Myrian Dauelsberg: uma vida nos bastidores da produção cultural brasileira
Fundadora da Dellarte, empresária reúne em livro episódios que marcaram mais de quatro décadas dedicadas à música e às artes no país
por Vanessa Pessoa
É impossível falar de produção cultural no Brasil sem citar Myrian Dauelsberg. Empresária, fundou em 1982 a Dellarte, que se tornou uma das principais instituições dedicadas à difusão da música clássica e do balé no país. Ao longo dessa trajetória, passou a viajar com frequência ao exterior, estabelecendo contatos com produtores e artistas, em um cenário que sempre exigiu persistência para viabilizar projetos culturais no país.
A ideia de transformar sua história em livro surgiu em 1991, após a insistência de amigos durante um jantar em Paris, no restaurante Chez Denise. Na ocasião, Myrian estava com o marido, Peter Dauelsberg, e com o ex-aluno e amigo Mauro Maddalena:
“Havia acabado de contar minhas últimas aventuras com Luciano Pavarotti, quando Mauro sugeriu que registrasse a ‘epopeia’ que precedera a vinda do tenor ao Brasil”.
O incentivo foi reforçado ao longo dos anos por amigos próximos, como o pianista português Adriano Jordão, parceiro em diversas produções internacionais. Entre os episódios lembrados no livro “Atrás do Palco – Bastidores por Myrian Dauelsberg” (Rebento Editora) está um dos primeiros grandes desafios internacionais enfrentados por ela na Sala Cecília Meireles, na Lapa, Rio de Janeiro, com a apresentação do grupo inglês Deller Consort.
“Não tinha verba alguma, dispunha de apenas 240 mil moedas da época para toda a temporada. Decidi investir tudo na primeira semana, acreditando que um grande impacto inicial abriria portas para o futuro. E deu certo: o concerto foi um sucesso tremendo. Com a sala lotada, consegui convencer patrocinadores a apoiar a temporada e pude organizar os eventos seguintes com mais segurança. Foi um momento de alívio e de confirmação de que, mesmo sem recursos, a paixão e a convicção são capazes de transformar a cena cultural”, ressalta.
A obra também reúne histórias curiosas dos bastidores, como a passagem de Luciano Pavarotti pelo Rio, antes de seguir para o Chile em um avião fretado pela Dellarte:
“Ainda no aeroporto, ele percebeu que havia esquecido um legítimo queijo Parmigiano Reggiano, que trazia consigo em uma sacola de plástico. Desesperou-se, e logo todos estávamos mobilizados para resolver o impasse. A secretária desvendou o mistério: a sacola havia ficado em uma das cadeiras da sala de embarque. Recuperamos o queijo e, só então, o tenor seguiu tranquilo para o Chile. Situações assim me ensinaram que, nos bastidores, a arte não está só no palco, ela também vive no improviso”.
Ao longo de mais de 40 anos de atividades ininterruptas, a Dellarte realizou 580 concertos no Brasil e desenvolveu projetos voltados à formação de plateias para a música clássica. Aos 90 anos, completados em 2025, Myrian reuniu essas experiências em pequenos relatos que transitam entre desafios, conquistas e encontros com grandes nomes da música do século XX:
“Que este livro encontre outras plateias que possam se inspirar em alguém que dificilmente aceitava o ‘não’ como resposta”.
Casa Amarela transforma o livro em caminho e o caminho em encontro
Biblioteca comunitária criada por morador da Zona Norte do Rio cresce, multiplica-se e vira referência de cultura, educação e pertencimento
por Lais Silveira
Em Anchieta, bairro da Zona Norte do Rio, uma construção pintada de amarelo se tornou ponto de encontro, acolhimento e transformação. Mais do que um espaço físico, A Casa Amarela é hoje uma rede de cuidado coletivo que promove acesso à leitura, à cultura e à educação, construída a partir do envolvimento direto da comunidade.
A iniciativa nasceu em 2022, criada por Pedro Gerolimich, conhecido como Pedro do Livro. O apelido não é por acaso: o professor carrega o livro no apelido, nas mãos e na trajetória. Foi de seu desejo de aproximar a leitura da vida cotidiana que surgiu a ideia de reunir amigos e moradores de Anchieta e bairros próximos para criar uma biblioteca comunitária que fosse viva e aberta a todos.
Desde o início, o projeto foi pensado como algo maior do que estantes e acervos. A proposta sempre foi criar um espaço de acolhimento, escuta e pertencimento, onde crianças, jovens, adultos e idosos se sentissem vistos, respeitados e estimulados a sonhar.
