrigado”, concluiu.