“O trabalho da Casa Amarela busca promover, acima de tudo, acesso. Acesso à leitura, à educação de qualidade, à cultura e a um atendimento humano, respeitoso. A biblioteca vai muito além dos livros, é um espaço de acolhimento, de pertencimento e de construção de novas possibilidades”, explica Samara Ferreira, coordenadora do projeto.
Com sede inicial na Praça Nazaré, em Anchieta, A Casa Amarela cresceu e deu frutos: a biblioteca comunitária está presente em mais três locais – na Praça Granito, também em Anchieta; no bairro Mariópolis; e em Ricardo de Albuquerque. Este ano, um novo passo foi dado com a inauguração da cozinha comunitária da Casa Amarela, também em Anchieta, em parceria com o programa Prato Feito Carioca, ampliando o alcance social da iniciativa.
A atuação do projeto se organiza a partir de três eixos principais: educacional, social e cultural, sempre considerando as necessidades reais da população local. Oficinas, atividades educativas, ações culturais e esportivas fazem parte da rotina, reforçando a ideia de que a biblioteca é um equipamento completo e acessível a todos.
“A Casa Amarela é uma referência no território. As pessoas nos procuram, falam sobre o projeto. Anchieta passou a aparecer na mídia de forma positiva, não apenas associada à violência, mas também como um lugar onde existe uma biblioteca comunitária que trabalha para transformar realidades”, orgulha-se Samara.
Relação de confiança e pertencimento
Histórias de impacto surgem diariamente na Casa Amarela, mas algumas se tornam símbolos do que o projeto representa. Uma delas envolve uma mãe analfabeta que, por não conseguir ler, sempre pedia ajuda para escolher livros para o filho. Esse menino, hoje adulto, enquadra-se no espectro autista e, por muito tempo, teve grande dificuldade de sair de casa:
“Aos poucos, fomos construindo uma relação de confiança e pertencimento. Trabalhamos juntos a autonomia dessa família, respeitando todas as limitações. Agora esse rapaz participa da nossa turma de karatê, e a mãe também passou a frequentar as atividades”.
O futuro da Casa Amarela é de crescimento e cuidado. Os próximos passos envolvem fortalecer os espaços já existentes, ampliar a programação cultural e educativa, além de investir em ações voltadas ao lazer, à saúde física e à saúde mental da comunidade. Para Pedro, que transformou o livro em caminho e o caminho em encontro, o sentido do projeto está nas pessoas que frequentam a local:
“A Casa Amarela nasceu do amor pelo nosso território e da certeza de que a educação e a cultura podem transformar vidas. Cada criança, jovem ou adulto que passa por aqui me lembra diariamente que esse trabalho faz sentido”.
No trabalho de reciclagem, uma vida se transforma
Coletora de lixo encontra livro de Direito e, à base de muita luta, estuda até se formar advogada: ‘Meus filhos podem sonhar’
por Ana Julia Silveira
Algumas histórias não começam com oportunidades, mas sim com resistência. A de Lindiane Godoi é assim. Ao longo de três décadas, atravessou pobreza, violência, jornadas exaustivas de trabalho e uma sucessão de rupturas. Mas, enquanto a vida parecia lhe negar espaço para crescer, insistiu em criar seu próprio caminho até passar na prova da Ordem dos Advogados do Brasil. Hoje, o diploma é muito mais que um papel pendurado na parede, é símbolo de uma luta marcada por superações.
Lindiane sempre soube que a vida exigiria mais dela. Filha de uma família humilde, criada entre quatro irmãs e dois irmãos, cresceu em um ambiente onde não havia lugar para distrações. A infância em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, foi marcada por regras rígidas e por uma lógica simples, dura:
“Era preciso sobreviver, a gente foi sempre educado para isso. Não tinha espaço para sonhar”.
A vida ficou ainda mais difícil aos 14 anos, quando o pai foi assassinado. O episódio mudou a rotina da família e colocou a mãe, empregada doméstica, diante da missão de criar sozinha sete filhos. Lindiane, no entanto, mantinha a fé:
“Era tudo muito difícil, mas sempre acreditei que, independentemente de onde a gente veio, existe a chance de mudar a nossa realidade”.
Com a morte do pai, Lindiane precisou começar a trabalhar. Foram anos assumindo qualquer função que garantisse o básico. Aos 17, enfrentou uma ruptura dolorosa: foi expulsa de casa. Ela explica que não se encaixava mais na dinâmica familiar. As rotinas, as regras e os conflitos constantes acabaram tornando a convivência insustentável.
“Um dia simplesmente me disseram que não tinha mais espaço para mim. Fui para o mundo e não olhei para trás”, relata.
Pouco depois, veio a gravidez do primeiro filho, Leonardo. Sem ter onde morar, foi acolhida pela família paterna do menino, que abriu as portas e deu a ela um mínimo de estabilidade.
“Vivia cheia de medo, mas também começava a sentir outra coisa, uma vontade nova de mudar de vida”, conta ela, que teve na maternidade seu primeiro movimento interno de transformação: “Quando o Leo nasceu, entendi que queria dar a ele o que eu não tive. Acho que foi ali que a chavezinha começou a virar”.
Mudança de direção
Os contornos de estabilidade começaram a surgir aos 24 anos, quando Lindiane passou no processo seletivo da Codeca, empresa de Caxias do Sul. Entrou como roçadora, função responsável pela limpeza e manutenção das áreas verdes do município. O trabalho era pesado, mas o salário era melhor do que tudo o que ela já tinha recebido. Nessa época, ainda morava com a família paterna do filho e começou, pela primeira vez, a se manter com o próprio dinheiro.
“Conseguia pagar minhas coisas, ajudar dentro de casa e cuidar do Leo. Mas ainda faltava algo que me permitisse estudar”, ressalta Lindiane, contando que, quando surgiu o concurso interno para coletora de lixo, decidiu tentar. Passou: “Fiz por causa do salário. Aqui o custo de vida é alto, e precisava garantir o básico para mim e para o Leo”.
Foi no caminhão que uma mudança inesperada começou a acontecer. Durante o processo seletivo de resíduos, Lindiane pegava livros que encontrava no lixo reciclável. Um dia, achou um “Vade Mecum”, que reúne leis, códigos, estatutos e normas mais importantes de diversas áreas do Direito. Nunca tinha folheado um. Guardou. Leu. E algo mudou:
“Foi dali que veio o interesse pelo Direito. Nunca tinha pensado na área, mas aquele livro ficou me chamando…”.
Sem dinheiro para pagar um supletivo, entrou no EJA, programa de ensino para jovens e adultos da rede pública. A rotina era exaustiva.
“Mas eu tentava não olhar para o quanto era pesado. Se olhasse, travaria”, lembra.
Contra todas as expectativas, inclusive as suas, Lindiane fez o Enem. E entrou no curso de Direito da Universidade de Caxias do Sul (UCS), aos 36 anos. A alegria inicial logo deu lugar a um estranhamento. Nas primeiras semanas, sentia que não pertencia àquele lugar.
“Era como se existisse espaço de rico e espaço de pobre. Achava que aquele ambiente não era meu”, conta.
Mesmo assim, seguiu. Encontrou acolhimento entre professores e colegas, mas convivia com uma série de dificuldades: o cansaço acumulado do trabalho, a falta de tempo, a insegurança com tecnologia.
“Ficava apavorada para mexer no Drive. Hoje acho simples, mas naquela época vivia entre dois mundos”, diz.
A vida acadêmica seguiu enquanto ela administrava a maternidade solo de dois filhos. Nesse período, Lindiane enfrentou, também, uma das faces mais duras da violência para uma mulher:
“Passei por violência psicológica, doméstica… até medida protetiva eu precisei”.
Foram momentos em que a vida quase a fez parar. Um episódio em particular ilustra o quão exaustiva era a luta diária.
“Em uma terça-feira, ele invadiu minha casa, quebrou tudo, me agrediu. No outro dia, eu tinha prova. Tirei nota baixa e me senti culpada”, revela Lindiane que, mesmo com o trauma, não desistiu dos estudos: “Pensava que aquela era a porta para eu conseguir me libertar. E segui transformando o estudo em ferramenta de sobrevivência, autonomia”.
Inspiração para os colegas
Já formada em Direito, decidiu voltar à antiga empresa para tirar fotos de formatura com um caminhão de lixo e os colegas que acompanharam sua luta, torcendo por ela. As imagens foram publicadas nas redes da empresa e viralizaram. Com a repercussão, veio também o julgamento. Muitos comentários desmereciam a conquista. A enxurrada de críticas foi dura:
“Falavam que bacharel não é advogado, que advogado faz Uber, que eu não ia ganhar dinheiro. Muita coisa negativa. Machuca”.
Mas a repercussão trouxe algo maior. Colegas da Codeca que acompanharam sua história se inspiraram e voltaram a estudar.
“É tão lindo ver gente da coleta fazendo faculdade, buscando outra vida. Quando vejo isso, penso que valeu a pena”, conta, emocionada.
Hoje, Lindiane trabalha como agente de endemias na prefeitura e acaba de ser aprovada na OAB. Estuda, planeja e segue firme em cada pequena conquista. Ao olhar para trás, enxerga uma história feita de rupturas, mas também de escolhas e de uma obstinação silenciosa. Nada, porém, a emociona mais do que olhar para os filhos: Leonardo, agora com 20 anos, cursa Direito; Laura, de 10, cresce com oportunidades que Lindiane nunca teve.
“Entendia que precisava e queria muito buscar algo que transformasse minha vida e a dos meus filhos. Ver o Leo entrando na faculdade é algo que não consigo descrever. Meus filhos podem sonhar. Para mim, é isso que importa”, orgulha-se.
’É o Complexo’
Filme estrelado por moradores de favela do Rio mostra as dores e as esperanças de quem é tratado como coadjuvante na vida real
’É o Complexo’ abre trilogia inspirada em músicas de Chico Buarque
por Marco Antonio Rocha
As ruas da Favela do Engenho da Rainha, território violento da Zona Norte do Rio, são cenário do filme “É o Complexo”. Estrelada por atores da comunidade, a obra retrata as dores e as esperanças de quem é tratado como coadjuvante na vida real. Na trama, os estudantes de cinema Gabry e Mel fazem um documentário com traficantes locais. De classe média, a jovem se deslumbra com aquele universo de armas, bailes funk, códigos próprios de conduta e assistencialismo aos moradores. Mas a ilusão é inevitavelmente desfeita pela violência que não deixa vitoriosos nesta guerra.
“Conheci essa história ao assistir na internet a websérie dirigida pelo Gabriel Machado, que tem o mesmo nome do filme. Fiquei muito bem impressionado com os talentos que vi ali, apesar dos pouquíssimos recursos tinham. Achei que poderia contribuir e entrei em contato com os produtores”, conta Vinícius Coimbra, que divide a direção do filme com Machado: “Rodamos as cenas novamente, com equipamentos mais modernos e minha experiência, mantendo os atores e seus personagens. Minha intenção era fazer um filme com eles e para eles”.
“É o Complexo” abre uma trilogia concebida por Coimbra, inspirada em músicas de Chico Buarque – neste caso, é “Meu Guri” que serve de fio-condutor da história. A experiência de gravar por três semanas na Favela do Engenho da Rainha foi transformadora para o diretor: “As cenas foram criadas por eles, porque essa realidade não é a minha. Eles são muito talentosos, todos os diálogos foram improvisados a partir das suas próprias vivências. É uma realidade que precisa ser iluminada e debatida. As classes privilegiadas viram as costas para questões que acabam retornando para elas próprias”.
Um dos atores da obra, Da Champion, de 28 anos, ressalta que “É o Complexo” é diferente de outras produções sobre favela.
“Esse filme mostra nossa realidade, sem filtros e estereótipos. Meu sonho desde moleque é ser ator. Até já tinha gravado algumas coisas por conta própria, mas nada que chegasse nem perto disso. É uma emoção enorme ver que chegamos aqui, juntos”, diz ele, que tenta a vida como cantor de rap, trap e funk: “A grande mensagem que ‘É o Complexo’ passa é que o crime não vale a pena, porque a morte é uma certeza. A favela não tem nem mesmo o básico, mas isso não é capaz de fazer a gente parar de sonhar”.
E é no corre como motoboy que Índio, de 26, tenta ultrapassar as dificuldades para seguir a carreira de ator. Pai de um menino, estudou apenas até a terceira série:
“As oportunidades são raras na favela, mas esse filme chegou como uma grande chance. Espero voltar a estudar, por mais que eu saiba que é difícil. Já até procurei um curso de teatro, mas é muito caro”.
Para Jayzz, um dos idealizadores do projeto, o maior ganho que “É o Complexo” traz para a comunidade é apontar as saídas que, muitas vezes, ficam escondidas no dia a dia.
“A história busca conscientizar os moradores periféricos de todo o Brasil, pessoas que não têm condições de estudar, que enfrentam dificuldades imensas na hora de procurar trabalho. Claro que a vida de quem vive na favela é cheia de obstáculos, mas é possível vencer”, avisa Jayzz, que empresaria oito cantores do Alemão.
O filme está disponível no site https://vimeo.com/1101008432, com a senha EOC0207
Vinícius Coimbra
O encontro de paixões na luta olímpica
O encontro de paixões na luta olímpica
Aluna e professor de projeto inédito são figurinhas carimbadas nos pódios pelo país
por Guilherme Frota
Nos tatames, Maria Eduarda Ribeiro do Nascimento é sinônimo de garra e esperança por títulos. Moradora da Zona Norte do Rio, a jovem de 16 anos é um dos nomes mais promissores da luta olímpica no país. Com oito medalhas conquistadas em Brasileiros e Estaduais, ela segue em busca de mais e demonstra nos treinos que qualquer desafio pode ser superado.
“Ela é uma chilena que veio lutar com a gente hoje, é experiente, tem quase o dobro da minha idade. Achei que ia tomar uma surra, mas não foi bem assim”, orgulha-se Duda, ao lado de sua oponente após mais uma sessão de treinos.
Aluna do professor iraniano Sajad Salami, a atleta faz parte de um grupo de luta olímpica que nasceu na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Trata-se de um projeto de extensão que busca incluir alunos e não alunos no esporte, justamente na instituição onde Sajad dá aulas, como professor de matemática, durante a semana:
“O Wrestling na Uerj nasceu em 2023. Esse esporte, que no Brasil é conhecido como luta olímpica, é a paixão dos iranianos. Para nós, é como o futebol para os brasileiros!”.
Técnico do Brasil no Pan-Americano de 2023, Salami também busca, a partir do Wrestling na Uerj, formar uma equipe de lutadores. Afinal, a paixão pelo esporte milenar o segue por onde vai, já que pratica a modalidade desde os 9 anos. Hoje, inspira jovens, como Duda, que têm vontade de aprender.
“Ela começou a treinar com a gente há quase um ano e já ganhou várias medalhas. Duda participou de três ou quatro competições estaduais e nacionais. Acho que ela vai representar muito bem o Brasil no futuro”, aposta o professor.
Com tatames importados e um ambiente bem preparado, Salami cultiva a esperança de encontrar apoio financeiro. O objetivo é ampliar as aulas de luta, mas, enquanto houver jovens interessados, o iraniano diz “dar um jeito”. Recentemente, o projeto Wrestling na Uerj foi renovado até 2027.
Turbante-se de Ancestralidade
A amarração que entrelaça histórias
Projeto carioca mostra que usar turbante é também um ato de autoestima, ancestralidade e conexão entre mulheres
por Ana Julia Silveira
Há encontros que mudam destinos. Às vezes, é em um gesto simples — como uma mulher ensinando outra a amarrar um pano na cabeça — que nasce algo muito maior. Foi assim que Priscila Teodoro descobriu, em 2018, que o turbante podia ser mais do que um acessório: podia ser um laço entre mulheres, histórias e tempos.
“Comecei vendendo turbantes, só vendas mesmo. Mas as clientes sempre me pediam ajuda nas amarrações. Colocava elas sentadas, dava um espelhinho, ensinava como deveria ser feito e depois deixava tentarem sozinhas”, lembra a moradora do Morro do Urubu, em Pilares, Zona Norte do Rio: “Aos poucos, aquilo deixou de ser só sobre vender. Era um momento de troca, de autoestima, de afeto”.
Uma das clientes trabalhava no Instituto Nacional do Câncer (Inca) e foi a primeira a perceber que o trabalho de Priscila ia além das amarrações. Foi ela quem a convidou para participar da campanha do Outubro Rosa, ensinando as pacientes em tratamento oncológico a amarrar seus turbantes:
“Fui lá para ensinar, mas saí transformada. Vi o quanto aquele gesto podia levantar a cabeça de uma mulher, no sentido mais profundo mesmo”.
A cliente acabou se mudando para outro estado, mas deixou uma semente. E, como quem está em movimento atrai novos caminhos, outra mulher logo cruzou o de Priscila: desta vez uma professora.
“Ela me perguntou se eu toparia ir à escola dela, no Novembro Negro, para ensinar as amarrações aos alunos de uma turma do ensino médio. Fui e, a partir dali, o que era apenas venda virou, também, uma oficina”, orgulha-se a afroempreendedora, dizendo que aquela vivência despertou uma nova curiosidade: “Não queria somente ensinar a amarrar, queria ensinar o que o turbante significa. Então comecei a estudar a história da África e a cultura afro-brasileira. Descobri coisas lindas, aprendi que o turbante é uma linguagem. Em algumas regiões ele representa paz, em outras indica se uma mulher é casada ou não. Vai muito além da moda”.
Filha de axé, Priscila aprendeu as primeiras amarrações no terreiro. Entre ojás e cantos, compreendeu o significado espiritual do pano: símbolo de fé, identidade e respeito. Foi nesse território que o Turbante-se de Ancestralidade começou a tomar forma — primeiro como gesto, depois como propósito. Em 2024, o projeto se tornou oficial com o edital Ações Locais, da Prefeitura do Rio. Para participar, Priscila precisou formar um coletivo. Assim nasceu o Pirâmide Ancestral, junto de duas amigas afroempreendedoras.
“Quando comecei a descrever o projeto, percebi que ele já não era só meu. Era sobre o coletivo, sobre como uma mulher chama a outra e as coisas vão crescendo”, conta.
Com apoio do edital, o Turbante-se de Ancestralidade ganhou fôlego: passou a percorrer escolas, comunidades, grupos LGBTQIA+ e espaços de acolhimento, espalhando consciência e ancestralidade. Hoje, o projeto segue itinerante, e Priscila entende que seu trabalho ultrapassa o gesto manual de amarrar o pano:
“Minha mãe de santo me disse que essa é uma das minhas missões de vida, levar esse conhecimento além dos terreiros. E sinto isso mesmo: é um chamado. Meu sonho é impactar mais gente… mulheres, jovens, idosos, pessoas LGBTQIA+. Que elas também possam transformar isso em renda, fazer seus turbantes e levar essa história adiante”.
ViDançar
A cada passo de dança é um caminho que se abre
Criado no Complexo do Alemão, projeto leva arte e educação a novos territórios, transformando a vida de milhares de jovens
por Lais Silveira
O que começou como uma pequena oficina de balé no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, em 2010, hoje é um projeto que movimenta sonhos e realidades em diferentes regiões do Brasil. À frente do ViDançar, a idealizadora Ellen Serra transformou uma experiência voluntária em iniciativa que une disciplina, arte e oportunidades para crianças e jovens.
“Depois de cinco anos fazendo trabalho voluntário no Alemão, percebi que só o apoio pontual não mudava a vida daquelas crianças. Então tive a ideia de montar uma oficina de balé clássico, mas com a exigência de que os alunos estivessem estudando e com a carteira de vacinação em dia. A gente acompanha isso até hoje”, conta Ellen.
O projeto começou com oito alunos e, no ano seguinte, já tinha 14 meninas inscritas. Desde então, mais de 5 mil famílias já foram beneficiadas pelas aulas do ViDançar, que hoje atende mais de 500 crianças e jovens em diferentes territórios, entre eles o Complexo do Alemão, Duque de Caxias, o Espírito Santo e o Sertão da Bahia.
Em 2013, o projeto passou a inscrever alunos em grandes audições e o talento dos participantes logo começou a se destacar. O ViDançar já soma oito aprovações na Escola do Teatro Bolshoi e resultados expressivos em outras instituições de referência, como a Escola Maria Olenewa, a Alice Arja, o Studio Gouveia e a Petite Danse. O talento dos jovens também já ultrapassou fronteiras: Luis Fernando Rego integra hoje o Dance Theatre of Harlem (EUA), e Camila Braga faz parte do Imperial Classical Ballet (Inglaterra).
As conquistas seguem crescendo: em 2025, duas alunas participaram de um intercâmbio na França e outras quatro se preparam para novas experiências no mesmo país e em Portugal, em 2026. O projeto, que nasceu com o propósito de unir arte e educação, segue abrindo caminhos para o futuro de muitos jovens:
“Eu me sinto muito feliz de ver todo o trabalho, que é feito em equipe, por várias pessoas, permitindo que essas possibilidades tão bonitas aconteçam”.
Biblioteca Comunitária Wagner Vinício
História da Biblioteca Comunitária Wagner Vinício é como um livro que o mundo precisa conhecer
Espaço em Rio das Pedras abriga crianças e jovens para que encontrem na leitura um lugar de pertencimento, afeto e transformação social
por Bárbara Faria
A história da Biblioteca Wagner Vinício, em Rio das Pedras, é desde o início escrita a muitas mãos. Antes de ser o que é hoje, existia o Projeto Plantando o Futuro, uma iniciativa financiada pelo Instituto C&A, que a partir de 1999 promovia diversas atividades culturais e educativas para jovens e adultos. Anos depois, entre 2004 e 2005, o programa Prazer em Ler foi lançado pela instituição com a proposta de transformar o projeto em uma biblioteca comunitária. Em 2006, a comunidade, que sempre foi a principal construtora do acervo, reuniu-se para escolher o nome daquele espaço.
O mais votado foi o de Wagner Vinício, um jovem morador local que, com um carrinho de mão abarrotado de livros, havia sido o primeiro a enxergar ali a possibilidade de um futuro diferente. Wagner faleceu em decorrência de um acidente de trânsito, mas seu legado foi eternizado com um lindo propósito.
Hoje, quem mantém o espaço vivo são duas mulheres persistentes: Juliana Moreira e Simone Araújo. Juntas, elas fazem toda a gestão e são as responsáveis pelas articulações externas, contando com a ajuda de parceiros, colaboradores e voluntários, que contribuem mensalmente para garantir a sobrevivência desse grande sonho. Desta forma, vão ampliando e renovando o catálogo por meio de doações literárias que priorizam obras sobre diversidade, ancestralidade, questões raciais, identidade, direitos humanos, autores negros, indígenas e periféricos.
Quando um livro muda uma vida
A Biblioteca Comunitária Wagner Vinício tem transformado o cotidiano das crianças e jovens de Rio das Pedras desde sua criação. Por meio das rodas de leitura, mediações, oficinas e atividades lúdicas, desperta o desejo de aprender e de sonhar, um lugar onde os livros passam a ser uma ponte para a liberdade.
“Sou um exemplo marcante disso. Cheguei aqui como uma criança curiosa, cresci entre estantes, páginas e afetos. Hoje, sou graduanda em Pedagogia pela Uerj e cuido do lugar que me viu florescer. A biblioteca me ensinou a ler o mundo e a acreditar que, mesmo morando em uma comunidade, era possível voar alto, sem esquecer minhas origens”, orgulha-se Juliana, que vê sua história se repetir em muitas outras trajetórias de crianças e adolescentes que encontraram na leitura um caminho e chegaram a lugares inimagináveis.
A biblioteca que acolhe, cura e liberta
Mais que um espaço de leitura, a biblioteca é afeto organizado em estantes. Durante a pandemia, quando o isolamento social privou todos do cotidiano escolar e de outras atividades que faziam parte do dia a dia, o local mais uma vez foi abrigo. Por meio de um projeto aprovado em edital da Fiocruz, mais de 40 crianças de Rio das Pedras receberam reforço escolar e acolhimento. Essa iniciativa foi importante para a autoestima dos pequenos e para a retomada do prazer em aprender, unindo o pedagógico ao literário.
“Além disso, a biblioteca proporciona outras ações em prol da formação cultural e social das crianças e dos adolescentes. Visitas a museus e a centros culturais se tornam experiências inesquecíveis para muitos deles. Assim como a entrega de kits escolares, presentes simbólicos e a realização de festas e celebrações coletivas se tornam lembranças preciosas”, conta Simone.
Os desafios enfrentados, porém, são muitos: falta de financiamento contínuo, escassez de voluntários, dificuldades sociais das famílias e a violência da região. Ainda assim, a Biblioteca Comunitária Wagner Vinício resiste. O desejo de todos é simples: que ela continue existindo, cumprindo o papel essencial de formar leitores e cidadãos.
Quem é de fora da comunidade também pode fazer parte dessa corrente de esperança ao contribuir mensalmente com a campanha “Amigos da Biblioteca”, iniciativa criada por Simone Araújo, que busca arrecadar recursos por meio de contribuições mensais de R$ 20. Esse apoio tem sido fundamental para suprir necessidades básicas, como compra de materiais de limpeza, pequenos lanches e manutenção do espaço.
Voluntariar-se em oficinas e atividades, doar livros de qualidade e divulgar a biblioteca também são ações importantes. Toda a colaboração é uma forma de fortalecer a democratização do acesso ao livro.
Rio de Música
A arte e a cidadania seguem seu curso
Projeto celebra 12 anos oferecendo aulas gratuitas de sete instrumentos a crianças, jovens, adultos e idosos
por Marco Antonio Rocha
Em uma das regiões mais conflagradas do Rio de Janeiro, a música tenta vencer o barulho dos tiros. Criado no Jacarezinho e atualmente funcionando em Higienópolis, na Zona Norte, o Rio de Música insiste em fazer a melodia do piano se encontrar com os acordes de guitarra, enquanto os dedos dos alunos de flauta percorrem o instrumento com delicadeza. É nesta mistura de sons que o projeto chega aos 12 anos, ocupando três salas do Colégio Estadual Professor Clóvis Monteiro.
Da primeira sede, na viela conhecida como Garganta do Diabo, no Jacarezinho, sobrou apenas o desejo de ver a escola seguindo seu curso, como um rio de esperança na região que tem um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado. Já as paredes foram estilhaçadas por balas perdidas, mas o sonho saiu ileso. E fortalecido.
Hoje o Rio de Música oferece aulas gratuitas de sete instrumentos a crianças, jovens, adultos e idosos: baixo, violão, piano, percussão, bateria, flauta e canto. Todos os professores acompanham grandes artistas como Maria Bethânia, Hermeto Pascoal, Edu Lobo e Egberto Gismonti.
“A ideia surgiu quando visitei o Jacarezinho, a convite do Antônio Carlos Costa, presidente da ONG Rio de Paz. Havia muitos problemas, crianças e jovens nas ruas sem ter o que fazer. Mas percebemos também possibilidades incríveis, uma força cultural muito potente”, lembra Bruno Aguilar, fundador e professor de baixo do projeto, orgulhoso ao contar que a escola já impactou diretamente mais de 500 pessoas: “Nosso objetivo nunca foi somente formar músicos, mas sim mostrar que a música é um instrumento de transformação, forma de despertar uma sensibilidade diferente para ver o mundo”.
Amiga inseparável, conselheira nos melhores momentos e ombro à disposição quando a dor aperta, Dona Marlene encontrou na arte uma forma de superar a morte do marido, após um casamento de 32 anos:
“Cheguei em um momento muito difícil e todos me abraçaram, fui muito bem recebida. Depois perdi meu filho também, mas tento não me abater. Para o Rio de Música, não interessa se a pessoa é nova ou velha, preta ou branca. No projeto eu tenho amigos, me sinto à vontade. É isso o que me ajudou, é isso o que me ajuda. O Rio de Música mudou minha vida”.
Para Aline Gonçalves, professora de flauta, a atividade musical tem de fato esse poder.
“É claro que se pode fazer música sozinho, mas em grupo a fluidez é incrível porque todo esse processo envolve olhares, gestos… Quando se entende que o jogo é jogado junto, a música acaba sendo um momento de agregar. Tenho uma lembrança viva da minha escola de música, quando eu ficava a tarde inteira fazendo as minhas aulas, observando as de outros alunos e trocando ideias com colegas. Aquilo acabava virando um lugar de aprendizado que é ainda maior do que só aquele momento que chamamos de aula”, recorda Aline.
Na escuridão, uma nova forma de enxergar
Em meio a vultos e objetos de contornos indefinidos, a música surge com mensagens nítidas, que se moldam às emoções de Fábio Santos. Aluno do Rio de Música, ele foi acometido por uma neurotoxoplasmose há oito anos. Ficaram a cegueira total do olho esquerdo, apenas 10% de visão no olho direito, limitações na coordenação motora e uma vontade imensa se seguir na música, já que era percussionista e os movimentos passaram a ser um desafio. Foi pela flauta que Fábio descobriu uma nova forma de ver o mundo: através da audição.
“Tenho restrições também nos dedos, mas não me impedem de tocar flauta. As aulas são uma forma de superação, permitem que eu não perca minha musicalidade. Através da flauta toco corações. A música é um jeito não apenas de ver o mundo, mas de me mostrar para ele. O instrumento fala por nós, qualquer instrumento bem tocado tem o poder de passar uma mensagem”, afirma o morador de Manguinhos.
Coordenador do Rio de Música, Thiago Freitas ressalta que, para o projeto seguir adiante, é fundamental a ajuda de colaboradores:
“A importância de colaborar com o Rio de Música é a garantia de seguirmos democratizando o acesso à educação musical para pessoas de áreas periféricas da Zona Norte carioca. Quem desejar, pode nos ajudar tanto com doações pontuais, através da chave Pix pixriodemusica@gmail.com, ou de forma recorrente, pelo site benfeitoria.com/riodemusica. Também é possível adquirir as camisas do projeto pelo endereço reserva.ink/riodemusica.